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Palavras Mágicas: Por que Alan Moore é o mago dos quadrinhos

Conheça a trajetória mágica do autor de Palavras, Magias e Serpentes

Celebrado por suas criações nos quadrinhos, faz tempo que o Bruxo de Northampton busca transcender qualquer limite criativo. A magia é um dos caminhos que Alan Moore encontrou para reconfigurar sua arte e quem sabe a realidade.

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Barbudo e com cara de vilão estereotipado de filme ”B”, Alan Moore é conhecido como o mago das HQs. Nascido em 18 de novembro de 1953, na Inglaterra, ele é um dos maiores escritores de histórias em quadrinhos de todos os tempos — para muitos, o melhor. Moore é o roteirista da única obra em quadrinhos presente na lista dos 100 melhores romances do século XX da revista Time: Watchmen, ilustrada por Dave Gibbons. A minissérie em 12 edições, publicada entre 1986 e 1987, foi a primeira HQ premiada no tradicional Prêmio Hugo de Ficção Científica e abriu o espaço para a criação da categoria de Graphic Novels na premiação. A obra, que extrapolou o nicho dos fãs de quadrinhos, mudou para sempre a maneira como vimos a forma de escrever e ler quadrinhos de super-heróis. Ganhou uma versão para o cinema e minissérie na HBO.

Grande nome nos quadrinhos

Filho de uma família da classe operária inglesa, Alan Moore foi expulso da escola devido a suas experiências com substâncias químicas. Em sua vida sem perspectivas, os quadrinhos norte-americanos de super-heróis eram sua fuga da realidade, o meio de abrir sua mente para outras possibilidades que não vislumbrava em seu dia-a-dia.

Moore decidiu investir na carreira de quadrinista após ganhar um concurso de redação contando a história de um super-herói criado por ele. Depois de um período escrevendo e desenhando HQs em fanzines e publicações independentes, Moore começou a ganhar espaço como roteirista nas grandes revistas do Reino Unido no início dos anos 1980: a lendária 2000 AD, as edições em quadrinhos baseadas em Dr. Who e nas revistas da Marvel UK, o braço inglês da editora norte-americana.

Moore havia largado mão de desenhar as próprias histórias ao se convencer que jamais seria um ilustrador realmente bom e que não conseguiria desenhar tão rápido. E deu certo: logo que seus textos foram interpretados no traço de artistas como Steve Dillon, Dave Gibbons e Alan Davis, seu trabalho começou a ganhar notoriedade.

monstro do pantano
O Monstro do Pântano (DC Comics)

Já associado a narrativas inovadoras, seria do outro lado do Atlântico, na editora DC Comics, que o autor criaria seu primeiro grande sucesso internacional. Convidado para cuidar de O Monstro do Pântano, um título que estava prestes a ser cancelado, o inglês tornou a revista em uma campeã de vendas mergulhando o personagem no universo da magia, terror e ecologia. O impacto entre o público e crítica mudaria a face da indústria de quadrinhos, atraindo outros talentos do Reino Unido para o mercado norte-americano como Neil Gaiman (Sandman), Grant Morrison (Homem-Animal), Peter Milligan (Shade, o Homem Mutável), gerando o movimento batizado como a “Invasão Inglesa”

Na virada dos anos 1980, o selo de qualidade Alan Moore era tão forte que fez as editoras norte-americanas escavarem suas obras incompletas do início de carreira, jogando luz a trabalhos seminais como Miracleman e V de Vingança, ambos iniciados na revista inglesa de curta duração Warrior. Com arte de David Lloyd, V de Vingança também ganhou versão de sucesso nos cinemas pelas mãos das irmãs Wachowski, em 2005.

Curiosamente Moore sempre foi contra as adaptações de suas obras de quadrinhos para outras mídias. Segundo ele, seu objetivo sempre foi demonstrar o quanto os quadrinhos são uma forma de expressão artística válida, que merece o mesmo reconhecimento das artes já consagradas. Adaptá-las para o cinema seria uma tentativa de fazê-las mais palatáveis a um público maior, como se apenas neste novo formato ela tivesse real valor para o grande público. Além disso, as HQs possuem códigos e linguagens específicos e parte de sua graça se perde ao transferi-la para o formato audiovisual. Mesmo assim, várias de suas obras chegaram ao cinema. Moore nunca permitiu que seu nome aparecesse nos créditos desses filmes.

