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Bill Morrison fala sobre o desafio de adaptar clássico dos Beatles para quadrinhos

Editor da revista MAD e beatlemaníaco na adolescência, Bill Morrison criou uma versão de fã para fã da psicodélica animação

Por Bruno Dorigatti

O desafio e a responsabilidade de Bill Morrison foram enormes. Adaptar nada menos que a animação icônica da banda de rock mais importante do planeta. Lançado em 1968, Yellow Submarine trouxe para o cinema a psicodelia que começava a se desenhar em álbuns como Rubber Soul (1965) e Revolver (1966) e chegou ao auge em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967). E, mais uma vez, a banda de Liverpool revolucionou, agora, o universo dos desenhos animados, em uma obra que consegue prender a atenção da petizada e também de seus pais, com uma história em que busca reforçar o valor da música, da empatia, do amor e da amizade, conceitos — infelizmente e uma vez mais — fora de moda nesse trágico início de 2019.

Para celebrar os 50 anos da animação, os remanescentes da banda, em parceria com a editora britânica Titan Comics, decidiram transpô-la para o universo dos quadrinhos, e o resultado é a belíssima graphic novel Yellow Submarine, publicada em dezembro passado pela DarkSide Books. A empreitada, a cargo do quadrinista Bill Morrison, que já trabalhou na Disney e em clássicos como Os Simpsons e Futurama, apresenta uma obra de encher os olhos, com todo o humor dos Fab Four e a paleta de cores psicodélica do filme transposto para os quadrinhos.  

Inspirado em várias músicas dos Beatles, o longa conta a história de Pepperland, um paraíso subaquático onde o vento espalha as adoráveis canções da banda do Sgt. Peppers aos quatro cantos e onde ninguém se sente sozinho. Quando o líder dos Malvados Azuis, que odeia música, ameaça as cores e a existência de Pepperland, o marinheiro idoso jovem Fred sai no lendário Submarino Amarelo para buscar ajuda e recruta os garotos de Liverpool para libertar sua cidade. A música e o amor como resposta aos ataques e ao autoritarismo dos Malvados Azuis, que odeiam tudo o que torna Pepperland especial é o que se sobressai da história.

Bill Morrison, Beatles Yellow Submarine

A seguir, Bill Morrison comenta em entrevista exclusiva para o DarkBlog, a importância que a os Beatles tiveram e têm em sua vida e os desafios e a responsabilidade em adaptar uma obra tão icônica como esta.

Você se recorda da primeira vez em que assistiu a Yellow Submarine?

Bill Morrison: Acho que foi nos anos 1970, quando foi exibido na TV. Por alguma razão, eu perdi quando estreou nos cinemas, mesmo tendo assistido a A Hard Day’s Night (1964) em um drive-in com minhas duas irmãs e meu irmão mais velhos quando estreou.

Poderia comentar o impacto e as primeiras impressões que a animação lhe causou?

Bill Morrison: Eu provavelmente fiquei hipnotizado com as cores e o imaginário psicodélico. Eu já conhecia todas as canções e era um beatlemaníaco de carteirinha, então, de certa maneira, foi como assistir a uma série de vídeos dos Beatles em desenho animado. Foi sensacional e arrebatador, e adorei que era diferente do habitual estilo Disney de animação de longa-metragem.

E o que Yellow Submarine significa para você hoje em dia?

Bill Morrison: Hoje me interessa muito mais a mensagem do filme. Adoro que ele transmite a ideia de que o ódio e a maldade podem ser suplantados pelo amor e a bondade. Também gosto da ideia de que, Jeremy, o personagem que até mesmo a maioria dos Beatles pensava ser um perdedor, acabou por se tornar o herói da história. Acho que essas são mensagens muito importantes para crianças e adultos de todas as idades hoje em dia.

E qual a importância dos Beatles pra você?

Bill Morrison: Sou fã dos Beatles desde que vi a banda pela primeira vez no [programa de TV] Ed Sullivan Show, em 1964. Eu era bem pequeno, mas me lembro de assisti-los com meus irmãos mais velhos e o quão empolgante aquilo era. Meu irmão e minhas irmãs sempre colocavam os discos dos Beatles para tocar em casa, então eu conhecia todas as canções desde muito jovem. Na verdade, o primeiro disco que ganhei era uma coletânea de canções da banda, Alvin and The Chipmunks Sing The Beatles Hits. Nos anos 1970, quando eu era adolescente, houve um renascimento da beatlemania, com o lançamento de diversas coletâneas, como Rock & Roll Music, Love Songs, os álbuns de hits com capa vermelha e azul etc., e comprei todos eles. Então eles sempre foram algo muito importante em minha vida.

