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O UNIVERSO DARK DE FÃ PARA FÃ

DarksideEntrevista

Enéias Tavares: Entre Amigos & Monstros Imaginários

Conversamos com o escritor do romance steampunk Parthenon Místico, lançamento nacional da DarkSide® Books.

O cenário é o Brasil do século XIX. Neste mundo fictício, a tecnologia a vapor permite a existência de carruagens sem cavalos, máquinas voadoras e prodigiosos robôs autômatos. É neste lugar que um grupo de personagens inusitados se une para formar o Parthenon Místico e enfrentar os vilões da Ordem Positivista Nacional. Enéias Tavares criou um universo único a partir de referências literárias diversas que transcendeu as páginas do livro e se transformou em uma história transmídia.

LEIA TAMBÉM: A DARKSIDE ORGULHOSAMENTE RECEBE PARTHENON MÍSTICO, DE ENÉIAS TAVARES

Conversamos com o autor sobre sua carreira de professor e escritor, o Brasil retrofuturista de Brasiliana Steampunk, a série audiovisual A Todo Vapor! e seu novo livro, o romance Parthenon Místico, que chega pela DarkSide® Books em novembro de 2020.  

DarkBlog: Você é professor de literatura na Universidade Federal de Santa Maria. Quando soube que gostaria de trabalhar nesta área e também ser escritor? Conte um pouco para nós desse processo.

Enéias Tavares: Em primeiro lugar, gostaria de dizer que é um prazer conversar com a Caveira – como um Hamlet tupiniquim num charmoso mausoléu – e com os leitores da DarkSide, uma de minhas casas editoriais favoritas. Respondendo à pergunta, eu sempre desejei trabalhar com arte, desde minha infância, quando desenhava meus mundos insólitos para afastar os fantasmas de uma família cheia de conflitos e acalmar minha solidão de filho único. Na adolescência, esse sonho foi deixado um pouco de lado, pois precisava trabalhar e resolver outras fragilidades juvenis. Mas numa tarde, quando estava cursando o primeiro semestre de exatas – pois sempre fui bom em matemática, vejam só – me perdi na História do Ladrão de Corpos, de Anne Rice, de longe um dos meus livros favoritos, ao invés de estudar para uma prova. Foi ali que eu percebi que minha vida seria ou trabalhar com literatura – escrevendo-a ou ensinando-a – ou trabalhar com literatura. No dia seguinte, tranquei minha matrícula e fui estudar para o vestibular em Letras. Assim, devo a essa “rainha dos condenados” minha escolha e também aos amigos imaginários da infância, que sempre estiveram por perto quando precisei deles. 

D: Quais os principais obstáculos que encontrou nas duas carreiras? E como ser formado em literatura te ajuda a ser escritor e vice e versa? 

E: Qualquer carreira demanda um misto de esforço hercúleo e determinação inquebrantável. Não conheço um profissional bem-sucedido que não abrace essas qualidades e que trabalhe menos do que nove ou dez horas por dia. Desconheço o mito de gênio criativo que escreve quando quer e dorme o dia inteiro. No caso da vida de professor e da carreira universitária, o desafio é gestão de tempo, pois você precisa dar aula, pesquisar e publicar, além de orientar outras pesquisas e assumir cargos de gestão.

Já na seara literária, os principais obstáculos são o começo e a permanência. Começar é difícil e você tem de trilhar seu caminho aos poucos, investindo em coletâneas, editais e concursos. Depois do primeiro livro, o desafio continua, pois é um trabalho contínuo. De novo, mesmo no caso de escritores de grande renome, é raro você garantir sucesso – seja lá o que seja isso – com apenas um livro. No meu caso, ter essas duas carreiras é um alento, pois uma auxilia na gestão da outra, e não me vejo nem parando de dar aula nem interrompendo minha escrita. Para citar um exemplo, meu trabalho com literatura inglesa no mestrado e no doutorado foram e são essenciais ao meu trabalho como escritor. Em resumo, a sala de aula me faz evitar meu mundo introvertido e escorpiano (signo) e abraçar meu lado mais teatral e leonino (ascendente). Como você e nossos leitores devem saber, astrologia é uma ciência exata e absolutamente essencial.

