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Uma carta aberta para todas as bruxas

Que vocês se reconheçam cada vez mais e com mais consciência

A bruxaria está para nós, travestis, mulheres trans, mulheres cis, como uma possibilidade de caminho espiritual livre e emancipador. E é justamente pela bruxaria nos acolher que precisamos ter cada vez mais e mais consciência a respeito dela e de nós mesmas dentro dela. Não é só a potência magística que faz uma bruxa, mas a forma como nos olhamos, nos localizamos e nos posicionamos dentro da bruxaria. Não há magia que dê conta de uma inconsciência cegada pelas ideias tortas de uma anulação da vida social, política e cultural em prol de uma ideia distante e utópica de bruxaria. Há muito o que ser conversado e revisto dentro de nossas práticas, a fim de evitar uma alienação espiritual. Sinto que o primeiro passo é nos desfazermos de uma visão idealizada e elitizada de quem somos nós. Muito se tenta higienizar a bruxaria falando que nossos saberes mágicos são europeus, mas vocês já se perguntaram quem foram essas mulheres europeias? Vocês se perguntam o que a Europa fez com elas? Vocês leram no noticiário o que a Europa ainda faz com a memória delas*?

Muitas das bruxas europeias foram enviadas para a então colônia portuguesa sob graves acusações de heresia e bruxaria. Mulheres pobres, analfabetas, muitas delas doentes. O requinte e o elitismo europeu andou e anda em contramão do que é ser bruxa, feiticeira. A relação sempre se deu no campo do oculto, pois a nobreza usufruía do feitiço, mas depois assassinava a feiticeira. Portanto, reitero a importância de desassociarmos a bruxaria e as bruxas europeias de um lugar de glamour, requinte e nobres postos sociais. Com isso, entro num lugar muito importante que é o de simplificar o nosso caminho. 

LEIA TAMBÉM: PARA TORNAR VISÍVEL O SAGRADO TRAVESTI

Créditos: Bárbara Macedo

Proponho, com essa ideia de simplificar, a acessibilidade de quem a bruxaria acolhe. Essa figura da “bruxona” ou do “bruxão” – estouradas nas redes sociais, com cenários riquíssimos, ensinando outras pessoas a “enriquecerem” sem fazer nenhum recorte social ou partindo de uma ideia de espiritualidade meritocrática – precisa ser repensada. Porque ela é inacessível. E reiterá-la como o único referencial possível nos limita e traz a bruxaria para um campo de incompreensão. Afinal, essas pessoas estão dizendo: “veja só como é fácil e simples ser uma bruxa, você só precisa pagar R$ 997 reais no meu curso para isso”, do contrário, a propagação do não compartilhamento de um conhecimento com a desculpa de “quando eu aprendi, foi sozinha” ou qualquer outra baboseira, só atesta que você não aprendeu absolutamente nada do que estudou. Essa bruxaria que segrega e inviabiliza é um caminho de apagamento e resquício de um pensamento colonial, onde quem pode pagar pelo acesso ao conhecimento paga; e quem não pode… bom, volte algumas linhas e releia sobre o destino das bruxas pobres e analfabetas. A bruxaria não pode cair, novamente, no campo da incompreensão. É importante que seja o caminho oposto e para que a gente se compreenda, precisamos nos olhar de frente, olho no olho, e não de baixo para cima. 

Quanto mais a gente reforçar que uma grande bruxa é aquela que tem um altar luxuoso, aquela que possui gigantescas imagens de suas divindades, aquela que possui infinitos livros (todos em inglês) sobre o tema, centenas de ervas e árvores cultivadas em seu enorme jardim, centenas de cristais (sem se preocupar com a forma de extração deles), mais a gente vai distanciar desse caminho as pessoas que mais precisam dele. As bruxas contemporâneas, que são constantemente acusadas de serem hereges de uma sociedade cis-hétero-branca-normativa. Aquelas pessoas que, provavelmente, não se encontraram em outros caminhos espirituais. 

