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O olhar apurado de Tabitha King para boas histórias

Um talento reconhece o outro. A autora e editora não deixou Stephen King descartar o livro que se tornaria ícone do terror

Uma história sobre um livro que poderia render um novo livro. Só dessa forma conseguiríamos compreender a importância e a magnitude deste acontecimento na vida da família King. Tabitha King e Stephen King são casados há 48 anos e, desde então, todas as publicações do marido passam sua meticulosa e perfeccionista visão de editora. Autora de dez romances, entre eles, Pequenas Realidades, publicado no Brasil pela DarkSide Books, Tabitha sente o cheiro de uma boa história.

Em 1973, a família King começava a trilhar seu caminho no mundo da literatura — ainda com muita dificuldade, já que Stephen King se revezava em trabalhos pequenos sem relação com a escrita enquanto Tabitha trabalhava meio período na rede de restaurantes Dunkin’ Donuts e dava aulas de inglês em uma escola particular no Maine.

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Com dois filhos para educar e uma vida simples, Tabitha King não deixou Stephen abandonar a escrita e, até os dias atuais, segue sendo sua principal incentivadora. Como todo começo, não foi fácil — Stephen não tinha sequer uma máquina de escrever para produzir seus contos, mas Tabitha emprestou sua antiga Olivetti dos tempos de faculdade para que ele pudesse escrever e ofertar seus trabalhos para veículos de imprensa da época.

Stephen, então, passou noites escrevendo e os primeiros retornos não foram muito promissores — ele enviava seus escritos periodicamente para revistas como Playboy, Cavalier e Penthouse e, vez ou outra, surgia um cheque, fruto da publicação de seu trabalho.

Quando surgiu uma oportunidade de emprego irrecusável como conselheiro docente do colégio Hampden, no Maine, o escritor prontamente comunicou a esposa. Era a chance de ter renda fixa e melhorar a vida da família. Tabitha, então, perguntou: “Você terá tempo para escrever?”. “Não muito”, respondeu ele. “Então você não deve aceitar esse emprego”, previu sabiamente.

Stephen King então recusou a oferta tentadora e foi, a partir dali, que o mundo acompanhou o nascimento do best-seller Carrie, publicado originalmente em 1974. A ideia de escrever Carrie surgiu depois do autor ser confrontado sobre sempre escrever pela perspectiva masculina e, ao refletir a respeito, lembrou-se de duas garotas estranhas que estavam no ensino médio quando ele trabalhou em um colégio. Uma delas sempre vestia a mesma roupa, a outra era uma epiléptica tímida.

LEIA TAMBÉM: “ESPOSA É UM STATUS DE RELACIONAMENTO. NÃO UMA IDENTIDADE”, DIZ TABITHA KING

A salvação de Carrie

Na época em que Stephen King escreveu Carrie, as duas meninas já estavam mortas. A primeira sofreu de depressão pós-parto e, um dia, apontou um rifle para o estômago e puxou o gatilho; a outra morreu após uma crise epiléptica. “Muito raramente, em minha carreira, explorei territórios mais desagradáveis”, escreveu King, refletindo sobre como ambos casos foram vistos por ele, na época.

A magnitude dessas tragédias tornaram Carrie ainda mais difícil de se escrever. Quando ele finalmente começou, escreveu apenas três páginas, desistiu e, com raiva, as jogou na lata de lixo. Claramente desapontado, King começou a dar razão aos seus críticos — ele acreditou que não era capaz de escrever sob a perspectiva de uma mulher. A história toda o enojou. E ao perceber que a trama estava se movendo muito devagar, deduziu que o produto final seria muito longo para qualquer revista aceitar.


“Eu não podia desperdiçar duas semanas, talvez até um mês, criando um romance do qual eu não gostava e não seria capaz de vender”, escreveu King em seu livro de memórias Sobre a Escrita (Suma, 2015). “Então eu joguei fora… Afinal, quem queria ler um livro sobre uma pobre garota com problemas menstruais?” Carrie conta a história de Carrie White, uma aluna do ensino médio que durante uma aula de ginástica menstrua pela primeira vez. Criada por uma mãe superprotetora e extremamente religiosa, Carrie não sabe o que está acontecendo e é vítima de bullying. Mas o que ninguém sabe é que Carrie controla objetos com a mente e sua entrada na vida adulta apenas o acentua, deixando-a ainda mais poderosa e perigosamente incontrolável.

Stephen chegou até essa história de poderes telecinéticos após ler um artigo na revista LIFE que falava sobre o tema sugerindo que, se tais poderes realmente existem, devem ser muitos mais fortes em adolescentes do sexo feminino. A potente história e a enigmática Carrie, no entanto, não conquistaram o autor de imediato. No dia seguinte à infeliz decisão de Stephen King de abandonar o romance, Tabitha foi retirar o lixo da lavanderia quando se deparou com três páginas amassadas em meio a muitas cinzas de cigarro. Ela então pegou as folhas, leu e quando King retornou do trabalho, disse: “Você tem algo aqui, eu realmente acredito que você fez algo”. Ao longo das semanas seguintes, Tabitha King guiou o marido e o ajudou a montar a clássica cena do chuveiro. Nove meses depois, o escritor concluiu o que seria seu primeiro best-seller.

Os caminhos se entrelaçam

Antes de Stephen King encontrar Tabitha Spruce, ambos levavam uma vida modesta. O pai de King abandonou a família deixando para a sua mãe, Nellie Ruth Pillsbury King, criar os dois filhos sozinha. Tabitha, por outro lado, vem de uma família numerosa e católica — ela era uma das oito crianças de Sarah Jane Spruce e Raymond George Spruce.

Foi no início dos anos 1960 que os caminhos dos dois se cruzaram pela primeira vez, na Universidade do Maine. A paixão surgiu enquanto acompanhavam um sarau de poesia. Tabitha e Stephen se casaram depois da formatura, em 1971. O sonho compartilhado de se tornarem escritores parecia cada vez mais difícil de se concretizar após o casamento e colecionaram diversas rejeições de editoras e revistas. Stephen, no entanto, conseguiu estabelecer certa frequência de publicações na revista Cavalier, ao lado de Isaac Asimov, Ray Bradbury e Roald Dahl, que também publicaram suas histórias por lá.

Tabitha King publicou seu primeiro romance, Pequenas Realidades, em 1981, e ele se tornou uma de suas obras mais aclamadas. Depois desse, vieram muitos outros. No total, ela escreveu dez obras, entre poemas, roteiros, contos e obras de não ficção. Seu trabalho tem sido bem recebido pela crítica e está chegando ao Brasil com todo o estilo para encantar uma nova geração de leitores. Tabitha desenvolve histórias protagonizadas por personagens cheios de camadas, com descrições vivazes e discussões sobre a natureza humana. A comparação ao trabalho do marido é irresistível para a sociedade patriarcal, mas Tabitha sempre soube se posicionar diante disso. Recentemente, trouxe à tona um erro grosseiro cometido pela imprensa americana ao publicar uma manchete onde seu nome sequer aparecia. Ao escolher um gênero com tão poucas escritoras publicadas, Tabitha nos mostra a importância de termos cada vez mais vozes de mulheres poderosas que sabem ver o potencial arrebatador de uma boa história.

Traduzido e adaptado do site do site MentalFloos

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