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Bruno Ribeiro: “O horror é o espelho distorcido – e muitas vezes nem tão distorcido assim – da nossa realidade.”

DarkBlog entrevista Bruno Ribeiro

Uma voz intensa, original e repleta de potência, Bruno Ribeiro distorce e expande gêneros, unindo entretenimento a uma dura crítica social. Seu livro Porco de Raça, ganhador na categoria Romance/Conto da primeira edição do Prêmio Machado DarkSide, vai deixar todos nós prontos para entrar na briga. Confira a entrevista que o autor deu ao DarkBlog.

DarkBlog: Como muitos leitores, tive a grata oportunidade de conhecer seu trabalho bem antes de sua entrada no universo DarkSide; como foi que tudo começou? Quando Bruno se descobriu o escritor Bruno Ribeiro?

Bruno Ribeiro: Difícil responder, porque eu acho que um escritor só se descobre escrevendo. Quando acaba com o trabalho, ele vai se tornando outra coisa. Até hoje fico receoso de dizer que sou escritor, apesar de ser um, claro. Eu descobri que queria seguir por este caminho na adolescência. Foi através dos traumas e bordoadas deste período da vida que decidi botar no papel as minhas broncas. Com o tempo fui jogando com a ficção, as minhas experiências e a dos outros, lendo bastante, vendo e consumindo arte e, quando menos percebi, estava levando isso a sério e querendo, de fato, me tornar um escritor.

DB: É notório que seu trabalho apresenta diferentes camadas. De onde vem todas essas vozes? Quem são os autores e autoras que pavimentaram inicialmente seu caminho na escrita?

BR: Eu sempre gostei da ideia de criar uma teia de colagens. De misturar vozes e elementos díspares que à primeira vista não combinam, para causar uma sensação de estranhamento no leitor. Neste sentido, o escritor é mais inventor do que criador. O inventor se utiliza daquilo que já existe para dar vida à sua invenção. É o que fazemos. Juntamos inúmeras referências e experiências para inventar e tocar o terror na página em branco. No meu romance “Febre de Enxofre” juntei Miley Cyrus com Victor Hugo. Em “Porco de Raça” há inúmeras referências fora do comum e citações que vão de Alcione a Death Grips. 

Enfim, quanto ao meu começo, inicialmente fui muito influenciado por autores americanos e ingleses, como Chuck Palahniuk, Clive Barker, Mary Shelley, Anne Rice e Toni Morrison, depois fui partindo pra brasileira com Lima Barreto, Rubem Fonseca e Hilda Hilst, e nos últimos anos ando sendo muito influenciado pela literatura latino-americana, cito nomes como Juan Carlos Onetti, Silvina Ocampo, Mariana Enriquez e Samanta Schweblin.

Créditos: Marcinha Lima

DB: Como foi o processo para a composição do livro (agora publicado) que venceu o Prêmio Machado DarkSide? Conta pra gente qual era a sua expectativa inicial, as primeiras linhas e como foi se descobrir o campeão desse disputado prêmio literário.

BR: O “Porco de Raça” existe desde 2015, se colocarem “Porco Sucio” e o meu nome completo no Google ainda dá pra achar uma citação ao livro num concurso literário — que perdi — desta época. Com o tempo, o livro foi mudando, alterei título, linguagem, conteúdo, inclui capítulos. Tudo mudou até ele se tornar Porco de Raça. E literatura é isso: longo prazo e paciência. Inicialmente eu não sabia muito bem o que fazer com o livro, o anúncio do Prêmio Machado DarkSide foi a oportunidade ideal para eu tirá-lo da gaveta. A partir disso, reescrevi algumas coisas, tirei outras, e o livro foi ficando pronto. Quando o anúncio do prêmio saiu fiquei muito feliz. De verdade. Fiquei surpreso e animado, pois Porco de Raça tem tudo a ver com a Darkside. É o casamento perfeito.

DB: A literatura como arena é sempre um terreno com pouca estabilidade, mas você vai além dos meros riscos e imposta sua voz com propriedade e decisão. Na sua opinião, na balança ficção & realidades terríveis, o horror pende para qual lado? Considera o horror um gênero onde o debate social deve existir?

BR: O horror desde sempre foi um gênero que debateu as questões sociais. Ver gente falando que isso tá rolando só hoje em dia é uma ignorância tremenda. O horror é o espelho distorcido – e muitas vezes nem tão distorcido assim – da nossa realidade. Ele está no meio termo entre a realidade terrível e a ficção, se equilibrando entre esses dois polos para intensificar e alargar uma verdade que está ali, diante dos nossos olhos, mas que fingimos não ver. 

DB: Agora que falamos de assuntos leves (risos) vamos falar de outra faceta de Bruno Ribeiro. Você também é roteirista e um apaixonado pelo cinema e demais produções audiovisuais. Existe um ou mais diretores que moram em seu coração? Por aqui, na terra brasilis, qual caminho poderia içar o cinema brasileiro de gênero ao degrau de reconhecimento e público das produções estrangeiras?