A bruxaria é um caminho expansivo e que se renova. É um dos caminhos que eu sigo porque ele me acolheu mesmo quando o meu altar consistia em dois elementos num banquinho plástico. E é assim que deve ser. A bruxaria não é um caminho pronto, é um caminho que está em constante acontecimento e se faz importante trazê-lo para a contemporaneidade e para os recortes sociais, para que ele siga sendo o que se propõe: uma prática espiritual verdadeiramente acolhedora que está interessada muito mais no seu desejo de autoconhecimento e na não segregação do conhecimento adquirido. Quanto mais a “bruxona” for travesti, negra, periférica, mãe solo, indígena, quilombola, guerrilheira, latino-americana, mais acessível ela será. E quanto mais acessível ela é, mais verdadeira ela se torna. Maior é o número de mulheres que se sentem representadas e representatividade se dá na ação. 

LEIA TAMBÉM: SOBRE MAGIA E ABRIR JANELAS

Créditos: Bárbara Macedo

A bruxa literária Clarice Lispector escreve, em Mineirinho, de 1964: “Para que a minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.” 

Ser bruxa nos faz contrárias a sermos “sonsas”. Não nos cabe o lugar do funcionamento em troca do não exercício da revolta e do amor. A bruxaria nos espelha, entre nós mesmas, para que uma encoraje a outra a falar, a sorrir, a chorar, a gritar, a amar. A bruxaria é esse próprio chão de Clarice, onde erguemos novas casas à medida que as anteriores não funcionam mais. E conhecer Clarice e seus mistérios é vivenciar o poder alquímico que sua escrita traz. Recomendo o livro Bruxas Literárias – Alquimia das Palavras, de Taisia Kitaiskaia e Katy Horan para que vocês localizem outras referências para a bruxaria de vocês. 

Gosto muito de uma passagem do livro Bruxa Natural (sim, ele de novo!) em que a autora diz: “(…) para uma bruxa natural, o mundano é mágico. Quando ela sente, responde e toca nos fluxos de energia da natureza ao seu redor, nada pode ser mais natural. Ela realiza magia natural. A natureza em si é mágica. O dia a dia é sagrado para a bruxa natural”. Quando pensamos nessa sacralização do mundano, não estamos banalizando o caminho. Estamos entrando em um alinhamento maior com a essência da bruxaria, que não é de escassez, mas de simplicidade. De reconhecer o poder de um rezo bem rezado, de um raminho de alecrim para abrir caminhos de forma alegre, de um chá de hortelã bem intencionado para trazer foco.

Esta é uma carta aberta para que todas as bruxas se desprendam do discurso de serem netas de alguém para validar sua própria magia. Nem sempre a bruxaria vai vir de linhagem na sua vida. E independente da forma como ela chegar, sua parte é olhar para ela e para si com consciência e presença. O resto, como diria a poesia, “cresce livre e verde longe da tua cegueira”. Viva a sua magia, bruxa!

LEIA TAMBÉM: BRUXA, SE PERMITA ERRAR!       

*Em matéria publicada pela BBC News, “Catalunha concede perdão a centenas de mulheres executadas por bruxaria”. Essa ação só reitera o pensamento eurocêntrico e nos mostra que, se houvesse possibilidade, as fogueiras ainda estariam acesas em praças públicas. 

Sobre Bárbara Macedo

Bárbara Macedo é uma travesti bruxa e makumbeira. Trabalha como oraculista, magista e mentora espiritual. Tem como enorme desejo auxiliar as pessoas a romper com os olhares binários acerca de sua própria espiritualidade e, consequentemente, visão de mundo. Pesquisa as relações entre a população da qual faz parte (travesti) e espiritualidade, com enfoque na bruxaria e na umbanda. Conheçam seu trabalho no instagram @barbara_macedo37.

7 Comentários

  • Simone Agostinho da Silva Santos

    21 de fevereiro de 2022 às 15:50

    Maravilhosa sua carta aberta, amo o mundo místico tenho vontade de aprender muito sobre a bruxaria.. um abraço

  • strega

    21 de fevereiro de 2022 às 19:14

    Muito bacana Bárbara você alertar para a contradição do elitismo de muitos auto-proclamdos bruxos e bruxas, que nega a condição marginalizada e excluída dos que encantavam e encantam a vida no dia-a-dia!

  • Laura

    21 de fevereiro de 2022 às 21:50

    Maravilhosa!! Arrasou! Adoro esse mundo místico, apesar de saber pouco sobre

  • Manoela

    21 de fevereiro de 2022 às 22:00

    Essencial na nossa caminhada, que texto maravilhoso

  • strega

    21 de fevereiro de 2022 às 22:04

    É isso aí: Elitismo e Exclusão são a antítese da Magia.

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