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Os versos fúnebres e a prosa densa de Fagundes Varela

Conhecido por sua produção poética, o imortal da Academia Brasileira de Letras ambientalizou o sobrenatural e o fantasmagórico com o conto “A Guarida de Pedra”

A obra em prosa de Luís Nicolau Fagundes Varela é, de fato, menos conhecida que sua extensa e assombrosa produção lírica. Fagundes Varela ocupa a cadeira de número 11 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Nascido no estado do Rio de Janeiro em 1841, o autor pertencia a uma família bem-sucedida, o que já lhe permitiria percorrer um caminho mais curto rumo ao sucesso — independentemente da área que escolhesse. Mas uma sequência de perdas atravessaram sua vida até o dia de sua morte, vítima de derrame cerebral em 1897.

Filho de juiz e como a maioria dos intelectuais de sua época, Fagundes Varela cursou Direito, em São Paulo — graduação que logo abandonaria para aproveitar a vida de boêmio escritor na capital. Em 1861, ainda na capital paulista, Varela lança seu primeiro livro de poemas Noturnas. Já no ano seguinte, o autor é abandonado financeiramente pela família e se casa com a artista de circo Alice Guilhermina Luande, na cidade de Sorocaba, interior paulista. Varela e sua esposa tem um filho, Emiliano, que morre com apenas três meses de idade. Da dor que sentia pela morte do pequeno saíram os versos de “Cântico do Calvário”

Eras o idílio de um amor sublime. 
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria.
O porvir de teu pai! — Ah, no entanto, 
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! — Crença, já não vives!
— Fagundes Varela

LEIA TAMBÉM: Júlia Lopes de Almeida: conheça a história da primeira mulher da ABL

Iniciando uma fase cada vez mais boêmia e criativa, Varela se muda para Recife, retorna à capital paulista, e por fim, volta a morar com o pai e casa-se novamente, dessa vez com uma prima com que tem duas filhas e um filho – chamado Emiliano, como o primogênito, que também morreu precocemente. O autor termina sua vida morando em casas de parentes, entre muitas bebedeiras na noite, mas sua obra ficara para sempre eternizada com versos, por vezes, fúnebres, mas forte influência abolicionista, inclusive antecipando o concretismo, que surgiria um século depois.

Fagundes Varela, por Lula Palomanes, para a antologia Medo Imortal

Em Medo Imortal, antologia de contos e poemas que exploram o sobrenatural presente na literatura brasileira e escrita por imortais da ABL, Fagundes Varela nos apresenta ao conto “A Guarida de Pedra”, com forte influência byroniana e uma narrativa densa, que remonta o litoral de São Paulo, precisamente Santos e Bertioga. Em “A Cruz”, o concretismo poético do autor se revela ao descrever com destreza as conotações sombrias e góticas desse elemento sacrossanto.

“Quando o relógio principiou a soar lenta e lugubremente as badaladas de meia-noite, Jorge aprontou suas armas, e pôs-se à espera do que viesse.”
Fagundes Varela, em “A Guarida de Pedra” 

Explorando elementos ilusórios e fantasmagóricos, Fagundes Varela também se arriscou na prosa, assim como na poesia pertencendo a última fase do Romantismo. “Arquétipo”, um dos primeiros poemas do autor, escrito em versos brancos, é um bom exemplo. Apesar de preponderar em sua produção literária, a angústia e o sofrimento, Fagundes Valera não deixou de lado aspectos sociais da época em que viveu e explorou temas como o abolicionismo e o orgulho do Brasil, já na fase lírica, escreveu poemas de exaltação à natureza, além de dar voz ao seu lado místico e religioso.

Patrono da 11ª cadeira da ABL, o autor foi um homem com pensamentos e escrita à frente de seu tempo que soube encarar os dias sombrios da vida e usá-los como combustível para sua imortal obra.

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