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Um clássico moderno: O Pensamento de Irvine Welsh sobre Psicopata Americano

Autor de Trainspotting considera obra uma das melhores definições dos Estados Unidos na virada do século.

Para o escritor escocês Irvine Welsh, autor de Trainspotting, Psicopata Americano é uma das principais obras publicadas nos tempos atuais e que melhor define os Estados Unidos na virada do século 21. Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, o autor explica o que torna o livro de Bret Easton Ellis tão relevante.

Welsh define Psicopata Americano como um enfrentamento petulante, infalível e intransigente a esta época. Ele compara a obra a Clube da Luta, que também é uma provocação ao estilo de vida dos dias atuais. Enquanto o livro de Chuck Palahniuk mostra o ponto de vista dos jovens excluídos e sem oportunidade, a história de Ellis foca na outra ponta: a dos homens privilegiados, mas moralmente falidos.

Segundo o escritor, Psicopata Americano proporciona uma sátira que também é um espelho da sociedade. Com este choque desconfortável de identificação, ele provoca reflexões, ainda que distorcidas, de nós mesmos e do mundo em que estamos inseridos. O livro subverte os romances com lições positivas que os críticos tanto amam. Aqui não há qualquer tipo de esperança de que o amor e a fé irão vencer no final. A obra deixa a impressão de que criamos um mundo privado de qualquer tipo de compaixão e empatia, um terreno fértil para a criação de monstros que se dão bem enquanto se escondem à luz do dia. Tudo isso com muito humor ácido e ironia, construindo uma sátira sobre a nossa cultura de excessos.

Uma das provocações citadas por Irvine Welsh vem da autodefinição do protagonista Patrick Bateman: “Eu sou engenhoso, criativo, jovem, inescrupuloso, altamente motivado e qualificado. Essencialmente, o que eu estou querendo dizer é que a sociedade não pode se dar ao luxo de me perder. Eu sou um achado”. Ao mesmo tempo em que resume tudo o que o Sonho Americano defende, o tipo de pessoa e profissional que a sociedade capitalista espera de todos, estamos falando de um assassino inescrupuloso.

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Reações extremas comprovam natureza subversiva de Psicopata Americano

É praticamente impossível separar Psicopata Americano das reações extremas que o livro recebeu. Enquanto algumas pessoas, como Welsh, consideram o livro uma das principais obras da virada do século, há quem veja a história como mais uma desculpa para cultuar a misoginia e a violência contra mulheres.

Para Irvine Welsh, a manipulação do leitor é uma das qualidades que mais se destaca na história. “Ao nos apresentar a um glamoroso e assassino protagonista, Bret Easton Ellis rejeita a norma. É um perfil anos-luz distante do clichê do serial killer como um fracassado sombrio e inadequado. Bateman provavelmente seria sustentado como o arquétipo modelo do sucesso americano, se não fosse pelo fato de que ele é um psicopata assassino”.

Foto: publicada no hornet.com

Ao misturar a rotina normal de Bateman aos seus homicídios, Ellis estabelece um paralelo desconfortável entre os aspectos psicóticos da cultura estadunidense, com sua fixação por riqueza, obsessão por armas e militarismo internacional, e as preocupações mórbidas e depressivas de um serial killer. Trata-se de uma metáfora para uma cultura que sucumbe a um materialismo consumista, que destrói os valores humanos em favor de uma obsessão com a imagem.

Porém, há leitores e críticos que enxergam Psicopata Americano de outra forma. A violência de Bateman contra as mulheres é outro aspecto que chama a atenção. Mulheres são vítimas da misoginia e da violência contra elas há séculos e algumas delas enxergam as investidas violentas do protagonista não apenas como mera crítica ao capitalismo, mas como uma forma de utilizar tal violência como entretenimento.

Confrontado por este argumento diversas vezes, Irvine Welsh o considera um ponto válido e difícil de discordar. Para ele, isso reforça o caráter reflexivo do livro, provocando um debate sobre o que funciona e quais seriam os limites da ficção neste sentido. Ele lembra que a história deve ser inserida no contexto da época em que foi escrita (1991).

Outro argumento de Welsh é que a história fala tanto sobre o escritor como sobre o leitor. “Como leitores, nós filtramos os livros pelas lentes da nossa própria bagagem cultural e respondemos de acordo com ela”. Por este motivo, o escritor argumenta que não existe análise 100% objetiva e isenta deste livro ou de qualquer outro.

No entanto, o autor acredita que a maior fonte de inquietação em relação a Psicopata Americano não vem simplesmente da caracterização de Bateman – superficial, pomposo, mentiroso, misógino, racista e narcisista –, mas do estilo de narrativa do livro. Ao ser contado no presente, em primeira pessoa, o livro força o leitor a adotar o ponto de vista do protagonista, inconscientemente torcendo para que ele se dê bem. Isso tem dois efeitos principais: envolver o leitor na violência e mau-caratismo do protagonista e exigir que ele faça algum tipo de julgamento moral das atitudes do personagem. Ou seja, o leitor é forçado a confrontar as próprias emoções no contexto dos valores de uma sociedade da qual todos fazemos parte.

A violência em Psicopata Americano

Aprofundando sua análise sobre a violência da obra, Irvine Welsh diferencia a pornografia presente em Psicopata Americano daquela utilizada para objetificar mulheres. “Estas cenas são cuidadosamente trabalhadas e posicionadas e justapostas com horror e gore. Elas não são sobre alguma projeção doentia do autor, criadas para alimentar as fantasias misóginas de um (tomara que pequeno) contingente de leitores homens disfuncionais”.

A violência de Bateman é uma analogia às ações desalmadas que os profissionais do mercado financeiro fazem todos os dias. Um exemplo é a cena em que Patrick Bateman o que ele faz da vida: enquanto ele responde “assassinatos e execuções” o que se ouve é “fusões e aquisições”. Ao reduzir suas vítimas a bens ele representa o serial killer alienado de colarinho branco.

A violência extrema de algumas passagens do livro, conforme argumenta Welsh, tem a função específica de mostrar o legado arrasador do mundo consumista e imperialista em que vivemos. Embora tais cenas sejam perturbadoras para algumas audiências, elas são essenciais para Psicopata Americano deixar a sua mensagem. 

“As críticas negativas que o livro recebeu agora soam como um estampido de crianças assustadas. O fato de elas virem de pessoas inteligentes, que não conseguiram superar seu próprio choque e desconforto para descobrir sua verdadeira natureza, é totalmente delicioso”. Para ele, o pânico moral que cerca a publicação é na verdade uma negação de entender o “declínio do império” que a obra representa para a sociedade dos Estados Unidos.

Foto: publicada no theyakmag.com

Irvine Welsh conclui sua análise diferenciando a obra de Easton Ellis da arte enlatada e consumida massivamente como forma de escapismo. Para ele, as pessoas mais enraivecidas e amedrontadas pelo livro foram atingidas pela verdade inconveniente que ele apresenta. “Já estamos há algum tempo no século 21 e Psicopata Americano permanece a obra de literatura mais indispensável e a explicação mais selvagem da sociedade que criamos”.

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