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CuriosidadesDarkloveEntrevista

Rachel Rabbit White pelas palavras de Nico Walker (e dela própria)

Conheça a autora de Carrossel dos Desejos

14/06/2024

O que os livros Carrossel dos Desejos e Cherry: Inocência Perdida têm em comum? Numa primeira vista, o lançamento de poesias da DarkLove dificilmente lembraria o romance autobiográfico de um homem condenado por assaltar bancos, mas essas duas histórias se encontraram de maneira irreversível no mundo real: seus autores são casados.

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: CARROSSEL DOS DESEJOS, POR RACHEL RABBIT WHITE

Ok, casamentos entre escritores não são uma raridade, e temos o casal King para comprovar. Mas o que torna a história de Rachel Rabbit White e Nico Walker ainda mais empolgante é que foram suas obras que os uniram. 

O primeiro contato de Nico Walker com Rachel Rabbit White foi bem despretensioso, uma leitura de notícia sobre o lançamento do livro dela. Por recomendação de alguém, ele acabou lendo o livro e se impressionou. “Era poderoso. Era puro. Me marcou”, declarou em um texto publicado na Interview.  “As frases eram tão elegantes quanto dolorosas.”

carrossel dos desejos

Nessa época, dezembro de 2019, ele tinha acabado de sair da prisão e vivia em uma casa de transição, no ano seguinte à publicação de Cherry. Nico entrou em contato com Rachel por e-mail porque estava trabalhando em um projeto para uma revista e precisava de colaboradores. “Ela não foi metida nem nada. Conversamos sobre livros e tal. As coisas entre nós aconteceram naturalmente.”

Um dos fatores que chamou a atenção do autor em Carrossel dos Desejos foi o fato de que os poemas de Rachel não entediavam os leitores com crises existenciais ou algo do tipo. “Você tem frases como ‘essas garotas estavam na orgia errada’, títulos como ‘Na Jacuzzi em Forma de Coração da Minha Alma.’”

Walker lembra da controvérsia que o livro gerou na época de sua publicação. “Alguns tiveram problemas com os sentimentos dela em relação à própria experiência, como se fosse antiético da parte dela explorar sua própria exploração. Alguns até a acusaram de ser uma profissional do sexo ‘falsa’. Seus acusadores não eram profissionais do sexo, então vai saber como que eles conseguiriam diferenciar bulhufas de um artigo falso para um verdadeiro, mas isso não vem ao caso.”

Nico e Rachel se conheceram pessoalmente somente em março de 2020. Em junho de 2021 tiveram um pequeno casamento no Mississipi — em parte por causa da pandemia de covid-19 e em parte porque a sentença de Nico não permitia que ele deixasse o estado naquela época. O casamento real oficial (e surpresa) foi realizado em janeiro de 2022 em Nova York.

rachel rabbit white e nico walker
Jen Senn/Vanity Fair

No site da revista Interview, Nico Walker publicou três entrevistas com sua amada, intituladas “Prólogo”, “A Entrevista” e “Post-Script”, nas quais os dois revelam aspectos da personalidade da autora e do relacionamento dos dois. Separamos aqui os melhores trechos:

A primeira troca de e-mails

Rachel: Era dezembro (2019), e eu estava no avião, voltando da turnê do meu livro em Los Angeles, com uma puta ressaca, sem dormir, mal e mal sobrevivendo. Recebi o seu e-mail. Encaminhei pro Ben pra tirar onda…

Nico: Você tirou onda com o meu e-mail?

Rachel: Porque eu estava tipo “Quem caralho é essa pessoa?”.

Nico: Você disse que tinha lido o meu livro.

Rachel: Eu acho que te respondi e você me deu o seu número.

Nico: Eu sabia quem você era. Você era uma poeta lésbica famosa e gostava de óxido nitroso. Também algo sobre sentar em bolos. Mas isso não era você. Eram só as pessoas com quem você andava.

Rachel: Em primeiro lugar, você tinha um e-mail suspeito pra cacete.