D: O universo de Brasiliana Steampunk possui um detalhamento único. Conta para gente como surgiu a ideia de criar um Brasil com tecnologia a vapor e o que essa realidade alternativa acrescenta na história do nosso país.

E: Acredito que temos um problema duplo em nossa cultura. Primeiro, o esquecimento da nossa história e dos nossos heróis. Boa parte da minha carreira, tanto ficcional quanto acadêmica – o que inclui meu projeto com Bruno Matangrano, Fantástico Brasileiro – objetiva revisar nossos grandes autores e obras, valorizando o conjunto riquíssimo dos nossos mitos, ficções e vozes autorais. Por outro lado, temos o conhecido “Complexo de vira-latas”, expressão célebre de Nelson Rodrigues, que aponta para a vergonha que muitos têm da nossa cultura. Brasiliana Steampunk nasceu dessa dupla constatação, sendo um projeto imersivo e engajado, em direção à criação de um Brasil fantástico divertido e convidativo, um Brasil que possamos habitar imaginariamente e ocupar com nossos próprios heróis, monstros e robóticos.

D: Por que focar no gênero steampunk? Era algo que já queria escrever?

E: Eu sempre amei o passado e sempre adorei o aspecto imaginativo da ficção científica, no seu viés tecnológico de inventar o que ainda não existe ou de explorar uma realidade futura que ainda não existe. Steampunk é o casamento perfeito dessas duas instâncias, unindo o retrô das roupas, carruagens e costumes, com o futurismo do nossas rotinas tecnológicas. O passo além, a meu ver, está no “punk”, que mistura tudo isso para nos fazer olhar para os marginalizados, para os oprimidos, para os heróis e heroínas anônimos que a história patriarcal e tradicional silenciou ou ignorou. Nesse sentido, o steampunk é tanto um ato de rebeldia e um chamado à revolução quanto um convite à criação e ao lúdico. Além disso, é um gênero de pessoas vestidas com estilo, charme e ousadia, o que é sempre bem-vindo, não acha? 

D: Você usa de várias referências da literatura nacional em seu universo. Por que escolheu esses personagens da literatura brasileira que aparecem no livro? Chegou a considerar outros ou na hora de fazer o livro esses se destacaram mais?

E: Nossa literatura é muito rica, porém mal conhecida. Tirando Capitu, Brás Cubas e Macunaíma, quem conhece nossos heróis em detalhes? Muitas vezes essa resistência nasce na escola, onde ainda batalhamos pelo engajamento dos jovens leitores – esses mais atentos aos quadrinhos Marvel, ao meme das redes ou ao último streaming do que ao clássico de cem anos de idade sobre um morto que fala ou sobre uma mulher casada com um narrador paranoico.

Brasiliana Steampunk objetiva reapresentar esses heróis a uma nova audiência, revestindo-os de elementos de fantasia, horror, ficção científica e aventura, gêneros que adoramos. Quanto à escolha dos heróis, ela foi mais providencial do que opcional, como se os heróis viessem ao seu encontro como deuses esquecidos pedindo para ser lembrados. Em Lição de Anatomia, meu primeiro livro, diante do fato de Louison estar preso num manicômio, Simão Bacamarte veio e se candidatou ao posto de alienista chefe, enquanto Isaías Caminha sussurrou em meu ouvido sua proposta de investigar o “Estripador da Perdição”. A partir dessa dupla, a ideia da sociedade secreta do Parthenon Místico surgiu, reunindo vários heróis, alguns menos e mais conhecidos, e num lugar insólito, retirado de um obscuro romance do século XIX chamado Georgina, de Apelles Porto Alegre. Ele foi um dos fundadores do Partenon Literário, a principal fonte de inspiração para a nossa Liga Extraordinária Tupiniquim. Em Parthenon Místico, foi o mesmo. Como vocês verão, há um mistério sobre a identidade do Grão-Ancião da Ordem Positivista. Levando em conta os heróis envolvidos, ele só poderia ser uma pessoa. Em suma, está tudo imerso e borbulhando no caldeirão criativo da mente e todos esses elementos vão surgindo, às vezes como tempero, às vezes como ingredientes essenciais.