As disputas com grandes editoras em torno de melhores condições para os criadores remontam ao início da carreira, quando publicava apenas no Reino Unido. Ao longo dos anos, as brigas entre Moore e a DC Comics sobre as cotas dele e da editora em relação a direitos autorais e merchandising se acentuaram e a relação desandou de vez. Em 1990 ele decidiu produzir seus quadrinhos por conta própria, abrindo a editora Mad Love. Lamentavelmente, não deu certo, deixando pelo caminho Big Numbers, uma obra incompleta, ilustrada por Bill Sienkiewicz. A megassérie, baseada na Teoria do Caos, mostraria, através da visão única de diversos personagens, o impacto da construção de um shopping center numa pequena cidade no interior do Reino Unido. Das 12 edições previstas, apenas duas foram publicadas e a terceira foi disponibilizada on-line em 2016. 

big numbers
Capa da primeira edição da série Big Numbers

A seguir, Moore voltou a lançar HQs em publicações independentes de forma errática. Nessa época surgiu outro de seus grandes sucessos: Do Inferno, ilustrada por Eddie Campbell, que apresenta sua versão dos assassinatos na Inglaterra do Século XIX atribuídos a Jack, o Estripador, incluindo quem seria de fato o assassino e o motivo de seus crimes. Tudo isso envolvido em ocultismo e teorias da conspiração que estabelecem conexões com a maçonaria, passando pelos membros da realeza britânica e indo até Joseph Merrick, o lendário Homem Elefante.

LEIA TAMBÉM: CRIMES VITORIANOS MACABROS: CURIOSIDADES SOBRE JACK, O ESTRIPADOR

Surge o Mago

Então, em 1993, quando fez 40 anos, Alan Moore declarou para seus amigos e familiares que se tornara um mago. Quem estava familiarizado com sua obra podia perceber que Moore estudava o tema há um bom tempo. Na revista Monstro do Pântano, havia releitura de práticas xamânicas, rituais cerimoniais que levam a alteração de consciência, evocação de demônios, viagens astrais, criaturas sobrenaturais pouco conhecidas e antigas ordens de feitiçaria, além de apresentar o mais original mago dos quadrinhos. Foi nas revistas do Monstro escritas por Moore que surgiu o inglês John Constantine — que ganhou seu próprio título de HQ e protagonizou filme e série de TV.

Após o anúncio, Moore começou a criar e apresentar performances e rituais místicos que demonstravam sua nova condição para todos que acompanharam sua trajetória. A primeira delas foi A Membrana Fetal (1995), na qual ele usou a morte de sua mãe como base para abordar sua própria vida e a relação que cada um de nós constrói com os lugares que vivemos, visitamos e idealizamos. Este último tema volta a ser abordado em outra performance sua, de 1999: Serpentes e Escadas, em que ele se aprofunda na psicogeografia, um aspecto da geografia cognitiva que estuda as conexões interpessoais que as pessoas estabelecem com ambientes urbanos em que vivem e com rotas aparentemente arbitrárias por onde passam. Além de psicogeografia, as apresentações continham contracultura, música, poesia, pintura, iluminação individual e crítica à sociedade.

Alan Moore
Alan Moore (Mitch Jenkins/AP)

Para estas performances, Moore arregimentou uma trupe que ele batizou de The Grand Egyptian Theatre of Marvels [o grande teatro egípcio das maravilhas], que continha entre seus membros o antigo baixista da banda pós-punk Bauhaus, David J.. Mais que performances, Moore apresentava eventos de multimídia com experiências sensoriais, que mesclavam, entre outras coisas, exibição de filmes e apresentações de música experimental. A forma e o que ele apresentava poderia, inclusive, mudar de acordo com o clima do momento. Estas performances tornaram-se seu veículo para expressar de forma mais pura sua filosofia, suas crenças pessoais e o modo como interpreta o universo, sem restrição editorial e tendo pleno controle de todo o processo.

Sua carreira de mago performático, porém, não foi muito longa. Moore fez suas apresentações até o início dos anos 2000, retornando para uma última performance em 2010, no metrô de Londres, intitulada Unearthing [desenterrar].

