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EntrevistaPrêmio Machado

Jessica Gonzatto: “Arte é aprendizado, é conhecimento”

Conheça a roteirista de As Dores do Parto, projeto de curta vencedor do Prêmio Machado na categoria Outras Narrativas.

O tema “dor” é algo sobre o qual a roteirista Jessica Gonzatto sempre refletiu muito, tanto a dor física quanto a emocional. Entender a manifestação dela é algo que a intriga e que serviu de base para o conceito de As Dores do Parto. O roteiro do curta-metragem foi o vencedor do 1º Prêmio Machado DarkSide na categoria Outras Narrativas.

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Jessica é roteirista e diretora audiovisual, além de redatora e pesquisadora. Ela é formada em Realização Audiovisual, dirigiu um curta chamado Coágulo e mantém um portal de notícias e críticas de cinema, TV e streaming chamado Newsroom 51. Profissional polivalente, Jessica Gonzatto trabalha atualmente como redatora e se dedica no desenvolvimento de roteiros de ficção e outros projetos.

As Dores do Parto, que tem o roteiro assinado por ela, conta com uma ambientação poderosa e personagens marcadas por decisões tomadas no passado. O curta aborda o lado sombrio da maternidade, com elementos metafóricos e sensoriais para contar uma história de egoísmo, assassinato e manifestação da psique. Em conversa ao DarkBlog, Jessica Gonzatto compartilha um pouco de sua trajetória, do processo de construção de As Dores do Parto e o que os fãs da Caveira podem esperar do curta.

DarkSide: Como o sonho de ser roteirista começou para você?

Jessica Gonzatto: Sempre adorei ler, foi sempre um pré-requisito para a minha felicidade. Tanta leitura tinha a ver com imaginação e aprendizado. Quando entrei na escola, comecei a deixar minha imaginação fluir e me divertir com meus amigos, escrevendo vídeos e peças. Depois, já na faculdade de cinema, percebi que existiam filmes que eu queria assistir e não tinham sido escritos. 

Aí, descobri que existia toda uma técnica em escrever roteiros e isso também puxou meu interesse, me desafiou. Hoje em dia, sinto que escrevo porque preciso, quero expressar e elaborar certas questões e quero dirigir filmes que compreendam questões específicas, com uma abordagem que eu mesma preciso construir.

D: De onde surgiu a inspiração para o projeto As Dores do Parto?

JG: Eu estava ouvindo um podcast sobre Friedrich Nietzsche, em que o tema da dor era discutido na obra dele. Dor é uma questão que eu também reflito muito – tanto dor física quanto emocional – e sempre foi um alvo de interesse, de entender como se manifesta nos diferentes âmbitos da vida. Aí, pensei no conceito geral do filme. Uni isso a certos medos que eu sempre tive e fui tecendo uma história.

A personagem e a narrativa começaram a tomar forma quando discuti a ideia com meu parceiro, também roteirista, Guilherme Soares Zanella. Conversando com ele, percebi quais abordagens eu queria tomar e qual universo gostaria de inserir esse projeto. Nós já havíamos criado um universo narrativo para meu curta anterior, Carcaça, e As Dores do Parto tinha tudo a ver com essa mesma ambientação. Então, o Guilherme me ajudou a construir elementos que estão nesse roteiro e também elaborou sobre o que interessava mais a ele como espectador – informações valiosas que me inspiraram a construir as cenas.

Portanto, o curta As Dores do Parto veio para compor um universo narrativo bem rico, que no futuro vai ser explorado em um longa-metragem. É uma “prova de conceito”.

Jessica Gonzatto

D: Como foi o processo de criação da obra? Ela já estava pronta ou foi algo que surgiu aos poucos com o prêmio?

JG: Quando inscrevi no Prêmio, o roteiro estava já no segundo tratamento. No meio do ano, eu havia desenvolvido um primeiro bem longo, com vários elementos diferentes, mas consegui condensar muito nessa segunda versão. Essa condensação veio após o compartilhamento com o Núcleo Criativo Writer’s Room 51, do qual sou sócia-fundadora com o Guilherme, e das nossas discussões temáticas.

Para esse segundo tratamento, foi necessário refletir muito sobre o tema, o passado da personagem, os momentos da trama que eu considerava essenciais e outros pontos básicos. Além disso, a personagem mudou de ocupação, pois eu queria transmitir certas coisas através das palavras e antes não estava conseguindo. Por isso, fiz dela uma escritora.

O processo de “redescobrir” a própria história é fantástico: uma pura imersão no universo que você mesmo criou. Eu dormia e acordava no casarão de As Dores do Parto, pensando em quais imagens eu veria, quais sensações sentiria.

D: O curta As Dores do Parto aborda o lado sombrio da maternidade. O que o público da DarkSide® pode esperar dessa obra?

JG: A história é sobre Valentina, uma escritora de meia-idade que vive sozinha num casarão isolado pela neblina grossa. Ela está no processo de escrever suas últimas memórias e luta contra a deterioração da visão. Em meio à rotina, ela começa a sentir dores no ventre, dores de parto, mas sem explicações. Nisso, surge um menino, vindo da neblina, que pede ajuda e abrigo. Valentina, então, precisa cuidar do menino de maneira forçada, inesperada, enquanto luta contra os efeitos do tempo no próprio corpo.

