Dark

BLOG

O UNIVERSO DARK DE FÃ PARA FÃ


EntrevistaProfissionais da Morte

Como funciona o trabalho de necromaquiagem?

Leia a entrevista com Ariana Fernandes, maquiadora especialista em cadáveres

02/04/2025

Você está num velório e se despede de uma pessoa querida com semblante plácido, pacífico, como quem está apenas dormindo. Para garantir essa sensação entre os entes queridos daqueles que se foram, existe um tipo de profissional muito específico por trás. A pessoa que cuida da aparência dos mortos e os prepara para a despedida é chamada de necromaquiadora. 

LEIA TAMBÉM: Dr. Richard Shepherd: Como é trabalhar com a Morte

Retratada brilhantemente por Jamie Lee Curtis no clássico noventista Meu Primeiro Amor – com Macaulay Culkin e Anna Chlumsky –, a função, claro, também tem representantes aqui no Brasil. Conversamos com Ariana Fernandes para entender melhor como funciona o trabalho de uma necromaquiadora.

DarkBlog: Começando pelo começo: como funciona o trabalho de uma necromaquiadora?

Ariana Fernandes: Basicamente, a necromaquiagem consiste em fazer uma pessoa falecida ter o aspecto mais próximo possível do que tinha em vida, para que a família possa se despedir de forma menos traumática. O trabalho de necromaquiagem não envolve apenas a maquiagem, como muitas pessoas acreditam. Após a solicitação do contratante, o serviço completo consiste em realizar os seguintes procedimentos no falecido: higienização do corpo; sutura; tamponamento; cabelo, barba e unha; vestimenta; maquiagem; disposição do corpo na urna (caixão); e fazer a ornamentação.

D: Como você entrou nessa carreira? E há quantos anos trabalha com isso? Tem ideia de quantos “clientes” atendeu até hoje?

AF: Eu já maquiava pessoas vivas, fazia principalmente maquiagem cinematográfica. Resolvi então, fazer o curso de necromaquiagem para aprimorar as maquiagens de realismo em filmes de terror, que seriam com sangue, hematomas, tiros etc. Fiz o curso e, durante o estágio, me encantei pela área. Resolvi intercalar a necromaquiagem com a maquiagem em pessoas vivas, afinal a área da beleza aborda diferentes segmentos. Eu trabalho desde 2022, tanto com a necromaquiagem como também como professora em cursos da área pós-morte. Difícil saber quantas pessoas eu já fiz, mas foram muitas. Desde casos simples (morte por causas naturais) até os mais complexos (acidentes)

D: No começo, você tinha algum medo, receio? Se sim, como lidou com isso?

AF: No começo, são muitas informações e sensações juntas e eu achei que passaria mal. Num certo momento, pensei até mesmo que fosse desmaiar. Mas com o tempo você acaba aprendendo a lidar com o ambiente e também a não levar trabalho pra casa. Ficar pensando nos casos atendidos pode te prejudicar tanto profissionalmente quanto psicologicamente.

D: Quais as semelhanças e diferenças entre a maquiagem de pessoas vivas e de pessoas mortas?

AF: A diferença está na complexidade do trabalho. Para maquiar pessoas falecidas você precisa ter um psicológico bom, já que vai se deparar com diferentes tipos de mortes. Para isso, terá que dispor de técnicas específicas para cada caso. Já a maquiagem em pessoas vivas é algo mais leve, natural e semelhante entre uma pessoa e outra.

D: Alguma diferença nos produtos usados? Alguma especificidade? Há marcas, acabamentos, algo mais indicado para lidar com o rigor mortis?

AF: O material utilizado na necromaquiagem é o mesmo tipo usado em pessoas vivas. Claro que não se deve utilizar o produto usado para necromaquiagem para realizar maquiagem em pessoas vivas. No meu caso, tenho uma maleta exclusiva para necromaquiagem e outra para maquiagem.

D: Quais os maiores desafios e vantagens de ser uma necromaquiadora?

AF: O maior desafio da necromaquiagem é lidar com o preconceito em relação a essa área, muitos acham desnecessária a maquiagem em falecidos. Lidar com comentários maldosos nas redes sociais e com a falta de informação de quem comenta é sempre complicado. Eu diria que uma das vantagens é ver a vida com outros olhos. Você aprende a aproveitar cada momento e oportunidade. Você acaba dando mais valor aos momentos simples.

