As pessoas utilizam diversos artifícios para driblar a solidão em casa. Algumas optam por animais de estimação, deixam a TV ligada ou conversam com plantas. Ou, se você vivesse no século 17 poderia ter bonecos feitos em uma tábua, conhecidos como companheiros silenciosos (silent companions).
Esta é a companhia macabra de Elsie no livro O Silêncio da Casa Fria, escrito por Laura Purcell. Sozinha após o falecimento do marido, a protagonista começa a vivenciar experiências estranhas com seus painéis de bonecos, que começam a acompanhá-la com os olhos e a aparecerem sozinhos em cômodos da mansão.
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Para escrever o livro, Laura Purcell se inspirou neste estranho costume que era bem popular entre os aristocratas ingleses e holandeses do século 17 ao 19. Os companheiros silenciosos eram tábuas de madeira ricamente pintadas e esculpidas em forma humana, levemente menores do que pessoas de verdade. Normalmente seus personagens estavam fazendo alguma atividade. O boneco de Elsie era uma criança com um sorriso travesso segurando uma rosa branca.

O nosso gosto estético pode até discordar, mas os companheiros silenciosos eram verdadeiras obras de arte, fabricadas com refinadas técnicas de pintura e escultura. Na Grã-Bretanha, a maior parte destes manequins era produzida pelos mesmos artistas que faziam placas para lojas, pousadas e tavernas.
Apesar dos processos (e da qualidade do resultado) variar, a maioria dos painéis era pintada a óleo diretamente na madeira, logo após ela ter sido preparada e amaciada.
Em outros casos, as pinturas eram feitas em telas, recortadas e coladas nos painéis.
Uma técnica empregada nestes bonecos, chamada de pintura trompe l’oeil, os deixava ainda mais perturbadores. Isso porque ela consiste em criar superfícies com efeitos de ilusão de ótica, confundindo o olho de quem vê alguma obra deste tipo. O nome em francês significa justamente “enganar o olho”.

Dentre as ilusões criadas por esta técnica podemos destacar a falsa sensação de profundidade e a imitação de texturas, como o couro. No caso dos manequins, a confusão era pensar que se tratavam de pessoas reais. Pinturas ilusionistas deste tipo eram bem populares na Holanda do século 17, quando pegadinhas e enganações eram o centro da diversão da elite.
Hoje encarados como itens de decoração exóticos e um tanto bizarros, os companheiros silenciosos geram muita especulação quanto a sua verdadeira função. A ilusão de se parecerem com pessoas reais não tinha utilidade apenas estética.
Uma das teorias é de que estas figuras foram criadas para inibir possíveis bandidos e soldados inimigos. Já outra explicação é a de que eles serviam apenas para combater a solidão e, por isso, eram chamados de companheiros silenciosos.
Outro possível uso estético nas mansões tem uma função muito parecida com o truque do espelho que usamos hoje em dia em ambientes pequenos: dar amplitude. Por serem levemente menores do que pessoas reais, eles eram posicionados de forma que pareciam tornar o ambiente onde estavam um pouco maior.
Na prática, o pessoal usava em utilidades bem funcionais do dia a dia, como segurar portas ou servirem de alvo para a prática de tiro. Alguns dos painéis analisados nos dias de hoje indicam que eles também eram utilizados como telas de lareira. Os pares que representavam crianças costumavam disfarçar as lareiras durante o verão, quando elas não eram necessárias.

Mas os companheiros silenciosos também tinham uma função divertida. O escritor e artista holandês Arnold Houbraken, que viveu durante o século 18, descreveu um encontro em que um destes painéis foi posicionado na porta para “cumprimentar” aqueles que chegavam. Algumas pessoas realmente confundiam com um criado de carne e osso, o que rendia boas risadas de quem observava a cena.
A diversão não era o único propósito dos bonecos. Na época em que ainda não havia eletricidade, posicionar uma vela próxima a um deles causava um efeito que parecia dar vida à pintura realista do objeto. Colocar um deles debaixo de uma escada ou ao fim de um corredor escuro era motivo para dar um baita susto em qualquer visitante.
Com uma função tão assustadora, não é de se admirar que eles atormentassem a pobre Elsie de O Silêncio da Casa Fria.
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