É um filme que traz um terror psicológico na medida em que não sabemos o que exatamente é real e o que não é. Quis explorar diversas sensações incômodas – o egoísmo, a dor física, arrependimento com as próprias escolhas – e, para isso, construí uma narrativa metafórica que envolve dúvidas que a personagem tem e que transbordam para o público.

Outro fator que gosto de explorar é o ponto de vista de uma personagem que “piora” em suas características. Por isso, escolhi o ponto de vista de uma pessoa construída a partir dos extremos do egoísmo e solidão, mas que ainda é muito humana e que (idealmente) temos curiosidade de acompanhar.

D: Quais histórias, autores, cineastas ou roteiristas inspiraram você no processo da obra e como eles continuam te inspirando?

JG: Meus próprios arredores na serra gaúcha, povoados pela neblina, me inspiraram muito a “tirar coisas dela”. Além disso, a construção desse universo veio do meu curta Carcaça, que elaborei com o Guilherme, também baseado nas nossas impressões sensoriais e reflexões sobre o que de fato nos assusta.

Em termos de artes plásticas, a obra de Nicola Samorì foi e continua sendo fundamental para a construção dessa obra. Ele traz uma decadência sacra, macabra e repleta de beleza que eu tentei injetar nas veias do filme. Outros nomes aí são Frans Snyders e Jan Weenix, que também trazem muito da beleza da morte nas obras. Na fotografia, Laura Makabresku traz uns instantes congelados com elementos macabros, que também me inspiram.

No cinema, a inspiração veio naturalmente de filmes que gosto muito: Os Outros (2001), A Bruxa (2015), Trama Fantasma (2017) são alguns exemplos de ambientação e fruto de elementos narrativos que me trouxeram reflexões sobre a construção da personagem. A condução e abordagem narrativa da cineasta Lynne Ramsay, que me despertou interesse a partir de Precisamos Falar sobre Kevin, também possui um ritmo interessante e me inspirou a perseguir um tema complexo – um dos lados sombrios da maternidade.

A literatura, para mim, trouxe uma liberdade naturalista, mas também uma procura pelas palavras certas. Esse equilíbrio me ajudou no processo de escrita. A inspiração para vários elementos também veio de obras da Shirley Jackson, Edgar Allan Poe e do meu livro favorito, O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde. Aqui, a decadência, a dúvida e a ruína são questões que tomam uma abordagem sombria, algo que eu também quis construir. A música também é sempre presente no meu processo criativo, como ritmo e instigador de imagens, sensações.

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D: Como foi receber a notícia que tinha vencido o Prêmio Machado? 

JG: Foi um divisor de águas no ano de 2020! Uma luz em meio a um ano tão desafiador para todo mundo. Fiquei a manhã toda atualizando a página do Prêmio e o site da DarkSide. Foi uma confirmação de algo que achei que pudesse acontecer, mas no momento que aconteceu de fato, quase não acreditei. Dei uma choradinha de felicidade!

D: Qual a importância de projetos como o Prêmio Machado para o incentivo à cultura brasileira?

JG: É fundamental. Nosso país está (e sempre esteve) repleto de artistas talentosos e em potencial, mas que não têm acesso aos meios de produzir. Isso é frustrante e é um problema a nível nacional – um sucateamento mesmo! A falta de editais e incentivos exclui mais da metade da nossa população de realizar trabalhos ricos e que fariam parte de uma indústria cultural forte.

Aí, projetos como o Prêmio Machado vêm para pavimentar as vias de acesso de muitos artistas. São iniciativas assim que mudam a vida das pessoas, não só a nível pessoal, mas que possibilitam a construção de obras reflexivas e socialmente engajadas que vão compor o imaginário social. Muitas pessoas não entendem isso: arte é aprendizado, é conhecimento. 

Outro ponto positivo nisso tudo é que vemos várias iniciativas privadas em diversos ramos da cultura, então essa diversidade de abordagem também é necessária.

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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4 Comentários

  • Cristina Vieira

    9 de dezembro de 2020 às 07:51

    Nossa que top essa abordagem, agora estou ansiosa para assistir…. Vem logo.

    • DarkSide

      9 de dezembro de 2020 às 10:17

      Prêmio merecido! A Caveira amou.

  • L.F. d'Oliveira

    18 de dezembro de 2020 às 12:32

    Jessica Gonzatto, amei a forma como você conduz e constrói o seu trabalho. Confesso ansioso pelo o curta e o longa. Vou procurar as suas primeiras obras, pois, identifico-me muito com seu trabalho. Saiba que sou leitor assíduo do Newsroom 51. Devoro todos os artigos. Abraços! Sucesso!

  • Jessica Gonzatto

    26 de novembro de 2021 às 15:18

    Poxa, pessoal, muito obrigada pelos comentários! O curta está previsto para 2022! Abraço.

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