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Paperhouse: Uma fantasia sombria obrigatória a todo devoto do terror

Abusos, traumas e a desistência da experiência humana

15/03/2024

Apesar de gostarmos muito do subgênero gore, não é só de sangue, tripas e gritos enrouquecidos que vive o horror, principalmente aquele horror que nos aflige bem cedo, quando ainda somos crianças. Na coluna de hoje falaremos de uma dessas produções inesquecíveis e não tão conhecidas atualmente: Paperhouse.

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Embora possa ser traduzido como “Casa de Papel”, não é sobre a produção mais conhecida que falaremos hoje, mas sobre a Paperhouse de 1988, baseada no romance Marianne Dreams (1958), de Catherine Storr, e dirigida magistralmente por Bernard Rose. Por aqui, o filme foi traduzido como A Casa dos Sonhos.

paperhouse

Começamos o filme de uma maneira muito lúdica, com a trilha sonora bem colocada, oscilando entre a inocência e o suspense, enquanto uma menina, Anna Madden, desenha com lápis preto sobre uma folha branca. Do que se trata o desenho ainda não sabemos, mas ficamos interessados, isso é um fato. E pode soar precipitado, mas mesmo esse breve começo, esses poucos segundos, já fazem lembrar A Profecia, A Hora do Pesadelo e Colheita Maldita. Uma ótima sensação, inclusive.

paperhouse

Os minutos seguintes nos vinculam emocionalmente a Anna, que parece ter um comportamento um pouco rebelde para os padrões da escola. Ela também não é muito boa em lidar com os comentários ásperos e provocativos de seus colegas e professores (ótimo novamente, inclusive). Graças a uma reação de Anna que pode ser considerada exagerada por alguns, ela é expulsa da sala de aula pela professora, e acaba sofrendo um desmaio nos corredores da escola. Depois desse desmaio, percebemos que Anna será bem mais interessante do que aparenta ser (e também nos perguntamos até onde isso pode ser bom ou ruim). Parte da veracidade da personagem vem da interpretação de sua atriz, Charlotte Burke, a atriz mirim entregou tudo nesse grande filme.

paperhouse

Na cena seguinte, Paperhouse nos coloca em dúvida mais uma vez.

Anna está brincando de se esconder com uma amiga, e ela decide que um túnel abandonado é o esconderijo perfeito. Pelo que o filme nos mostra, Anna pode ter sido atacada, e da mesma forma pode ter desmaiado e ido para seu porto seguro mental, uma casa no meio do nada, a casa que ela costuma desenhar. Anna é resgatada pela polícia, mas ninguém sabe o que aconteceu.

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No mesmo dia, Anna acaba ficando doente, com dor de garganta. Isolada em casa, ela segue desenhando, compondo e refinando a casa que criou inicialmente. Anna começa a interagir cada vez mais com essa realidade e com seus habitantes, que da mesma forma parecem ter sido concebidos por ela.

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A cada imersão em sua imaginação, Anna se dá conta de que é capaz de manipular seus sonhos através dos desenhos, inserindo elementos, pessoas, a até mesmo as personalidades dessas pessoas. Agora existe um garoto morando na casa de papel, Mark, um menino que não consegue andar e se diz deixado por alguém naquele lugar. Com intenção de cuidar dele e deixá-lo mais feliz, Anna enche a casa de brinquedos e doces, coloca uma árvore com frutas na frente da casa, cria um horizonte distante bem mais feliz. Em certo ponto, ela também decide levar o pai até lá, para que ele possa ajudar o garoto a sair. A relação entre Anna e o pai não está muito clara, mas entendemos que ele é ausente e teve problemas com a bebida no passado.

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Um detalhe importante que torna a experiência desse filme muito mais interessante é um sistema de som adequado para sua apreciação, ou mesmo o uso de fone de ouvido. A trilha sonora em alguns momentos possui vozes sussurradas diluídas na música, e é desconfortável pra caramba (ninguém aqui está reclamando).

Anna também desenvolve elos emocionais com pessoas do mundo real, que passam a habitar ou inspirar seus desenhos. Como resultado, a realidade e a ficção desse filme se misturam tão bem que se torna quase impossível separá-las

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Em muitas cenas, Paperhouse ganha contornos sombrios, e somos obrigados a confrontar dilemas adultos sob a ótica das crianças, o que pode ser um movimento bastante doloroso para os espectadores mais sensíveis. Abusos, traumas, doenças, a própria desistência da experiência humana são abordados nesse filme existencialista e surrealista que veste — e o faz muito bem — a máscara do horror.

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Conforme a saúde de Anna piora, seu mundo de imaginação, seu porto seguro, começa a ser invadido pela escuridão. Anna nos parece estar sendo atacada dentro e fora da realidade, por doenças reais e autopunições do passado, sentimentos que de alguma maneira se relacionam ao seu pai.

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O visual do filme, mesmo em seus momentos mais sombrios, se destaca pela relação estreita e catártica que possui com a realidade das crianças, principalmente com a vida de Anna. Paperhouse é de uma sensibilidade muito grande, uma produção onde tudo é pensado para de alguma forma representar uma realidade perigosa demais para ser confrontada diretamente. Apenas para referência, um filme mais moderno que flertou com elementos parecidos foi o australiano The Babadook, de 2014, mas você também pode encontrar elementos do cinema de Tim Burton aqui e ali. Outra referência é o livro publicado pela Caveira, O Menino que Desenhava Monstros, de Keith Donohue.

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Paperhouse é um daqueles filmes obrigatórios onde todos os elementos funcionam com a sincronia e precisão de um relógio suíço, então, a menos que você seja um herege do terror, minha recomendação mais urgente é que você saia à caça desse filme, porque certamente ele se tornará inesquecível. Também é justo dizer que esse é um filme imersivo, poderoso, de um desafio emocional impiedoso, então esteja preparado para se chocar e ser confundido em algumas sequências. O que é revelado em Paperhouse pode ser chocante, mas a pior parte permanecerá oculta, e será apresentada a você apenas em sua própria imaginação.

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Para servir de aperitivo, vamos deixar por aqui o trailer e não falaremos mais nada — mas por favor, não deixe de assistir esse filme (não precisa agradecer a gente, fazemos por amor).

Lá vai! 

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Sobre Cesar Bravo

amplificador cesar bravoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D., 1618 e Amplificador.

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