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ArtigoCaveirinha

Como sentir-se em casa em um mundo estranho?

Em Shaun Tan, a estranheza é reinventada como algo extraordinário

09/01/2024

“Um compilado de histórias em que pessoas comuns reagem a incidentes estranhos”. É assim que o escritor e ilustrador Shaun Tan descreve Tales from outer suburbia (2008). Uma obra que os leitores brasileiros conhecem com dois títulos diferentes, vertidos à língua portuguesa pelo tradutor, escritor e jornalista Érico Assis: Contos de Lugares Distantes (Cosac Naify, 2012) e Contos dos Subúrbios Distantes (DarkSide® Books, 2023), lançamento que traz de volta um dos mais emblemáticos livros do premiado artista australiano, que estava fora de catálogo desde 2015.

LEIA TAMBÉM: SHAUN TAN: 7 CURIOSIDADES SOBRE O AUTOR DE CONTOS DOS SUBÚRBIOS DISTANTES

Aqui, passaremos por uma apresentação da obra, entrelaçando trechos de uma entrevista inédita com Shaun Tan, realizada para a dissertação de mestrado Literaturas transetárias: leituras para além das idades em Contos de lugares distantes, de Shaun Tan, recém-concluída no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). A busca é refletir sobre histórias que acontecem em um território de subjetividades e fronteiras diluídas.

Saudações e preâmbulos feitos, voltemos ao livro. 

Os sonhos acordados de Shaun Tan 

Para quem não conhece, Contos dos Subúrbios Distantes é uma coletânea de quinze narrativas curtas que, apesar de não terem continuidade umas nas outras, encontram-se em uma mesma ambiência temática: a conexão entre realidade e fantasia. O cenário foi inspirado no subúrbio de Perth, norte da Austrália, onde o autor nasceu e passou a infância. “Era principalmente um livro para mim, o tipo de livro que eu pessoalmente gostaria de ler. Também é em parte um livro para o meu irmão (o Paul, que aparece na dedicatória) porque é sobre nossa infância crescendo juntos. Acabou tendo um público muito amplo e também internacional, o que me surpreendeu”, conta Shaun Tan. 

“Sonhos que se pode trazer para o mundo da vigília”, escreveu o escritor Neil Gaiman. Ou ainda: “tramas que Kafka poderia ter contado, caso gostasse um pouco mais da vida”, também nas palavras do criador de Coraline

Essas tentativas — cheias de espanto e um pouco de humor — de capturar o que é este livro não o descobre de uma de suas características mais marcantes: sua inclinação ao inclassificável. Em uma livraria — recomendo a qualquer leitor curioso que faça o exercício de perceber as diferentes “caixinhas” onde seus livros favoritos são acomodados — Contos dos subúrbios distantes, assim como acontece com outras histórias de Shaun Tan, pode ser encontrado tanto na seção de literatura infantil quanto na parte de novelas gráficas, bem perto das histórias em quadrinhos, ou entre as narrativas visuais. 

Shaun Tan explora todas essas categorias, mas há algo em suas criações que ameaça a mera possibilidade de definir: “é isto”. É isto e é também mais um tanto. Cabe aos leitores dizer (ou não). Fica também para quem lê a tarefa de experimentação, de se comportar diferente diante dessas páginas: ao invés de buscar um sentido, chocar-se com vários, não só semânticos, mas também sensoriais.

Leitores de Contos dos subúrbios distantes têm a chance de não serem os tais “moleques valentões” de que falou o crítico literário Daniel Pellizzari ao apresentar o livro em 2012. “Agindo como moleques valentões, espancamos as histórias-criaturas em busca de um sentido”. Será que, nesses oito anos em que essa obra ficou esgotada no mercado editorial, desde o fim da Cosac Naify, a entidade “leitor” consegue se aproximar com mais permissão das histórias polissêmicas e que cativam públicos tão distintos? 

Muito se tem falado, em trabalhos acadêmicos e publicações teóricas, sobre literaturas que elastecem as delimitações etárias, em histórias que exploram um amplo potencial de recepção. Para esses livros, a criança é um possível destinatário, mas não é o único. Shaun Tan conta que não desenha um público-alvo para suas criações, ainda que suas obras circulem com rótulos especificados a partir do leitor, como é o caso da literatura infantil ou infantojuvenil. 

Quando perguntamos ao autor se a preocupação com quem vai ler seus livros mudou ao longo de sua carreira, ele responde sem desvios: “não muito”. “Me preocupo um pouco menos com isso do que costumava, pois percebi, nos últimos 25 anos, que um livro encontrará seus leitores. Não necessariamente de imediato, mas em algum momento, se for apoiado o suficiente por editores, bibliotecas, educadores, etc. O principal é que uma história pareça verdadeira, autêntica e interessante”, diz Tan. 

“Não sei bem para quem é cada livro (além de mim, claro, o primeiro membro da audiência!), mas confio que, se for bem feito, alguém vai gostar, vai se conectar.”

(Shaun Tan, escritor e ilustrador)

Cada palavra ou imagem pode ser uma pergunta 

Além de pensar como e por que as crianças leem, parece também instigante indagar algo em sentido contrário: por que os livros precisam das crianças? Durante a entrevista realizada para a dissertação, perguntei a Shaun Tan como ele diferencia o gesto de “falar para” e “falar com” em seus livros. “É muito simples”, ele respondeu. “Você apenas pensa em cada história e imagem como uma pergunta, em vez de uma afirmação. Evito conclusões ou interpretações. Eles podem aparecer nos primeiros rascunhos e tento eliminá-los. De certa forma, minhas histórias e pinturas permanecem incompletas”. 

