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The Gate: O portão está aberto

A verdade impressa em discos de heavy metal

14/07/2023

Para falar a respeito dos clássicos de horror das videolocadoras precisamos de pelo menos duas bases fortes: relevância e valor afetivo. Relevância, sim, porque as melhores produções acabam provando seu real valor com o passar do tempo. E valor afetivo é imprescindível, afinal de contas, como poderíamos visitar o passado sem nos importarmos com ele? The Gate, produzido em 1987 e batizado por aqui de O Portão, é um filme que resume muito bem esses dois pontos de apoio.

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Começamos nosso passeio de uma forma bastante receosa, com o filme nos deixando preocupados quanto à segurança de um menino. Glen (interpretado por Stephen Dorf em um de seus primeiros papéis) pedala pela rua, caminha pela casa vazia, chama por seus familiares repetidas vezes, e tudo o que obtém de resposta é uma voz infantil, mecanizada, dizendo “mamãe”. A atmosfera é bastante densa, de certa forma somos avisados de que um mal maior se aproxima. Com o despertar do menino, chega a certeza de que algo estava muito errado com aquele sonho, que parece funcionar como uma premonição.

Para falar dessa premonição, vamos relembrar que uma criança que viveu em uma cidadezinha do interior, ou mesmo em um bairro que relembre um desses lugares, possivelmente elegeu uma grande árvore como confidente, melhor amiga, muitas vezes esconderijo. Em The Gate essa árvore faz sua aparição sendo atingida por um raio, derrubada, decapitada. Desmembrada. Vivenciando a cena, sentimos que ela sofre, acima disso, sentimos que ela é exterminada, como a última guardiã de um reino proibido.

É dessa mesma árvore e de seus restos mortais que emerge uma espécie de ovo mineral, um geodo, o “Coração do Trovão”. Também é nela que o menino Glen, que mora naquela casa, se corta, selando com seu sangue o que viríamos a descobrir ser um pacto com as trevas.

the gate

Existiram e existirão muitos outros filmes com a premissa pactuária de The Gate, mas de uma maneira quase mágica e ritualística, ele conseguiu se fixar na mente dos cinéfilos fãs de horror e heavy metal como uma referência. E vamos aos motivos!

the gate

Nos anos 1980-1990 ninguém arriscaria dizer que as capas de discos de rock e suas letras estampadas no encarte eram inofensivas. Pais e professores ouviam no noticiário sobre esses “vândalos” e “delinquentes”, liam nos jornais sobre essas “pessoas ouviam rock e tinham firmado acordos com o Diabo”. Nos quartos adolescentes daqueles anos, muitos de nós tinham uma parede dedicada a bandas como Iron Maiden, WASP, AC/DC, Accept, Black Sabbath e Judas Priest. Nos álbuns ilustrados com caveiras, demônios e símbolos satânicos, nos deliciávamos e arriscávamos com as piores possibilidades. Mensagens escondidas nas capas, cifras ocultas nas letras e obviamente: discos rodados ao contrário.

the gate

The Gate parte dessa premissa bem simples e convincente de que em nosso mundo existem portais, e que bem ou mal, por vontade consciente ou mera convergência de atos, eles podem ser abertos.

Visitando The Gate encontramos elementos que seriam reciclados em uma infinidade de títulos, e talvez o mais importante deles ainda demorasse três décadas para conseguir existir no mundo real. Caso não tenha se situado ainda, me refiro a Stranger Things, que bebeu do melhor dessa fonte para conceber parte de sua própria mitologia em 2016.

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Em The Gate não existe um jogo de RPG, mas em seu lugar temos a banda Sacrifyx, que supostamente gravou um único disco antes de perecer em um acidente aéreo — e o referido álbum da mesma banda The Dark Book, que contém no encarte instruções sobre como abrir um portal para o Inferno na Terra. No filme também temos o bastão do poder passado para as crianças e pré-adolescentes, em detrimento aos adultos que, por alguma razão jamais explicada nesse mundo, perdem a capacidade de se conectar com a magia presente em diferentes pontos do universo. The Gate possivelmente é um dos últimos terrores com crianças, convincente, da década.

the gate

Mais ou menos na metade do filme, começamos a entender que ele se torna impiedoso, seja no tratamento com as crianças, ou mesmo nas cenas mais “gore” e impactantes que recheiam o longa (não vamos falar dos diabinhos, os efeitos são datados, mas até eles são legais). Em muitos momentos quando os adolescentes e crianças são atacados nos perguntamos: “Eles fizeram mesmo isso?”, “Naquele tempo?”. Sim, meninos e meninas, fizeram muitas coisas incríveis nesse filme canadense dirigido por Tibor Takács.

Dono de falhas que desprezaremos como bons consumidores de terror que somos, The Gate assume satanismo, assombrações, pesadelos, demônios ancestrais, sacrifícios e sanguinolência, professando em plenos anos 1980 que a Bíblia era “coisa do passado”, e o que valia mesmo era a verdade impressa nos discos de Heavy Metal. Retrato fiel de uma época, o filme expõe e impõe o que muitos de nós viviam no dia a dia daqueles anos: tudo era possível. A velha árvore no fundo de sua casa poderia ser um abrigo, ou um demônio, poderia até mesmo ser um portal para outras dimensões. Os discos do Iron Maiden tinham segredos obscuros escondidos em suas capas, e se você rodasse alguns desses discos “terríveis” ao contrário, fossem eles do Black Sabbath, do Slayer ou da Xuxa, teria mensagens desagradáveis para te acompanhar no sono.

the gate

Ainda hoje o filme é uma visita muito divertida, e ficará um pouco mais interessante aos cinéfilos que se dedicarem a procurar por todas essas sementes que germinariam um sem número de filmes e séries que içariam o horror à novas alturas. Não vou dizer mais, afinal, esse é um daqueles filmes que exigem silêncio, uma luz mortiça e um quarto bem decorado com pôsteres desatualizados nas paredes. Se você fizer tudo isso e apertar o play, tenha certeza de que muitos portais se materializarão. Para onde eles os levarão, eu não sei, mas tenho certeza que valerá o passeio. Vamos? 

AKA KUTO ALA NETA

O portal está aberto! 

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Sobre Cesar Bravo

amplificador cesar bravoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D., 1618 e Amplificador.

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