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Paulo Raviere: “Livro é um trabalho coletivo”

Autor fala ao DarkBlog sobre o seu livro e o trabalho editorial

11/07/2025

Como nasce um livro? Mais do que isso, como ele ganha forma até chegar às edições que nos encantam? Paulo Raviere conhece não apenas a origem, mas todo o desenvolvimento editorial de obras que atacam todos os nossos sentidos. 

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O autor de Todos se Lavam no Sangue do Sol também tem uma rica trajetória trazendo outros livros para as coleções dos DarkSiders, seja como tradutor ou editor. Mas afinal, o que é mais difícil: escrever sua própria obra ou editar um livro com a complexidade de Casa de Folhas? Raviere nos contra esse e outros segredos de bastidores nessa entrevista:

DarkBlog: Como foi a construção de Todos se Lavam no Sangue do Sol?

Paulo Raviere: Eu tive uma experiência prévia escrevendo, freestyle, na doida, alguns romances. Eu sempre tive um bloqueio, porque eu não sabia para onde ia. Descobri que sou um escritor que precisa de um plano minimamente completo. Então eu fiz um enredo completo enquanto morava em Salvador, e depois disso eu ia caminhar na rua pra esse enredo ir se desenvolvendo na minha cabeça. É por isso que tem muito das ruas de Salvador. Eu já sabia o que ia acontecer no livro, mas não como, então eu ia caminhando, ia vendo as coisas e anotando, às vezes até na rua mesmo. Essa primeira etapa eu fiz assim, e o resto foi sentado na mesa e depois conversando com os editores. É até importante dizer que o livro é um trabalho coletivo, apesar de ter só o nome do autor na capa, é um trabalho feito por muitas mãos, e o meu não é exceção. Teve um trabalho impecável do Cesar Bravo, do Bruno Dorigatti, dos outros editores e, claro, do próprio ilustrador Alcimar Frazão.

Paulo Raviere

D: Você tem um trabalho notável como tradutor e editor de outras obras. Em meio a tantas referências, como você encontrou a sua própria voz na literatura?

PR: No trabalho de edição, foi um trabalho também de buscar intensificar essa voz. Quando eu saí da Bahia e fui morar em São Paulo, comecei a perceber o que é que tem de específico na minha voz. E quando eu falo “minha voz”, é da minha fala mesmo, não só na escrita. Eu tentei imprimir isso no texto de algumas maneiras, comecei a prestar mais atenção ao que era específico no meu modo de falar. 

D: Alguns dos livros em que você trabalhou são bem viscerais, e podemos falar o mesmo da sua obra. Existe um limite ético ou sensorial que você não está disposto a cruzar? 

PR: Eu não sei exatamente onde é que está esse limite, deve existir em algum lugar. Mas sempre que eu trabalho num livro como os Livros de Sangue ou num Psicopata Americano, ou em O Mal Nosso de Cada Dia, ou Sabor Amargo, que são livros pesadíssimos, esse limite tá indo um pouquinho mais pra lá. Daí você lê Cesar Bravo e Roberto Denser, daí é que ele vai cada vez mais longe. Deve existir, mas ainda não cheguei lá. 

D: Qual livro você já leu ou trabalhou e pensou “eu queria ter escrito esse livro”? 

PR: Eu tive a felicidade de trabalhar como tradutor em um dos meus livros favoritos que é Coração das Trevas. Inclusive, eu demorei mais pra traduzir do que ele [Joseph Conrad] para escrever o livro (quando eu descobri isso e fiquei indignado). Mas, de certa forma, eu acabei escrevendo também, porque eu escrevi ele em português, a minha versão, então esse é um dos que eu tenho mais orgulho.

Paulo Raviere

D: O que foi mais desafiador: escrever Todos se Lavam no Sangue do Sol ou editar Casa de Folhas?

PR: Essa é complicada porque Casa de Folhas acho que foi o livro mais difícil no qual eu trabalhei, porque o livro em si é muito complicado. Mas por outro lado, esse projeto eu contei com a tradução primorosa de Adriano Scandolara, teve um trabalho de diagramação primoroso de Lilian Mitsunaga, e depois também teve o trabalho de Bruno Dorigatti, gerente editorial, do Sérgio Chaves, que é coordenador de diagramação. Esse trabalho foi o mais complicado, mas em relação ao trabalho no meu livro, me deu muito mais trabalho, porque eu tirei do nada, então eu é que fiz tudo isso. Claro que teve a ajuda de muita gente, mas eu não sabia, eu não tinha essa experiência, então eu tive que encarar ele e demorei a mostrar para uma editora. Eu tive que lutar com ele sozinho, por muitos anos. Então vou dizer que foi o meu, embora o Casa de Folhas seja mais difícil.

D: Se o seu livro virasse um filme, quem estaria na direção e quem estaria no elenco? 

PR: Eu pensei nele como roteiro antes e ainda está de pé a ideia. Mas pensando num elenco e numa equipe dos sonhos, eu até tenho umas referências (Kubrick, Tarantino), mas vou focar nas brasileiras e uma que me influenciou muito que é o diretor Rogério Sganzerla, que é o diretor de O Bandido da Luz Vermelha, que é um filme que eu amo e que eu tentei imitar o procedimento dele de colagem no meu livro. Também penso na atriz, que hoje também é diretora, que é a Helena Ignez, na idade que ela tinha quando fez O Bandido da Luz Vermelha pra fazer a Ana Lívia. Também penso nesses atores baianos que fazem tanto sucesso mundo afora, que dariam ótimos protagonistas, como Lázaro Ramos, Wagner Moura. E eu acho que ficaria muito maneiro ter uma participação especial, como o Stan Lee fazia, de três pessoas que não são atores, mas que teriam uma relação, que é o sambista Riachão, que aparece no livro; Maguila, que inspira um personagem; e de João Ubaldo Ribeiro, que é a grande influência minha. Pensa que filme massa! Um easter egg desses três seria lindo.

LEIA TAMBÉM: Conheça os bastidores da edição brasileira de Casa de Folhas

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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