Confiar que um livro pode construir para si a sua própria audiência passa por valorizar as dimensões artísticas, éticas e estéticas de que as histórias são feitas. Em Contos dos subúrbios distantes, a narrativa é contada pelas palavras, pelas ilustrações e pelo projeto gráfico. E pelo leitor, que conjuga tudo isso a seus próprios repertórios. Nesse tipo de obra em aberto, cada experiência de leitura permite que os sentidos aconteçam, e não há este ou aquele caminho, há vários. “O leitor deve completar o mundo, entender as intenções dos personagens, supor o que tudo isso significa. Tenho minha própria interpretação, mas percebo que é melhor omitir para dar espaço ao leitor” explica Shaun Tan, referindo-se ao modo como compõe os vazios de suas histórias, enquanto pontes que conectam variadas leituras. 

O primeiro conto — e talvez um dos mais enigmáticos —, “O búfalo do rio”, mostra um bicho que aponta uma direção, mesmo que não necessariamente alguém tenha perguntado qual é o caminho. “Na verdade, ele nunca dizia nada”, diz o texto escrito. Já a imagem traz uma criança segurando uma caixa de papelão, parada em frente ao bicho. “Para muitos de nós, isso era frustrante. Quando alguém pensava em ‘consultar o búfalo’, nosso problema costumava ser urgente”, segue a narrativa escrita, ao contar que as pessoas simplesmente pararam de ir visitar o búfalo quando perceberam que ele não oferecia resposta nenhuma. Será que, na leitura, é mais ou menos isso que fazemos quando buscamos um sentido único? 

Os subúrbios distantes e suas regras próprias 

Contos dos Subúrbios Distantes é povoado dessas “histórias-criatura”, polissêmicas e plurais em suas possibilidades de leitura, em que situações cotidianas se combinam com circunstâncias oníricas. Há o conto sobre Eric, um estudante de intercâmbio que deixa um rastro de mistério ao visitar uma família. O relato sobre um animal marinho que de repente aparece no gramado de uma casa na cidade. O convívio tumultuado entre um grupo recém-chegado, que não parece pertencer à vizinhança. 

Em cada um dos quinze contos, fica evidente o deslocamento entre elementos colocados em tensão, como cultura e natureza, estranheza e familiaridade, nativo e estrangeiro, e, como não poderia deixar de ser, entre crianças e adultos. Esta última dualidade dialoga diretamente com pensares contemporâneos a respeito do lugar de poder que o adulto ocupa nos livros que as crianças leem. 

Na obra Poder, voz e subjetividade na literatura infantil (Perspectiva, 2023), a pesquisadora Maria Nikolajeva faz uma oposição entre “adultismo” e “criancismo”, que seria um equivalente ao “machismo x feminismo” das relações de gênero, dessa vez aplicada à dinâmica hierárquica que marca o convívio entre diferentes idades. Shaun Tan explica que o fato de as crianças serem excelentes leitoras é crucial para liberar e desafiar a imaginação de artistas e escritores. 

“Acho que o principal problema dos adultos (inclusive eu) é que pensamos que sabemos mais do que realmente sabemos. Acreditamos que somos sábios. As crianças sabem que não são, e por isso devem permanecer abertas a possíveis significados. Seu ponto de vista é muito mais próximo do artista, do escritor, ou do bom cientista. De investigar a realidade, ter algumas teorias sobre ela, mas aceitar que são apenas provisórias.”

(Shaun Tan, escritor e ilustrador) 

Em cada um dos contos, o autor rompe com a expectativa de que o adulto, o ser humano, o sujeito racional ou aquele que por alguma razão sociocultural detém o megafone do discurso autorizado, sejam aqueles que sabem o que fazer diante de uma situação inexplicável. Em uma alegoria da vida como ela pode ser, Shaun Tan convida o leitor a romper com os sentidos únicos. Uma liberdade que a fantasia proporciona, ao romper com as convenções do mundo “real”. 

Ainda que, em princípio, toda forma de literatura — ainda mais aquelas que desejam conversar também com as crianças — possa se servir de mais ou menos ingredientes insólitos para narrar realidades inventadas, há quem faça desse exercício o núcleo definidor de sua narrativa. No livro O contrato fantástico (Livros da Matriz, 2023), a pesquisadora Celia Turrión cita Shaun Tan como um exemplo de artista que lança mão do que ela chama de “mecanismo desestabilizador”, recurso narrativo que realiza uma “alteração do equilíbrio realista”. 

Ao apelar para quem lê, Contos dos Subúrbios Distantes frequentemente questiona a veracidade de seres inanimados que podem ganhar vida, ou de objetos cotidianos que podem estar de fato vivos. Trata-se de duvidar da realidade como ela nos é dada, e “ler” nela outros mundos possíveis. Nas palavras de Shaun Tan: “Acredito que a estranheza das histórias, sua interpretação flexível, é a chave de seu sucesso”.

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: CONTOS DOS SUBÚRBIOS DISTANTES, POR SHAUN TAN

Sobre Renata Penzani

Avatar photoEscritora, jornalista, pesquisadora. Formada em Comunicação social pela Unesp, pós-graduada em literatura para as infâncias pel'A Casa Tombada, e mestra em Estudos da Linguagem pela UFRPE. Autora dos livros "A coisa brutamontes" (Cepe, 2018) e "Maracujá" (Laranja Original, 2023).

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