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Dois rituais e formas diferentes de lidar com a morte

Em Para Toda a Eternidade, Caitlin Doughty nos mostra as diferentes maneiras de processar o luto com rituais funerários que ocorrem até os dias de hoje

Por meio do nascimento, celebramos a vida das mais variadas formas. Seja seguindo preceitos religiosos ou não, em nosso cotidiano e cultura os ritos de homenagem ao início da vida são bastante corriqueiros. Mas será que estamos preparados para lidar com a morte? Para aquele momento em que uma pessoa amada nos deixará? Ou então, conversarmos sobre tal assunto com nossos familiares e amigos?

Não falamos sobre a morte com a mesma avidez que nos expressamos em relação ao nascimento. A morte ainda é ocultada em nosso dia a dia, como um assunto tabu para se preocupar apenas no momento que tal fato ocorra. Ocultamos o nosso luto através das gélidas e acinzentadas funerárias, que são encarregadas de lidar com a nossa dor. Mas será que isso é um processo saudável para nossa saúde mental?

A autora Caitlin Doughty revelou em sua primeira obra, Confissões do Crematório, como era trabalhar em uma agência funerária, e em seu segundo livro, Para Toda a Eternidade, ela tem uma missão diferente — embora continue de mãos dadas com a morte: viajar ao redor do mundo para pesquisar como cada população lida com a morte e o luto por meio de cerimônias e rituais diferentes.

“Por que nos recusamos a ter essas conversas nas quais perguntamos para nossas famílias e amigos o que eles querem que seja feito com seus corpos quando morrerem? Evitar o assunto como fazemos é autodestrutivo. Ao fugir da conversa sobre o nosso inevitável fim, nós colocamos nossos

recursos financeiros e nossa capacidade de processar o luto em risco.”

– Caitlin Doughty

Os livros de Caitlin fazem parte da marca DarkLove da DarkSide, coleção dedicada a revelar novos talentos femininos da literatura, com obras carregadas das mais diversas sensações — memoráveis, intensas, arrebatadoras —, que podem vir nas mais diversas formas. Em Para Toda a Eternidade, a autora nos apresenta diversas cerimônias funerárias, inclusive algumas que são realizadas até os dias de hoje. A seguir, conheça dois destes rituais:

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As piras em Crestone, Colorado

Na pequena cidade de Crestone, em Colorado, a população despede-se de seus amigos e familiares através da cremação, mas não aquela que costumamos conhecer, realizada com equipamentos industriais, onde ficamos há metros de distância do corpo e investimos um valor altíssimo no processo.

A cremação em Crestone ocorre ao ar livre, com a formação de um círculo de lenha ao redor do corpo e a presença de familiares e amigos, unidos pelas lembranças da pessoa falecida.

Crestone

Nesta cerimônia, a autora revela a intensidade visceral de estar próxima ao corpo que vai se desintegrando ao som do estalar da madeira, enquanto a população vive o luto. Além disso, a pira de Crestone é a única pira comunitária ao ar livre dos Estados Unidos e no mundo ocidental.

A cremação praticada na cidade já ocorre há dezenas de milhares de anos, pois os antigos gregos, romanos e hindus já utilizavam o fogo como forma de libertar a alma.

Nós não estamos tentando esconder o corpo das pessoas, […] mas nunca se sabe quem vai estar presente e nem como vão reagir à intensidade de sentimentos que a pira pode provocar

– revela uma das organizadoras das piras em Crestone, no livro Para Toda a Eternidade.

O ritual Ma’nene em Tana Toraja, Indonésia

No ritual Ma’nene, ocorrido em Tana Toraja, uma região da Indonésia, parentes e familiares têm uma forma peculiar de permanecerem na companhia de seus mortos. Quando as pessoas morrem por lá, elas são mumificadas, e após algum tempo, são desenterradas e chegam a conviver com os parentes. 

Além disso, os funerais em Toraja não são eventos casuais. De acordo com a tradição dos habitantes da região, quando uma pessoa morre, seu estado físico passa por uma espécie de doença. Tal doença dura até o primeiro sacrifício de um animal, quando finalmente a pessoa morre junto com o animal. Por isso, os convidados costumam levar para os funerais porcos e outros animais de sacrifício, em sinal de respeito à família.

Durante o período entre a morte e o funeral, os habitantes de Toraja têm o costume de deixar o corpo em casa, e esse período pode ocorrer ao longo de meses ou anos. A família mumifica o corpo e leva comida, troca suas vestes e conversa com o cadáver. Inclusive, conversar com o cadáver é compreendido como uma forma de criar ligação com o espírito da pessoa.

Ma’nene

Após o enterro e dentro de alguns anos, os familiares podem retirar também o cadáver das chamadas “casas-túmulo”, além de passar um período convivendo com o cadáver em casa. Este ritual chamado Ma’nene é uma espécie de um segundo funeral, onde familiares podem se despedir novamente do parente falecido.

Para os habitantes de Toraja, retirar alguém do túmulo é visto como uma forma importante de permanecer ligado ao morto. Rever alguém amado após anos da morte, não é algo visto como assustador para essa população da Indonésia. 

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