LEIA TAMBÉM: BAR QUE AJUDOU A REVELAR OS BEATLES CHEGA AO BRASIL EM 2019

Como surgiu a oportunidade de fazer esta adaptação de Yellow Submarine para os quadrinhos?

Bill Morrison: Em 1998, quando Yellow Submarine completou trinta anos, a Dark Horse Comics me procurou para escrever e desenhar uma adaptação do filme com 48 páginas. Eu tinha feito umas 25 páginas, além da capa, quando o projeto foi cancelado. Quase vinte anos depois, essas páginas chegaram ao agente da [gravadora dos Beatles] Apple, e ele me convidou para terminar o projeto com a Titan Comics, dessa vez em um livro com 96 páginas e em capa dura.

Quais foram os momentos mais desafiadores nesta adaptação? E os mais difíceis?

Bill Morrison: O maior desafio foi criar uma versão de Yellow Submarine que não tem som ou animação, mas, ainda assim, com algo a oferecer. Quando comecei o projeto estava bastante empolgado em um primeiro momento, mas então comecei a pensar como um beatlemaníaco e me perguntei: “Por que eu iria querer experimentar Yellow Submarine sem som ou animação quando eu poderia simplesmente assistir ao filme?”. Então me dei conta de que tinha que ser mais criativo ao pensar o desenho das páginas e dos painéis, e tirar proveito de verdade das coisas que eu poderia fazer graficamente, impossíveis de serem abordadas no filme. Uma vez que cheguei a essa compreensão, fiquei empolgado de novo e me dei conta de que eu não estava criando uma versão menor do filme, mas uma versão apaixonada em graphic novel da história.

Paul e Ringo participaram em algum momento do projeto?

Bill Morrison: Não, embora creio que ambos o aprovaram.

As falas dos personagens são bem fiéis ao filme na maior parte do tempo. Como decidiu em que momentos seguir o original e em quais sintetizar algumas ideias e passagens?

Bill Morrison: Em geral, me mantive fiel ao filme, mas há momentos nele em que as coisas acontecem sem diálogos. Em uma graphic novel, se você tem várias páginas com imagens sem diálogos pode começar a parecer como um picture book, e o leitor tem que parar e estudar as imagens detalhadamente para entender o que está acontecendo. Nessas cenas silenciosas, acrescentei algum diálogo para ajudar a história a seguir adiante.

Bill Morrison, Beatles, Yellow Submarine

Você tem uma grande experiência com quadrinhos, especialmente aqueles ligados a animações, tendo trabalhado para a Disney e com Os Simpsons. Como essa experiência o ajudou na adaptação de Yellow Submarine?

Bill Morrison: Quando eu pintava os pôsteres dos filmes da Disney, os personagens necessariamente deveriam ser desenhados no estilo da animação original. Eles chamavam o trabalho de desenhar “seguindo o modelo”. Por causa disso, desenvolvi a capacidade de colocar meu próprio estilo de lado. Essa disciplina continuou no meu trabalho com os personagens de Os Simpsons e Futurama. Então não foi difícil estudar o estilo do traço de Yellow Submarine e chegar a um resultado satisfatório.

E você se tornou o editor da revista MAD no começo de 2018, quando a clássica revista fez um reboot, reiniciou a numeração e a redação se mudou para a Califórnia, após a aposentadoria do editor John Ficarra. Como têm sido estes primeiros meses a frente da revista, os desafios e os prazeres de dirigir uma instituição norte-americana tão icônica como a MAD?

Bill Morrison: Tem sido incrível. Muito desafiador, mas também bastante gratificante. Dada a importância cultural que a MAD tem, eu comparo a responsabilidade a um ovo Fabergé* preenchido com massinha Silly Putty*, e o meu trabalho é tirar a massinha do ovo sem quebrá-lo.

[Produzidos por Peter Carl Fabergé e seus assistentes no período de 1885 a 1917 para os czares da Rússia, os ovos Fabergé são obras-primas da joalharia, elaborados delicadamente com esmalte, metais e pedras preciosas, e escondiam surpresas e miniaturas em seu interior. Já a massinha Silly Putty é feita a partir de polímeros de silicone que possuem propriedades físicas incomuns, o que faz com que ela salte, e possa fluir como um líquido, mas ela também pode quebrar quando recebe um golpe forte.]

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