BR: Existem inúmeros diretores que eu sou fã. De terror, amo o trabalho do Kiyoshi Kurosawa e do Tobe Hooper. Dois mestres do gênero. Aqui no Brasil, atualmente a produtora paraibana Vermelho Profundo faz um trabalho incrível e também admiro as realizadoras Gabriela Amaral Almeida e Juliana Rojas. Eu sou roteirista, mas não estou tão mergulhado assim no mercado audiovisual, porém acredito que dinheiro é tudo, né? Principalmente no cinema que é um meio tão caro. E fazer cinema de gênero de qualidade, aí que é caro mesmo. Fora essa questão, acredito que o caminho está em acreditar na sua própria voz e não ter medo de ousar e saber jogar o jogo. Ouse dentro das limitações que irão impor a você (e o cinema é um meio que impõe muitas limitações por motivos óbvios). Se vai ter reconhecimento ou público, aí é difícil de dizer. Essas questões envolvem tanta coisa, investimentos, planejamento, tanta bronca estrutural também. E se tratando de Brasil já sabemos… Temos um governo fascista e criminoso que boicota o cinema brasileiro diariamente. O que fazer quando quem deveria te ajudar te puxa pra trás? Jogamos com as pernas e os braços amarrados, logo, é tudo mais difícil de se prever em relação ao mercado do audiovisual neste país. Independente do gênero. 

DB: Se tivesse que convencer um leitor que nunca leu seu trabalho a começar por Porco de Raça, o que você diria? (eu sei exatamente o que eu diria, mas queremos ouvir de você) 

BR: Eu não convenço nem a minha família de ler as minhas desgraças, então nem sei como convencer os outros. Mas eu diria que se você curte ter a cabeça fodida e confundida por uns cabos desfiados de eletricidade com questões raciais, vai fundo que este livro é pra você.

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: PORCO DE RAÇA, DE BRUNO RIBEIRO

DB: Violência ou sobrenatural? O que faz seu coração pulsar mais depressa no momento da escrita?

BR: Violência sobrenatural.

DB: Sabemos que o señor percorreu parte do mundo sul-americano e voltou com muita história pra contar. O que existe de mais portenho em seu trabalho atual? Como essas vivências e experiências marcaram seu trabalho?

BR: Atualmente, eu diria que tudo. A literatura argentina influencia bastante o meu trabalho. De mais portenho acho que é a crença na literatura. Nas mil e uma possibilidades do ofício literário. Eu vejo que a literatura argentina abraçou mais a inventividade, ao contrário do Brasil que ainda é muito alicerçado numa literatura realista. Mas tô botando fé que isso tá mudando. Fora isso, as minhas vivências e loucuras em Buenos Aires também moldaram o que restava do meu caráter e dos meus livros. 

DB: Seus livros flertam com um universo de possibilidades, de vampirismo a um tratamento de canal bem… peculiar, do rinque a um boteco bate-coxa na periferia da João Pessoa. De onde nascem suas ideias? Como você reconhece uma ideia potente ao ponto de originar um bom livro? 

BR: As ideias nascem de leituras, experiências minhas e dos outros, artes deglutidas, e como disse acima: é uma colagem. O trabalho de criação, invenção literária, é uma mistura de possibilidades e referências. O escritor precisa ser um alquimista ou um DJ para remixar tudo isso em algo que funcione e tenha o mínimo de coerência e qualidade estética. Eu só consigo reconhecer se a ideia presta ou não no momento da reescritura. Só ali que percebo se deu certo ou se deu ruim. Como eu reconheço? O tempo te presenteia com ferramentas para entender a sua própria produção. Porém, o essencial é mandar o livro para alguns amigos ou profissionais lerem. Chega uma hora que o escritor perde as ferramentas, perde tudo aquilo que estudou e que sabe sobre literatura, perde a noção. Não sabemos mais dizer se aquilo funciona ou não, então é essencial ter amigos sinceros, visceralmente e ofensivamente sinceros, para ler os seus textos. 

DB: Você tem algum livro favorito?

BR: “O Mestre e Margarida”, do Mikhail Bulgakóv, me toca bastante. É uma explosão de criatividade, surrealismo, horror, drama, humor, invenção bíblica e alucinada. Tem de tudo neste livro e é uma grande influência pra mim. É um ótimo exemplo da ideia de colagem na literatura que estava falando acima. Bulgakóv misturou várias coisas no seu caldeirão e saiu com essa obra-prima máxima. Poderia tranquilamente citar “Frankenstein”, da Mary Shelley, ou “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do Machado de Assis, também, mas se for escolher um, fico com “O Mestre e Margarida”. Recomendo demais a leitura, galera, ‘cês não vão se arrepender.

Créditos: Marcinha Lima

DB: Como vencedor de prêmios e uma voz consolidada na literatura, quais conselhos você daria a um escritor que almeja uma carreira na literatura? 

BR: Seja fiel ao que você quer contar. Não siga modas ou tendências. Se a moda ou tendência dialogar com aquilo que você quer contar, ótimo: aproveita a onda. Mas não mude a maré só porque tá dando peixe pro lado de lá. E aprenda a ter noção do seu texto. Conhecê-lo. Saiba se aquilo tá minimamente bom ou terrível. Outra coisa essencial: mate o ego. Abaixa a bola, faz o seu de boa e não pense que é o novo Machado de Assis e que ninguém reconhece o seu talento. Às vezes o nosso texto tá uma bosta. Às vezes é excelente, mas ninguém quer ler mesmo. Entenda isso e saiba que o meio artístico é mais porrada que afago. Abaixa a cabeça, deixa de ser afetado, e volte a escrever: é só isso que importa, você nunca terá controle do resto. 

*Todas as fotos usadas na entrevista (incluindo o banner) foram feitas por Marcinha Lima.

LEIA TAMBÉM: BRUNO RIBEIRO: “PORCO DE RAÇA É UM ESAÚ E JACÓ DA DEEP WEB”

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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