Nico: Meu e-mail era um nome de guerra. Eu tinha acabado de sair da prisão. Eu ainda pensava como um criminoso. Eu só estava tentando comprar alguns poemas, praquele negócio da revista. E daí você veio toda “Vou ficar com esse desgraçado de merda”. Eu sei exatamente o momento em que aconteceu.

nico walker rachel rabbit white
New York Magazine/Reprodução

A ligação psíquica dos dois e os poderes bruxões de Rachel

Nico: Eu estava batendo um papo com você no plano espiritual no dia seguinte… não no dia seguinte… não… ah, foi um pouco depois de eu quase ter morrido. Teve alguma conversa nossa depois daquilo, um sonho. Falamos sobre alguns negócios, e eu nunca tinha te visto num sonho antes. Então quase tenhamos morrido um dia desses. Talvez eu tenha perdido um pouco das minhas habilidades psíquicas.

Rachel: Você sabe sobre o que conversamos?

Nico: Não, não lembro. Mas lembro da experiência. Lembro de ter sido bem realista. Algumas vezes com amigos e familiares falecidos em sonhos é diferente. Parece mais real. Mais tangível. Ao invés de estar perdido em uma parada de caminhões com Indiana Jones e você não tem nenhum cigarro, e a porta está trancada e você não consegue entrar na conveniência, e você também não tem dinheiro. Esse tipo de sonho.  

rachel rabbit white
Jen Senn/Vanity Fair

Rachel: Você se lembra do dia em que eu estava fazendo reiki em você no meu sono? A gente estava em um rancho no campo. Geralmente nos sonhos quando você vê alguém é uma mistura das suas experiências com a pessoa, perto da pessoa, mas não exatamente a pessoa. Mas eu estava vendo nós dois em 3D, materializados fora de mim, fora do meu corpo. Vi você por completo, bem alucinado.

Nico: Então você teve, tipo, uma experiência extracorpórea. Você estava se vendo na terceira pessoa.

Rachel: Bem, eu estava olhando os seus sonhos. Você estava em um cenário de inverno e eu tentava transformá-lo em primavera ou verão. Eu estava lá e você estava lá. Mas eu estava semiconsciente e fiz isso.

Desejo e romance

Rachel: Estou pensando em como o desejo está no centro do que é estar vivo e como o desejo é a causa de todo sofrimento. Amor e poesia e romance são, tipo, o meu único lugar de diversão. Quando feministas como Shulamith Firestone criticam o amor romântico, em especial os casais heteronormativos, como um lugar de opressão, eu concordo. Mas às vezes também dá a sensação de que o amor romântico é o único lugar de liberação, ou até mesmo um lugar de resistência sob o capitalismo. Talvez eu sinta isso mais por ser uma profissional do sexo, quando você está vendendo uma ideia de amor ou romance a trabalho, o romance “fora do trabalho” soa como um lugar para se recuperar

rachel rabbit white
Interview Magazine/Reprodução

Carrossel dos Desejos, capitalismo e vulnerabilidade

Rachel: Em Carrossel dos Desejos, o carrossel é uma espécie de metáfora a esse mecanismo do capitalismo, esse passeio sem fim do qual você não consegue descer. Você está no passeio, mas você também é o funcionário que opera a atração. E de certa forma é uma rotina, quando eu estava presa nesse mecanismo de trabalho e desesperada por prazer no tempo livre. Estar em uma “localização rural sulista secreta” durante a quarentena me fez pensar “Foda-se, foda-se contribuir com a máquina de Nova York”. Talvez um monte de gente tenha encontrado uma nova dimensão de ética anti-trabalho durante a quarentena. Muitas garotas de programa que eu conheço, que tiveram a chance de dar uma pausa, estão tipo: como vamos voltar pra indústria do sexo? É tão difícil pensar em voltar quando você teve um tempo fora da labuta. Mas estando fora de Nova York e na quarentena eu foquei em simplesmente existir o máximo que eu puder. E você sabe, não estou mais tomando comprimidos pra dormir. Não estou tomando calmantes, estou tomando bem menos opioides. Não estou mais me esforçando muito.

Nico: A persona, ou a voz que domina Carrossel dos Desejos está tentando ser durona? Ela cria uma armadura, ou uma postura mais cética, para tentar não ser vulnerável?

