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Conheça os bastidores da edição brasileira de Casa de Folhas

Profissionais contam os desafios de trabalhar no livro

10/04/2024

Primeiro é elaborado o projeto, a planta. Depois prepara-se a fundação para, então, levantar as paredes, preparar a parte elétrica e hidráulica, e só ao final decorar o local. Esse é o processo habitual da construção da maioria das casas, mas nós vamos contar a história de uma que foi edificada de maneira diferente.

LEIA TAMBÉM: COMO CASA DE FOLHAS REDEFINIU O TERROR MODERNO

Após quase 25 anos de sua publicação original, Casa de Folhas enfim chega aos leitores brasileiros em uma edição limitada full color, valorizando cada centímetro da construção monumental de Mark Z. Danielewski, com a qualidade que a DarkSide® sabe que os fãs merecem.

Assim como ocorre nas casas em que moramos, essa aqui foi construída a muitas mãos, em um processo editorial que exigiu comprometimento, dedicação e criatividade de quem esteve envolvido nessa jornada labiríntica. Foram anos de trabalho na tradução, diagramação, preparação, revisão e finalização de um projeto editorial ambicioso, adaptado de maneira meticulosa e com cuidado primoroso nos mínimos detalhes.

Para entender melhor todos os segredos que possibilitaram a construção dessa casa literária, a Caveira conversou com algumas das pessoas que trabalharam nesse processo: Paulo Raviere, o editor; Adriano Scandolara, o tradutor; e Lilian Mitsunaga, diagramadora. As portas desse labirinto de curiosidades estão abertas:

Entrando na casa pela primeira vez

Editor da DarkSide®, tradutor e autor do livro Todos se Lavam no Sangue do Sol, Paulo Raviere já tinha ouvido falar bastante sobre Casa de Folhas graças aos debates e matérias na internet. “Uma vez cheguei a folhear um exemplar em inglês numa livraria de São Paulo, e pensei em como daria trabalho fazer um livro desses no Brasil, mas ao mesmo tempo, em como seria massa.” Mal sabia ele que esse trabalho passaria pelas suas mãos.

casa de folhas

O primeiro contato real de Adriano Scandolara com o livro se deu justamente quando foi chamado para trabalhar na tradução, embora ele já tivesse alguma ideia do que o esperava. “Eu tinha uma vaga noção de que era uma obra de terror pós-moderna repleta de experimentalismos formais com um forte cult following lá fora, mas nunca tinha tido a oportunidade de pegar para ler mesmo antes de começar a trabalhar nela.”

Para Lilian Mitsunaga, o nome do livro também já era conhecido, embora ela nunca tivesse conferido a obra de perto. Com uma ampla bagagem em histórias em quadrinhos, a profissional ficou surpresa com o convite para trabalhar na desafiadora diagramação de Casa de Folhas

Uma casa que desafia as leis da física (e da edição de livros)

Um livro fora do comum exige medidas fora do comum. Assim como a residência da Ash Tree Lane, a edição de Casa de Folhas também é muito maior e complexa por dentro, o que exigiu bastante jogo de cintura dos envolvidos, como explica Raviere: “Geralmente editamos os livros com base em arquivos em PDF e doc. Mas com Casa de Folhas, devido às suas particularidades, fizemos com exemplares físicos (além dos PDFs).”

Quanto às especificidades da obra, o editor explica que o trabalho incluiu muitas complexidades, como anagramas e jogos de linguagem, checagem de braile e de símbolos aeronáuticos, revisão de acróstico, conversão de fórmulas matemáticas e um cotejo de diagramação, página a página. “Além disso, nos momentos mais ‘lineares’, de texto corrido, a prosa também é experimental, com fluxo de consciência, trocadilhos, vários níveis de registro, e variação de gêneros e estilos.”

casa de folhas

O desafio também foi sentido por Lilian na diagramação. “Nas HQs usamos pequenos trechos de textos em cada balão, recordatório ou textinhos soltos pela arte. No caso de Casa de Folhas o texto é composto em um arquivo só, com todas as páginas encadeadas numa sequência. Já fiz composição de livros com texto corrido, mas nada parecido com Casa

A tradução foi um desafio à parte não somente pelos questões comuns de linguagem, mas para a própria edição. Paulo Raviere explica que “geralmente o texto em português fica maior, e num livro ‘normal’, simplesmente aumentamos o tamanho do livro. Mas nesse caso, há capítulos em que o formato das páginas estava predefinido, com base no tamanho das palavras em inglês. Então, como encaixar um texto naturalmente maior em um espaço menor? Bem, esse é um dos mistérios de um livro sobre uma casa em que o lado de fora e o de dentro têm dimensões diferentes.”

Traduzindo o intraduzível

Obras desafiadoras não são novidade para Adriano Scandolara. Com background de tradução poética, ele já trabalhou com a poesia de Milton e Shelley, entre outras que foram essenciais para encarar Casa de Folhas

LEIA TAMBÉM: POR QUE CASA DE FOLHAS É TÃO DIFÍCIL DE ADAPTAR?

Para ele, foi mais “uma diferença de grau do que de natureza”. Habituado a traduzir livros desafiadores, ele costuma manter bastante proximidade no que diz respeito à conversa com os editores, explicando quando é necessário se desviar da tradução óbvia em favor de trocadilhos e jogos de palavras, por exemplo.