Neste período ele ainda trabalhou com quadrinhos, continuando a produzir grandes obras. Dessa época foi concebida, por exemplo, A Liga Extraordinária, longa saga ilustrada por Kevin O’Neill, que — para tristeza de Moore — também ganhou sua versão nos cinemas, dirigido por Stephen Norrington, em 2003. Além da qualidade sofrível da produção, Moore se viu envolvido em um processo de plágio envolvendo o estúdio 20th Century Fox e uma dupla de roteiristas.

Continuando a se decepcionar com a indústria de quadrinhos e brigando com grandes editoras, o Bruxo de Northampton decidiu se aposentar de vez de seu trabalho como quadrinista em 2019, passando a se dedicar exclusivamente à criação literária — na qual a magia é fator motriz. Segundo ele, “escrever pode ser exigente, mas os momentos de progresso compensam com sobra. Quando criamos, sinto que estamos a apenas um milímetro do divino”.

Como Ter Contato com a Magia de Alan Moore?

Segundo Moore, tornar-se mago era o passo seguinte para continuar desenvolvendo o caminho que seguia com o escritor. No documentário The Mindscape of Alan Moore [a paisagem mental de Alan Moore], o escritor fala de sua visão sobre a magia:

As pessoas se confundem sobre o que magia é de fato. Basta olharmos como são suas velhas descrições. Em sua forma mais antiga ela é definida como “A Arte”. E ela é literalmente isso. Magia é arte (…). A arte, como a magia, é a ciência da manipulação de símbolos, palavras ou imagens para realizar mudanças de consciência (…). Conjurar um encantamento é manipular palavras para mudar a consciência das pessoas. Acredito que um artista, um escritor é o que mais se aproxima de um xamã no mundo contemporâneo.

The Mindscape of Alan Moore
The Mindscape of Alan Moore (Shadowsnake Films)

Baseado em suas palavras, talvez a obra ficcional que melhor retrate sua guinada assumida para a magia e procure explicar no que ele acredita seja Promethea, um dos destaques de sua etapa seguinte no mundo dos quadrinhos, após se assumir mago. Jim Lee, o dono da Wildstorm na ocasião, abriu o espaço para que Moore produzisse o que quisesse com os artistas de sua escolha. Nessa nova série, em um mundo que parece o reflexo do nosso em outra dimensão, Moore usa como base a trajetória de aprendizado da mais recente encarnação de uma força mística feminina universal (que parece a versão dele para a Mulher-Maravilha) para apresentar uma visão pessoal de como funciona o Universo, explorando os limites e as conexões entre consciência, inconsciência coletiva, história e magia. A obra inclui como personagens — e absorve vários ensinamentos deles — grandes nomes do ocultismo da vida real, como Aleister Crowley e Austin Osman Spare (que aparecem na história numa visão bem pessoal de Moore).

aleister crowley
Aleister Crowley

Crowley está entre as inspirações do escritor para trilhar seu próprio caminho na magia. Mas, apesar do caráter cerimonial de suas performances, Moore está mais próximo de Spare na sua proposta de seguir um caminho pessoal de aprendizado, em contraponto à subserviência às ordens iniciáticas baseadas em escritos medievais, que até o início do século XX era o caminho existente para futuros magos. Ele está mais próximo da Magia do Caos, um conceito pós-moderno surgido nos anos 1970, que não tem uma estrutura cerimonial pré-definida — cada um tem a liberdade que fazer o ritual para obter seus resultados da forma que quiser.

Palavras, Magias e Serpentes

E assim surgiu Palavras, Magias e Serpentes, reunido a quadrinização de Eddie Campbell de A Membrana Fetal e Escadas e Serpentes. Além delas, o volume apresenta uma longa e detalhada entrevista em que Moore e Campbell conversam sobre o percurso do autor pela magia, suas performances mágicas, misticismo e imaginação e, claro, histórias em quadrinhos.

As duas obras entrecruzam um componente biográfico raro na obra de Moore com ousadia poética e gráfica, aproximando em sua trama ciência, história e magia de uma forma que apenas Alan Moore seria capaz de imaginar.

alan moore

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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