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A inacreditável trajetória de Nico Walker, autor de Cherry

Escritor é um veterano de guerra que cometeu assaltos a bancos e produziu seu livro na prisão.

Aos 19 anos ele se alistou no exército e foi combater no Iraque. Aos 26 foi pego assaltando um banco e sentenciado à prisão. Com 33 anos publicou seu primeiro livro, que está sendo adaptado para o cinema. Não é à toa que a obra de estreia de Nico Walker ganhou as telonas e os serviços de streaming, seu livro Cherry: Inocência Perdida pode até ser uma obra de ficção, mas tem um forte paralelo com a trajetória do próprio autor.

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Caçula de dois filhos, Nicholas Walker foi criado por uma família estável, com pais que o amavam e lhe davam tudo o que um menino poderia querer. Por exemplo, quando o pequeno Nick se interessou por música, seus pais lhe deram diversos violões e até um piano. Nas cidades de Atlanta, Las Vegas e Cleveland, por onde moraram, eles sempre se preocuparam em viver nas melhores vizinhanças e em matricular os garotos nas melhores escolas. Sua criação foi bem protegida, privilegiada e predominantemente feliz.

O pequeno Nicholas era bem próximo de seu avô materno, que era um veterano da Segunda Guerra Mundial. No primeiro ano de faculdade, no entanto, ele estava insatisfeito com a vida retida em Cleveland e começou a ficar chateado com as histórias vindas do Iraque – de jovens feridos que se pareciam muito com ele. Isso contribuiu com sua decisão de se alistar, para o choque de sua família.

Guerra e decepção no Iraque

Nicholas Walker serviu como médico no conflito dos Estados Unidos com o Iraque entre 2005 e 2006 e durante o período manteve um histórico exemplar, com direito a sete medalhas e moções de louvor. Ele participou de aproximadamente 250 missões de combate – um número considerável para qualquer militar, ainda mais para um médico.

Walker se tornou tão bom no que fazia que os soldados de dois pelotões diferentes solicitavam especificamente a sua presença nas missões mais perigosas, o que ocorreu quase todos os dias ao longo de um ano. Por ter se alistado ao exército justamente porque queria ajudar as pessoas, ele atendia todos os pedidos de seus colegas.

Participar da guerra também provocou um choque de realidade no jovem soldado, que vislumbrava uma história de glórias e de fazer o bem com esta intervenção. No entanto, chegando no Iraque e vivendo aquela realidade, ele passou a questionar o propósito do conflito. “Não existem mocinhos e bandidos. E olhando pra trás você pensa: “o que você achava que iria acontecer? Morte ou glória? E daí você se sente mal porque era exatamente isso que você queria. É bem fácil entrar, mas é muito difícil sair”.

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Estresse pós-traumático e os assaltos a bancos

Quando retornou aos Estados Unidos, Walker não se deu conta de que poderia estar sofrendo de estresse pós-traumático. Ele se sentia mal, mas ao mesmo tempo se sentia envergonhado por se sentir desta forma e não sabia lidar com a situação. A saída encontrada por ele se resumiu a bebida e analgésicos.

Casos de estresse pós-traumático em veteranos são assustadoramente comuns. Um estudo de 2010 descobriu que todos os dias aproximadamente 22 veteranos cometiam suicídio nos Estados Unidos, a maioria deles por sofrerem do distúrbio. No ano de 2012 o número de militares que tiraram as próprias vidas superou o número daqueles mortos em combate no conflito com o Afeganistão, durante o mesmo período.

Ainda assim, muitos ainda enfrentam desafios para se tratarem quando retornam para casa. Alguns dos principais empecilhos são: demora para que eles recebam atendimento próprio, falta de acompanhamento dos casos e diagnósticos errados. 

Outro problema é que cada pessoa encara o estresse pós-traumático de uma forma diferente. Nico Walker, por exemplo, não seguiu o padrão mais frequente, como o de replicar abuso físico e psicológico nas pessoas próximas ou o próprio suicídio. 

Além de todo o trauma da guerra, o retorno ao lar foi marcado por outra crise para Walker: ele e sua esposa Kara, com quem ele se casou rapidamente antes de ir para o Iraque, acabaram se separando. O primeiro problema foi a incapacidade de dormir naturalmente por causa das lembranças da guerra, o que o levou a beber até pegar no sono. Porém, dormir também não era uma atividade reparadora, já que ele constantemente tinha pesadelos relacionados ao conflito, que progressivamente levaram a alucinações.

Isso durou aproximadamente um ano, quando, na metade de 2007, ele passou a tomar um forte opioide para dormir. Durante o dia, sua vida parecia estar voltando aos eixos: ele estava estudando e tinha uma banda. Em 2008 ele até mesmo se reconciliou com Kara. 