D: O mundo steampunk que você criou é tão rico em informações que transcendeu as páginas dos livros e se tornou transmídia. A série A Todo Vapor! aborda esse mesmo universo de Parthenon Místico? Conta pra gente um pouco mais sobre essa produção audiovisual e como foi o processo de adaptação.

E: A Todo Vapor! nasceu da mente febril de Felipe Reis e do trabalho incansável da Cine Kings Produtora e dos mais de cem profissionais envolvidos na produção, entre elenco, equipe técnica e pós-produção. Trata-se de uma história inédita, que se passa anos depois de o Parthenon Místico, com alguns de seus heróis aparecendo por lá, numa aventura paulistana centrada em crimes rituais, arcanos maiores e sentimentos viscerais, elementos que os leitores da DarkSide estão familiarizados.

Começamos a produzir a série em 2017, comigo no sul e toda a equipe em São Paulo, e – graças a uma convergência astronômica e tecnostática – ela acabou estreando um mês antes de o Parthenon Místico ser anunciado. Tudo converge para o nosso livro, um romance transmídia que usa audiovisual, quadrinhos, jogos e outras surpresas, para produzir uma experiência romanesca inusitada e inédita em nosso país. Estou muito feliz em ter a DarkSide como parceira desse universo expandido, que encontrou nela sua casa ideal. Aproveito para enviar um abraço aos queridos Claudio Bruno, Pedro Passari, Pamela Otero e Bruna Aiiso, os atores que interpretam Bento, Sergio, Vitória e Nioko em A Todo Vapor!. Suas origens secretas, porém, apenas serão reveladas no Parthenon Místico

D: Se você tivesse uma máquina do tempo, gostaria de voltar e viver num século 19 steampunk? Por quê?

E: Neste caso, seria uma máquina do tempo com dispositivo de transporte para uma realidade alternativa também, uma realidade insólita na qual escravos foram substituídos por robóticos, os heróis da literatura saltaram das páginas para conviverem com figuras históricas e onde a tecnologia das máquinas convive com o feitiço de magos e aventureiros do oculto! Minha resposta é um impetuoso sim. Obviamente, adoraria me perder nessa realidade, como tantos de nós fazemos quando abrimos a capa de um livro. Em certo sentido, há um trabalho demiúrgico em toda a criação e é claro que Porto Alegre dos Amantes é a cidade que eu adoraria encontrar: uma capital selvagem, exótica e charmosa bem diferente da alquebrada cidade que visito e amo. Costumo brincar que ela é nossa Nova Orleans de Anne Rice, uma cidade sulista povoada de monstros charmosos e perigos em cada beco ou bosque. Brasiliana Steampunk – e sobretudo o Parthenon Místico – seria justamente isso: uma passagem, um portal, uma jornada a um Brasil que poderia ter sido, talvez uma aventura que nos mostre um Brasil que ainda possa ser, se aceitarmos nosso destino e acolhermos o desafio, como os heróis do Parthenon fazem muito bem, espalhando pela noite brasileira seu almanaque insólito, uma publicação revolucionária, combativa e… mágica! 

Enéias Tavares é professor de literatura na UFSM e escritor, tendo assinado os romances A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (Leya, 2014) e Juca Pirama Marcado para Morrer (Jambô, 2019). Em 2020, a série live action roteirizada por ele, A Todo Vapor!, estreou na Amazon Prime Video e sua graphic novel em parceria com Fred Rubim, O Matrimônio do Céu & Inferno (AVEC, 2019), foi lançada nos EUA pela Behemoth Comics. Mais de sua produção em www.eneiastavares.com.br e do universo transmídia de suas séries em www.brasilianasteampunk.com.br . Desde 2013, ele tem dividido com milhares de leitores sonhos & pesadelos capitaneados pela DarkSide Books. Em seu velho sobrado, seus escorpiões robóticos têm um lugar favorito: entre a sangrenta edição amarela de Drácula e a perigosa e prateada edição de Hellraiser! 

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