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Medicina Macabra: conheça um dos casos bizarros contados no livro

O DarkBlog teve acesso ao caso extraordinário de adipocere, uma das histórias retratadas no lançamento do selo Macabra

Da Holanda do século XVII até a Rússia czarista, da zona rural do Canadá até um baleeiro no Pacífico, Medicina Macabra é uma reunião de casos insólitos da história da Medicina que ocorreram em um período de trezentos anos. Alguns desses relatos são angustiantes ou comoventes, outros são macabros, mas todos oferecem algo mais além do que uma boa anedota. Por mais constrangedoras que sejam as enfermidades, por mais estranhos que sejam os tratamentos, todos esses casos expressam algo sobre as crenças e a sabedoria de uma época.  A seguir, conheça na íntegra o caso da mulher que não entrava em decomposição, uma das histórias retratadas em Medicina Macabra:

Em fevereiro de 1846, um grupo de coveiros de Manhattan, distrito da cidade de Nova York, nos Estados Unidos, foi contratado para desenterrar um cadáver de um túmulo na esquina da avenida Broadway com a 12th Street. O terreno do cemitério fora vendido, a região fazia parte de um novo projeto urbano, e todos os restos humanos estavam sendo exumados e, caso possível, enterrados em outro lugar. Os coveiros já haviam realizado o mesmo procedimento dezenas de vezes sem grandes alardes. No entanto, ao cavarem um túmulo em específico, as coisas ficaram bem assustadoras. Ao menos a experiência lhes rendeu uma história digna de ser narrada para seus netos — e, num momento mais imediato, interessante o bastante para ser descrita para um jornal. Conforme eles explicaram a um repórter do periódico nova-iorquino True Sun [Sol verdadeiro], o lote pertencia a uma tal de senhora Friend:

Caso extraordinário de adipocere

A senhora Friend, ao que tudo indica, faleceu em fevereiro de 1830 de forma abrupta, após se retirar para dormir, ainda que estivesse com a saúde normal. Ela morrera antes das 3h da manhã seguinte. Friend era uma senhora robusta, calorosa, de 68 anos, quase intocada por qualquer doença. Tornando-se necessário remover os corpos daqueles enterrados no terreno apontado, o caixão da senhora F. foi desenterrado com o restante e percebeu-se que a urna não exibia qualquer sinal de apodrecimento, mostrando-se tão sólida quanto ao ser disposta sob a terra.

Enquanto os coveiros levantavam o caixão do seu destino não tão final assim, a tampa acidentalmente foi movida. “Um espantoso espetáculo se revelou”, o repórter prossegue:

A face e o pescoço da senhora Friend exibiam toda a plenitude que ela tinha em vida, e, de fato, suas bochechas estavam um tanto maiores. Com exceção da ausência de olhos, não havia quaisquer indicações de decomposição. A superfície do cadáver, entretanto, estava coberta por uma grossa membrana branca de mofo, a qual, ao ser removida, revelava a mais branca e pura superfície jamais vista num alabastro! A pele estava tão sólida e enrijecida quanto o mais puro espermacete, e tão livre de odores desagradáveis quanto essa substância!

Talvez seja um alívio saber que “espermacete” não tem nada a ver com espermatozoides. Trata-se de uma substância cerosa encontrada na cabeça da baleia cachalote. Até hoje, essa substância é bastante usada na confecção de remédios, cosméticos e velas.

Sob uma investigação mais aprofundada, notou-se que a pessoa inteira estava no mesmo estado intocado de preservação; o corpo e os membros demonstravam a mesma aparência enrijecida e livre de ruína. Entre os duzentos cadáveres removidos deste cemitério, esse era o único que não havia voltado ao pó. Seu chapéu e suas fitas tinham preservado suas formas e cores.

LEIA TAMBÉM: CASOS ARREPIANTES, CONSTRANGEDORES E ENGRAÇADOS EM MEDICINA MACABRA

A história soa bastante misteriosa, mas é bastante plausível. Em Hydriotaphia, Urn Burial [Hidriotaphia, enterro da urna], de 1658, a celebrada dissertação de sir Thomas Browne sobre a morte e os costumes funerários, o autor descreve um corpo que ele testemunhou ser exumado dez anos após o enterro: uma década no solo úmido havia “coagulado grandes caroços de gordura, os quais tinham a consistência do mais duro dos sabões-castela” (originalmente feitos de azeite de oliva e manufaturados em Castela, na Espanha).

Em 1789, Antoine François de Fourcroy, um químico francês, fez a mesma observação acerca dos cadáveres desenterrados do Cimetière des Saints-Innocents (em português, o Cemitério dos Santos Inocentes), em Paris, cunhando o termo “adipocere”, cujo significado é “cera gordurosa”, para descrever o fenômeno. Essa ocorrência é rara e, de modo geral, ocorre quando um corpo é enterrado em ambientes úmidos e sem oxigênio. Nas condições adequadas, a ação combinada de enzimas e bactérias anaeróbicas lentamente converte a gordura corporal num material branco e ceroso, o qual, com o tempo, pode endurecer e ficar lustroso. Um exemplo espetacular desse fenômeno é o cadáver feminino desenterrado na Filadélfia, nos Estados Unidos, em 1875. Conhecida como Dama de Sabão (“Soap Lady”, em inglês), ela ainda está exposta no Museu Mütter, na própria Filadélfia.

Quanto à senhora Friend, poucos dias após ter sido exumada, sua família — presumivelmente bem chocada de voltar a vê-la naquele estado, dezesseis anos após sua morte — arranjou para que ela fosse enterrada no Harlem, do outro lado do Central Park:

Por medo, contudo, de que o cadáver fosse removido do cemitério por motivos científicos, ou por outras razões, eles decidiram transportá-lo até sua casa. O caixão original foi fechado numa caixa de mogno, com uma tampa de vidro, e passou a ficar exposto na residência, onde recebe um grande número de visitantes todos os dias.

Trata-se de um item de mobília de muito bom gosto, com certeza um assunto debatido entre os vizinhos e motivo de muita inveja no bairro. Infelizmente, após isso, não existem mais registros sobre o que foi feito dos restos mortais da senhora Friend — talvez, quem sabe, ela ainda esteja exposta na varanda de alguém. Pode parecer um destino cruel, mas poderia ser pior. De acordo com uma matéria da Scientific American de 1852, outra grande descoberta de adipocere num cemitério de Paris acabou sendo utilizada de forma macabra

pelos manufaturadores de sabão e de cera de Paris, para a confecção tanto de sabões quanto de velas. O povo francês, dotado de distinta sensibilidade, certamente se sentiu tocado e comovido à contemplação pela beleza de ser iluminado pelas luzes de velas feitas dos corpos de seus antepassados.

Sou um entusiasta da reciclagem, mas acho que talvez eles tenham ido longe demais.

5 Comentários

  • Helena

    30 de janeiro de 2020 às 14:59

    Assim que puder quero obter esse livro,muito interessante !!!!!

  • Agnes

    31 de janeiro de 2020 às 14:21

    Ah, já quero!
    fiquei fascinaaaaada!

  • Diogo

    31 de janeiro de 2020 às 14:40

    Interessantíssimo! Não vejo a hora de chegar a minha trilogia macabra, para acompanhar os outros casos!

  • Samara

    1 de fevereiro de 2020 às 11:53

    Próximo da lista!!

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