Porém, as memórias da guerra continuavam a assombrá-lo, dormindo ou acordado. Até então nenhum médico tinha chegado ao diagnóstico de estresse pós-traumático. O primeiro que atendeu Walker apenas prescreveu alguns antidepressivos e, em 2007, outro o diagnosticou com ansiedade e recomendou que ele não retornasse ao exército, pois isso poderia desencadear o distúrbio.

A falta de um tratamento adequado só fez com que os problemas de Nico Walker piorassem a cada dia. Ele começou a usar heroína e a adotar comportamentos cada vez mais violentos, como direção perigosa e agredir a si próprio. Tal atitude desesperou seus pais e o afastou de amigos, inclusive os membros de sua banda e Kara.

Somente em 2010, quando a mãe de Walker o levou a um psiquiatra, Nico recebeu não apenas o diagnóstico de estresse pós-traumático, mas também de transtorno bipolar, depressão severa, ansiedade generalizada e dependência de opioides e álcool. Porém, o próprio diagnóstico abalou ainda mais o psicológico e o emocional de Nico. 

Após assistir muitos vídeos de guerra, que o lembravam do tempo no Iraque, Walker teve uma epifania: ele decidiu que iria assaltar um banco. Ele chegou a esta conclusão por entender que tinha todas as qualificações para isso, e queria lidar com uma atividade altamente estressante e ao mesmo tempo assustadora. “Eu não queria machucar ninguém, não sou uma pessoa violenta”, afirmou em entrevista ao BuzzFeed. “Era um bom escape para a minha raiva? Sim, era um ótimo escape. Aqueles bancos são bem presunçosos, não são? Pensei ‘eles já me roubaram algumas vezes, agora eu é que vou roubá-los’”.

Desde seu primeiro assalto ele sentiu uma empolgação que há anos não conhecia. Não era bem felicidade, mas algo que o deixava agitado de forma positiva. E foi o que continuou fazendo ao longo dos próximos quatro meses, com diversos outros bancos – a maioria deles locais, daqueles em que os funcionários chamam todos os clientes pelo nome. Foram dez assaltos no total. No começo as ações eram mais discretas e até um tanto tímidas, porém, conforme Nico se envolvia mais profundamente com seus traficantes de heroína, outras pessoas passaram a participar e os assaltos se tornaram mais violentos.

Em abril de 2011 ele foi preso durante um de seus assaltos e processado judicialmente. A princípio, Walker nem entendia a gravidade da repreensão. “Comparado com o que eu fazia no Iraque, assaltar bancos parecia brincadeira de criança. Obviamente eu estava errado e me dou conta disso agora”, declarou em uma entrevista ao The Guardian. Em depoimento ao FBI, o veterano chegou a afirmar que só assaltava bancos para passar o tempo.

Da prisão para a literatura

Condenado em 2012 a 11 anos de reclusão, Nico Walker teve um extenso perfil de sua trajetória publicado no site BuzzFeed em uma matéria do jornalista Scott Johnson, divulgada em 2013. A história chamou a atenção de Matthew Johnson, sócio de uma editora nos EUA, que encorajou Walker a escrever uma biografia.

Apreensivo com a ideia no início, o veterano acabou topando o desafio, mas não quis narrar sua história de forma autobiográfica. Em vez disso, ele escreveu uma obra de ficção que se assemelha bastante à sua trajetória. 

Escrever encarcerado também foi um desafio para o autor estreante. Ele não tinha muito tempo, pois trabalhava como tutor dentro da penitenciária. Além disso, não havia muita possibilidade de estar sozinho para se concentrar na escrita. A solução encontrada por ele foi acordar mais cedo do que os outros detentos e conseguir alguns momentos de solitude enquanto escrevia nas máquinas de escrever da biblioteca

A escrita ajudou Walker a lidar com os fantasmas do passado. “O Iraque costumava ser algo no qual eu não conseguia pensar sem ficar bravo. Aquilo me levava de volta de uma forma muito intensa. Hoje em dia já nem se parece mais com a minha vida – parece que é a vida de outra pessoa”.

Além disso, escrever Cherry deu a Walker uma perspectiva para quando saísse da prisão. “Vou tentar continuar a escrever. Ter uma possibilidade de carreira, dinheiro, motivação, um propósito, um motivo para sair da cama… a maioria das pessoas presas não tem isso”. Em outubro de 2019 Nico Walker foi liberado da prisão em liberdade condicional. Em agosto de 2020 ele se casou com a poeta Rachel Rabbit White. 

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Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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