Rachel: Você não consegue ter a armadura. É por isso que eu consigo ser tão sensível. Você precisa ter algo para proteger aquilo que você está doando. Mas quando eu penso em perder o anonimato, penso em ego. E daí penso no ego no romance. Penso em quem sou enquanto pessoa, quem sou enquanto mulher — que está impregnado em mim, por mais que eu pessoalmente veja gênero como um teatrinho. Em como, desde a adolescência, quando eu me notei ou me valorizei enquanto pessoa, era sempre uma pessoa apaixonada. Ou talvez se eu olhar para mim enquanto mulher, é sempre como uma mulher apaixonada. Ao escrever sobre romance eu estou ciente que o meu interior está completamente preso a imaginar o outro. Em um poema eu digo “Dou a você o eu que não consigo ver/ deus, se romance fosse apenas isso/ quão fácil seria”. Essa noção de que uma parte da sua alma só pode ser vista pelo outro ou por deus. Mas eu também penso em como as mulheres são seduzidas não apenas para o romance, mas para a porra do oceano de amor eterno que é a maternidade e como isso pode ser transferido para o amante. Acho que quando você é impregnada com essa capacidade de uma primavera eterna de doação, você não se livra disso ao não se tornar mãe, mas você pode canalizar isso aos seus parceiros românticos. E talvez isso seja um problema.

carrossel dos desejos

Nico: É verdade. Quando você lê Carrossel dos Desejos e tem um monte de detalhes, e um monte de ilustrações, e um monte de coisas que são transmitidas, mas você não consegue destacar coisas específicas. Tudo está escrito de maneira abstrata. 

Rachel: E ainda assim, ainda é um livro de estranhamento vulnerável. Estou interessada na vergonha como um conceito. Eu me permito me expor pra caramba. Me permito ser vulnerável e me permito não ter medo de constrangimentos.

Sobre poesia

Nico: Você poderia definir, por experiência própria, como deveria ser o processo e a experiência de ler poesia?

Rachel: Para mim, poesia deve ser detida, estudada com lentidão e lida em voz alta. Para conhecer um poema, você deve ler ele mais de uma vez. [O poeta italiano Eugenio] Montale disse que a poesia é uma arte incuravelmente semântica. Para mim, não é sobre os fins, não é sobre enredo. E é isso que quero dizer sobre onde eu me encontro agora ou tento estar. Poesia é simplesmente ser. É como eu já te falei da poesia contra o romance…

Nico: Sobre o romance estar condenado. 

O romance está condenado às circunstâncias do total da vida de alguém, enquanto a poesia continuamente tenta alcançar o total da vida de alguém.

Rachel: O romance está condenado às circunstâncias do total da vida de alguém, enquanto a poesia continuamente tenta alcançar o total da vida de alguém. Porque o objetivo da poesia não é claro. É meio que uma falha de comunicação. E é culpa minha enquanto alguém muito viciada em estar no estar, no momento, vivendo essa vida romântica idiota. Também tive uma ideia sobre o problema dos contos. Quando se escreve um conto, às vezes é como se você quisesse estar tocando uma flauta, mas você está empacado tocando o trompete. 

Nico: Então se o romance está condenado às circunstâncias, às pré-condições de uma vida, você não consegue ir muito além. Então você diria que ler prosa é mais como uma experiência passiva, enquanto ler poesia é mais como uma experiência criativa?

Rachel: Acho que ler poesia está mais perto da música. Está mais perto do êxtase ou do gozo, ou talvez uma oração ou adivinhação. E um romance precisa conter a poesia, mas você frequentemente está lendo para uma narrativa. Eu amo uma história, mas eu também gosto de sair da história. 

Nico: Então talvez um seja como olhar uma planta e o outro seja como olhar para uma fotografia. 

Rachel: Um romance é como andar por uma casa e ver o revestimento da casa, enquanto um poema é como ser chamado de criança vivendo na casa, mas de cabeça para baixo na cama, e é como se o teto fosse o chão. Você poderia viver no teto com a mesma facilidade com que vive no chão. É não entender completamente o que a casa é. Ou ter a impressão de que há mais naquela casa do que você consegue ver.

LEIA TAMBÉM: A INACREDITÁVEL TRAJETÓRIA DE NICO WALKER, AUTOR DE CHERRY

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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