Esse tipo de diálogo foi ainda mais intenso em Casa de Folhas, conforme Scandolara explica. “O tempo todo a nossa atenção se divide, pelo menos, entre a ‘narrativa principal’, se dá para chamar assim, do Registro Navidson, na voz de Zampanò, e os comentários do Johnny nas notas de rodapé, que às vezes tomam conta da mancha gráfica.” Por serem efeitos deliberados do autor, o tradutor explica que é preciso enfatizar isso, para que o efeito não seja perdido na edição de outro idioma.

Casa de Folhas também exigiu um sistema de organização diferente por parte de Scandolara. “Eu acabei quebrando o livro em vários arquivos, um por capítulo, que não é geralmente como eu trabalho… e teve um capítulo também (o 9) que eu quebrei em três partes para ficar mais manejável.” Para se ter uma ideia, ele está falando de um trecho da obra que contém, além do miolo do texto principal e das notas de rodapé, um box de texto em cada página e uma coluna de texto contínuo, inclusive uma coluna de ponta-cabeça nas páginas ímpares. “O texto segue em pelo menos quatro direções diferentes ao mesmo tempo. Se não prestar muita atenção, vira uma bagunça inviável de resolver”, explica.

casa de folhas e filmes found footage

Você pode ler um relato detalhado do tradutor sobre o trabalho e suas impressões sobre Casa de Folhas no blog dele, Mercurius Delirans.

Botando ordem na casa

Além da tradução, a diagramação de Casa de Folhas também foi desafiadora — por mais que Lilian Mitsunaga já esteja bem acostumada a esse tipo de adversidade. “Todo mundo me lembra de Asilo Arkham, porque foi feito à nanquim e à mão. Mas sempre digo que o trabalho atual é o desafio da vez porque quase nunca chega pra mim um ‘copiar e colar’. Mas não é ruim, não. Eu gosto.”

Sobre colocar ordem na diagramação de Casa de Folhas, Mitsunaga destaca três desafios principais. 

Imagens retocadas: “apesar de poucas, as imagens eram post-its, fotografias, anotações sobrepostas feitas à mão e difíceis de reproduzir. Tinham que parecer naturais e imagens com texturas e sombras são sempre mais complicadas de retocar do que desenhos chapados, mais comuns em HQs.” 

Manter a distribuição do original: “diagramação engessada com tamanho e localização pré-determinadas é tarefa complicada porque a versão para o português fica com maior quantidade de texto, e encaixar tudo isso em alguns trechos do livro demandou mais tempo. Um jogo de encaixe e condensação de texto.”

Notas: “as notas automáticas já aparecem no rodapé da página ‘linkadas’ com o número colocado ao longo do texto principal, e é só criar o estilo para cada uma. O problema era quando apareciam notas dentro das notas… porque havia tantas que em determinadas sequências elas pareciam o texto principal diagramadas em várias páginas seguidas. Pra seguir a numeração automática, o subterfúgio usado foi inserir na página onde começava a descrição no rodapé notas invisíveis como se estivessem no texto principal, e depois inseria as notas visíveis (mas sem link com a nota do rodapé) no lugar que deveriam indicar. Para não perder a sequência automática, porque se o editor quisesse mudar ou inserir uma nota, não teria que renumerar à mão as subsequentes à modificada.”

Um open house de respeito

Depois de anos do trabalho desses e de outros profissionais, Casa de Folhas finalmente ganhou sua edição brasileira, aprovada pelo próprio autor. “A existência desse livro em português em si já é uma conquista. Faz mais de uma década que eu vejo pessoas pedindo esse livro no Brasil. Nem nos meus maiores sonhos eu imaginaria que faria parte disso”, declara Paulo Raviere.

A sensação de missão cumprida é compartilhada por Lilian Mitsunaga, principalmente por um trabalho fora do habitual: “Sempre me associam às HQs… descobri que posso diagramar mais coisas além dos quadrinhos e ser igualmente prazeroso”. 

casa de folhas

Adriano Scandolara ficou particularmente orgulhoso de como resolveu “a treta da famosa carta da mãe do Johnny (de 8 de maio de 1987, apêndice II, letra E”. Isso porque o documento é cifrado e parece nonsense à primeira vista. “Me divirto muito também com os trechos imitando um inglês mais antigo que aparecem aqui e ali”, complementa.

Uma dica que o tradutor deixa para quem for se aventurar nas páginas e cômodos de Casa de Folhas é a de ler com olhos e ouvidos não só para o terror, mas para o cômico também. “O Danielewski é um autor muito engraçado e tem um senso de humor divertidíssimo.”

Aos leitores brasileiros, Raviere ressalta que a experimentação é um aspecto importante do livro e que ele dialoga com a própria história. “É uma obra complexa, mas, acima de tudo, comovente: um daqueles livros que levamos para a vida, um romance que diverte, emociona, intriga, assusta e faz a gente pensar. E é por isso que a gente deu o nosso melhor nele, para que a experiência de leitura traga tudo isso.”

LEIA TAMBÉM: CASA DE FOLHAS + 11 OBRAS DE LITERATURA EXPERIMENTAL

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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