D: Você assistiu ao filme Meu Primeiro Amor, clássico da Sessão da Tarde? O quão real é o trabalho da necromaquiadora retratada na história?

AF: Assisti ao filme novamente para poder responder essa questão e posso dizer que ele mostra exatamente como é a profissão. É possível perceber a ênfase no fato de que não devemos realizar uma maquiagem diferente do que a pessoa usava em vida, seguindo a referência que a família nos passa (geralmente através de fotos). Achei maravilhoso o fato de a personagem usar o termo “falecido” e não “defunto”, “morto” ou “cadáver”. Eu ensino isso para os meus alunos. “Falecido” é uma maneira mais respeitosa para se tratar, ainda mais neste momento sensível pelo qual a família está passando.

D: Quais os casos mais difíceis de se trabalhar, você pode dar exemplos (preservando, claro, a dignidade dos envolvidos)?

AF: Cada caso tem sua complexidade, mas eu posso citar um desafio como profissional e um caso pessoal também. No caso pessoal, eu preparei o corpo do meu avô quando ele faleceu. Até hoje me perguntam como consegui e, sinceramente, naquele momento eu só queria deixá-lo bonito e arrumadinho do jeito que ele gostava. Eu, como neta, senti que tinha que fazer isso. Agora, no caso profissional, preparei o corpo de uma pessoa que morreu devido a um câncer. Ele estava com a pele muito amarela e confesso que achei que não seria possível realizar a maquiagem. Apliquei diversas técnicas e, no final, consegui deixá-lo com uma aparência muito melhor para que a família pudesse se despedir. Foi um dos casos mais difíceis mas também muito gratificante.

D: Algum episódio interessante (ou assustador) aconteceu contigo?

AF: Não chega ser assustador, mas teve uma vez em que eu estava realizando os procedimentos no corpo de um jovem que morreu de maneira violenta. O semblante dele estava bastante retesado, os músculos tensos. Eu sempre falo com o falecido durante as etapas da necromaquiagem e, durante o trabalho, ele foi ficando com uma aparência mais natural. Quando estava finalizando, já na hora da ornamentação, senti que ele apertou a minha mão. Não como um espasmo ou algo do tipo, parecia que ele estava agradecendo. Pode parecer estranho, mas foi o que eu senti na hora. Percebi que naquele momento ele estava em paz.

LEIA TAMBÉM: 4 Profissões da morte que você não imaginava que existiam

Sobre Liv Brandão

Avatar photoJornalista, criadora de conteúdo e roteirista. Passou por veículos como O Globo e UOL sempre falando de cultura e entretenimento. É especialista em séries de TV, mas também fala de filmes, música, literatura e o que mais vier.

0 Comentários

Deixe o seu comentário!


Obrigado por comentar! Seu comentário aguarda moderação.

Indicados para você!

Confissões do Crematório + Brinde Exclusivo
R$ 79,90
5% de Descontono boleto
COMPRAR
Nem Tudo Que Resta é Lixo + Brindes Exclusivos
R$ 79,90
5% de Descontono boleto
COMPRAR
  • Árvore de Ossos

    Sobreviventes
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
CuriosidadesE.L.A.S

O segredo do sucesso de Jeneva Rose

Jeneva Rose é um sucesso, seu livro Casamento Perfeito vendeu mais de 2,5 milhões de...

Por DarkSide
Crime SceneCuriosidades

Como Vincent Bugliosi levou Manson e seus seguidores à justiça

Durante seu tempo como promotor do condado de Los Angeles, Vincent Bugliosi alcançou...

Por DarkSide
FilmesNovidades

Elenco das cinebiografias dos Beatles é anunciado

Confesso que eu torci para ser uma mentirinha de 1º de abril, mas a notícia foi...

Por Liv Brandão
FilmesListas

As mortes mais ridículas de Premonição

Desde que o primeiro filme foi lançado em março de 2000 (sim, já se passaram 25...

Por DarkSide
Crime Scene FictionLançamentoLivros

Lançamento: Tudo em Família, por John Marrs

Imagine uma casa dos seus sonhos. Um refúgio abandonado, marcado pelo tempo, mas...

Por DarkSide