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Novo livro de cabeceira? Não. Inferior é o Caralho é o novo livro de bolsa

Percebemos, ao ler a obra de Angela Saini, que devemos sempre estar atentos para não reproduzirmos o que é dito como natural e tomarmos como verdade o que não faz parte da gente

Por Crib Tanaka, colaboradora do site Hysteria

“Homem tem instinto sexual enorme, é diferente de mulher. Não adianta! Mulher não tem desejo que nem homem.” — foi o que ouvi semana passada, da boca de um cara. Nem haviam passado 5 minutos desde que tínhamos sido apresentados

Peguei minha bolsa para levantar, quando um amigo, rebatendo o que ele disse, me olhou, pedindo para ficar. A conversa foi machucando, ao longo da noite. E, ao mesmo tempo, foi necessária. Refutamos, aterrorizados (essa é a palavra), todos os argumentos dele, mostrando como eram baseados, claramente, em uma cultura machista  —  onde todos nós vivemos e pela qual todos nós somos afetados  — , e não, de maneira rasa, em desculpas biológicas. Na hora, minha vontade foi ir até minha casa e pegar o Inferior é o Caralho  —  leitura que tem sido meu objeto de estudo e reflexão do ano  —  e colocar na mesa. Aberto em qualquer capítulo. Todos eram ali necessários.

Escrito por Angela Saini, publicado pela DarkSide Books e com prefácio da Heloisa Buarque de Hollanda, ele pontua, de uma maneira muito clara, como a recente presença feminina em papéis importantes dentro da academia científica e a falta de pesquisas feitas com e pensando nelas influencia, até hoje, nosso olhar sobre o nosso corpo, nosso comportamento e nossas relações.

São 8 capítulos que giram em torno do tema que tem sido um dos mais polêmicos no campo da pesquisa científica e que parece também servir de argumento para qualquer mesa de bar: a diferença entre os sexos. Para você ter noção, só neste milênio, segundo o New York Times, em 2013, já tinham sido publicados cerca de 30 mil artigos sobre as diferenças, abordando campo de linguagem, relacionamentos, maneiras de raciocinar, criação dos filhos, habilidades físicas e mentais. As pesquisas reforçam as diferenças e, por isso, Angela Saini investigou os estudos e as pessoas por trás deles, trazendo contexto para cada capítulo e a reflexão de que, sim, a biologia conta, mas a sociedade também desempenha um papel fortíssimo em nosso modo de viver e ver os outros.

LEIA TAMBÉM: 5 GRANDES FEITOS DE MULHERES QUE MUDARAM A CIÊNCIA

O livro traz abordagens jornalísticas apuradas, diversas e fáceis de entender, nem sempre agradáveis, trazendo tanto fatores comportamentais, como os biológicos. Tem ali a carta que Caroline Kennard enviou em 1881 questionando Darwin sobre a inferioridade feminina, em A Descendência do Homem, terminando com a observação que vale até hoje: “Deixe que o ambiente das mulheres seja semelhante ao dos homens, antes que elas sejam julgadas  —  de maneira honesta  —  e consideradas intelectualmente inferiores a eles, por favor”. Tem também os estudos em saúde infantil, como o de Joy Lawn, que mostram que, apesar dos homens serem, em média, mais altos e terem duas vezes mais força na parte superior do corpo, quando o assunto é sobrevivência, o corpo das mulheres tende a ser mais bem equipado (então, o que é ser forte?). Tem também os fatos pesquisados por Steven Austad, especialista em envelhecimento, que corrobora o que Joy fala, dizendo que mulheres parecem ter melhores perspectivas de sobrevivências em qualquer idade.

Um dos tópicos abordados que mais chamou a minha atenção foi o fato de que testes de novas drogas são feitos sempre em homens. Em meio a tantas discussões sobre anticoncepcionais, por exemplo (o que acontece desde que a pílula foi criada, como a gente pode ver aqui), por conta dos males que causam ao corpo da mulher, parei para pensar o quanto é perigoso tomarmos o que nos é receitado.

“É muito mais barato estudar um único sexo”

Contraditoriamente, ao se questionar porquê os testes são feitos só com eles, o argumento, além do custo, é de que se acredita que o corpo feminino seja semelhante ao masculino. Ainda contraditoriamente, mulheres em idade reprodutiva são excluídas de experimentos. Por quê? Porque seus hormônios influenciam no modo como ela responde a uma droga. Se influenciam no teste, influenciam na vida real… certo?

“Em 2001, Marius Rademaker, dermatologista, estimou que as mulheres são uma vez e meia mais propensas que os homens a apresentar reações adversas a uma droga. E em 2000, o Government Accountability Office dos Estados Unidos analisou dez medicamentos controlados retirados do mercado desde 1997 pela Us Food and Drug Administration (FDA). Estudando os efeitos adversos, a agência descobriu que oito deles ofereciam maiores riscos a mulheres. Essa lista incluía dois supressores de apetite, dois anti-histamínicos e um medicamento para diabetes. Quatro eram dados a muito mais mulheres do que homens. Isso se tornou preocupação para as ativistas da saúde da mulher.”

Estão lá outros temas como identidade de gênero e a influência de hormônios; as semelhanças de gostos entre meninos e meninas; os famosos 142 gramas que “faltam” no cérebro feminino (pelos estudos, chega-se à conclusão de que biologicamente não temos maior capacidade de memória verbal, habilidade social ou expressar emoções); o mito da vontade nata feminina de querer ser “do lar”; a propensão delas a serem mais seletivas, e não castas; e as avós como força dinâmica de transformação, fundamental para conquistas e avanços que fizemos na vida (se você leu A Ciranda das Mulheres Sábias, de Clarissa Pinkola Estés, vai curtir muito essa parte).

Inferior é o Caralho me deixa como missão ficar alerta: a nós mesmas e ao entorno. Para não reproduzirmos o que é dito como natural e tomarmos como verdade o que não faz parte da gente. E fica a esperança compartilhada, nesta fala de Angela Saini:

“Para mim, essa batalha representa a fronteira final para o feminismo. Ele tem o potencial de derrubar a maior barreira que ainda se ergue entre as mulheres e a plena igualdade  —  a barreira em nossa mente.”

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