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O UNIVERSO DARK DE FÃ PARA FÃ


Cesar Bravo From HellConto Exclusivo

Conto exclusivo: Artificial Nightmare

Mergulhe nos pesadelos letais de Cesar Bravo

Quando a ideia surgiu, foi como receber uma benção envenenada, o que não impediu que ela fosse monetizada. Semanas depois, Nico estava novamente com os olhos presos em seu smartphone. Maxilar contraído, dedos enlaçados nos cabelos, olhos vermelhos de quem não sabe mais dormir. Um pouco à frente, de pé à janela, Fabiano observava a cidade que fingia esquecer seus pecados a cada novo dia. Do alto do apartamento, ele conseguia compreendê-la.

— Mais dois. Já são dezoito no total — Nico disse.

Fabiano deixou a janela e apanhou mais café na máquina de expresso. Voltou a olhar para o lado de fora, ainda próximo à bancada da copa. Uma pomba escurecida pela fuligem havia acabado de pousar no parapeito. Ela também o notou, e assim que o fez alçou um voo assustado.

— Não dá pra ter certeza — ele disse.

Dezoito pessoas mortas

— Todo mundo viu os quadros, nós dois vimos os quadros. Por que uns se fodem e os outros não?

— E isso importa?

— Eu não pretendo encerrar a exposição, Nico. Não antes de vendermos tudo.

— Costumávamos ser artistas, lembra? Quanto vale um quadro que não pode ser admirado?

Fabiano riu. Não seria capaz de precisar um valor, mas sabia que ainda estava subindo. Estava subindo desde o dia em que tudo começou.

Foi bem estranho, mas ele acordou no meio da madrugada com a ideia prontinha na cabeça, como se tivesse sido colocada ali por alguém. Por precaução, a anotou em um bloco de notas do celular, e só depois ligou para o número de Nico. Eles costumavam expor seus quadros juntos, pra diminuir os encargos.

“Inteligência Artificial. Esse é o futuro, irmão. É pra lá que precisamos ir!”

Essas foram as exatas palavras de Fabiano, mas a ideia que os colocaria na escalada da riqueza partiria de Nico, depois de dez minutos de conversa. Nesse tempo Fabiano explicou que existia um número reduzido de temas artísticos capazes de atrair compulsivamente e compulsoriamente o ser humano. Entre eles estavam o sexo, a música, o poder e o medo, o horror. Sendo um pouco mais tendencioso em seu objetivo final, disse que somente nos sonhos todas essas coisas poderiam existir ao mesmo tempo, junto com qualquer outra ideia que a mente fosse capaz de conceber.

“Sonhos são bobos, mas podemos testar com pesadelos”, Nico bocejou o decreto do qual se arrependeria em dois meses.

O primeiro pesadelo captado veio de uma ex-namorada de Nico, que frequentemente reaparecia em sua vida em busca de um pouco de paz. Depois de transarem em um desses reencontros, ela contou a Nico que sonhou algumas vezes com uma ponte e um homem com cabeça de gambá que a impedia de passar. O homem estava com uma coleira, os dentes estavam cheios de carne e sangue. Havia loucura no fundo dos olhos escuros. No sonho, ele quebrava as correntes e a mastigava viva.

A segunda amostra surgiu de um amigo de Fabiano. Ele contou que, dormindo, lutava com seu pai por horas, mas a versão do pai tinha o rosto do ex-presidente Castelo Branco. No fim da luta, o rapaz explicou que acabava em uma mesa de tortura, com o pai rindo, sem olhos nas órbitas, sem roupas, e com a pele besuntada de suor e sangue.

Os pesadelos foram chegando sem qualquer esforço, como se as pessoas estivessem ansiosas para dividi-los. O mais marcante entre eles era o de uma criança, filho de um dos porteiros do prédio antigo de Nico. O menino sonhava que sua mãe tinha metade do corpo do pai, e que eles desmembravam o filho e o mergulhavam em um caldeirão fervente. De alguma forma foi com o pesadelo do menino que as coisas começaram a dar muito errado.

Com a matéria-prima — uma dúzia de pesadelos — nas mãos, tudo o que os dois artistas precisaram fazer foi lançar as informações em um programa gráfico de Inteligência Artificial, dar algum tratamento e imprimir o resultado da composição em alta definição. Como as informações eram muito específicas, particulares, a chance de uma repetição nas imagens era praticamente nula; enquanto o resultado perturbador com a audiência se mostrou estranhamente coletivo.

Na primeira semana de exposição, mais de duas mil pessoas visitaram a mostra, e a novidade começou a se espalhar como uma reação em cadeia depois de uma reportagem na TV. Na terceira semana, a mostra precisou ser transferida para um salão maior, ao passo que parte dos quadros alcançou o valor de uma pequena fortuna. Quem capitalizava tudo era Fabiano, enquanto Nico se incumbia dos temas, concepção final e logística dos quadros.

Em outubro, um mês após a venda da primeira tela, a principal acionista de um plano de saúde atravessou uma pista expressa, ganhou a direção de um posto de gasolina e se chocou com um caminhão. Morreu imediatamente. Cinco dias depois, um candidato ao senado atirou no céu da boca com uma automática. Na mesma semana, uma designer que comprara um dos quadros foi encontrada morta — segundo o laudo médico, ela bebeu quatro litros de alvejante. O quarto óbito pertencia a um ator aposentado que se atirou da cobertura do edifício onde morava. O quinto, uma acompanhante de luxo que morreu afogada em uma banheira.

— Precisamos parar, Fabiano. Tem gente morrendo, gente que não teria morrido se não tivesse olhado para aquelas… coisas.

— E a cada corpo que desce mais gente se interessa pelos nossos quadros. Quem garante que não é mesmo um assassino, talvez até outro artista? É a suspeita da polícia, não é?

Nico se levantou e passou as mãos sobre os cabelos.

— Se você tivesse visto o que eu vi, sentido o que eu senti, também saberia que a culpa é dos quadros.

— Tá viajando, Nico. Nós já ouvimos que o rock fazia a molecada se matar, que os filmes de horror e os livros criavam atiradores nas escolas, agora você está me dizendo que os nossos quadros matam pessoas…

— Não são os quadros. É ela, ele, é essa coisa que a gente mal teve tempo de conhecer.

— Você também tem medo da Alexa? Do Google? Da Siri? Porque todos eles são inteligências artificiais, meu amigo.

Nico colocou as mãos nos bolsos da calça e mirou na distância da cidade, para as milhares de casinhas daquela infindável e caquética colmeia humana.

— Não sabemos de onde isso vem, esse é o ponto. Usamos a tecnologia, mas isso não quer dizer que ela seja nossa. E se for deles, ou de uma outra espécie? E se nós formos apenas os condutores? Os invasores? E se, na verdade, a inteligência original veio da linguagem das máquinas? Dos programas?

— Tá assistindo muita TV. — Fabiano escarneceu.

Nico voltou a encará-lo.

— Estão testando a gente.

— Com qual objetivo? — Fabiano interrompeu o riso.

— Não sei, essa coisa é como uma criança brincando com um inseto.

— Não é fácil acabar com os insetos, Nico. E nós, os insetos, também precisamos comer.

— Por isso eu resolvi testar de volta — Nico chegou mais perto da mesa, sentou em uma das cadeiras e pegou o smartphone. — Vamos fazer com ela o mesmo que ela faz com a gente. Pedi para o programa compor um pesadelo, um que nascesse da imaginação dele. As diretrizes são exatamente as mesmas.

— Chegou a ver o resultado?

— Ainda não, o programa ficou renderizando à noite toda. Terminou faz uns dez minutos.

Fabiano engoliu a saliva empossada na boca e respirou mais fundo.

— Isso é seguro?

— Se vamos continuar com a exposição, precisamos saber o que essa inteligência teme, se é que ela teme alguma coisa. — Nico explicou — Pode ser uma maneira de interromper essa onda de suicídios. Ou o início de uma maneira.

Fabiano puxou uma cadeira ao lado dele.

— Coloca logo essa merda.

Um pouco inseguro, Nico abriu o app e desbloqueou a composição.

Assim que a imagem apareceu, os dois rapazes perderam o compasso da respiração. Fabiano aproximou seu rosto. Agora havia algo gelado nas paredes de seu estômago, sentia a garganta apertada.

— Caralho, que coisa horrível.

Havia alguma coisa ali, naquela imagem, que nenhum dos dois artistas conseguiria definir. Não era algo óbvio, inteligível, mas sim uma sombra, uma impressão que tocava algo mais íntimo que os olhos, que encontrava no cérebro uma tradução muito distante de ser completamente compreendida. De toda forma, eles não conseguiam parar de olhar. Eles poderiam ficar olhando para aqueles rostos deformados por horas, por dias, e poderiam aprender a apreciar aquele novo e estranho tipo de sofrimento.

Foi o que eles fizeram, enquanto tiveram vida.

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: 1618, POR CESAR BRAVO

1618

Sobre Cesar Bravo

Avatar photoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D. e 1618.

1 Comentário

  • Ana

    27 de outubro de 2022 às 23:43

    Adorei! Fiquei curiosa pra conhecer mais do autor. Gosto de histórias assim, curtas, que assustam ou mexem com nosso medo sem dizer muito.

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