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Candyman, 1990 e 2021

Que diabo de filme é esse?

O multifacetado escritor, diretor, produtor e roteirista Clive Barker, é o responsável pela criação de universos e personagens icônicos do terror, tais quais como Pinhead em seu famoso Hellraiser, e o complexo Candyman, figura surgida originalmente no conto “The Forbidden”, da série “Livros de Sangue”. É válido mencionar a edição do conto lançada aqui no Brasil pela Darkside Books, com artes de capa belíssimas, que nos entregam parte da essência do macabro vilão, e sua peculiar relação com as abelhas.

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Definir Candyman com poucas palavras é injusto. Afinal, estamos diante de uma lenda urbana que vai muito além de sua forma física, e tem simbolismos sociais fortes e metafóricos, que conversam o tempo todo com a realidade e com problemas históricos e mortais, como o racismo e a pobreza. E quando um personagem sanguinário se torna parte enraizada de uma comunidade precária chamada Cabrini-Green, entre seus prédios em ruínas e um estilo de vida hostil, ele é apenas mais um dos horrores, entre tantos outros, que aqueles encaram diariamente.

Hoje falamos muito do termo “horror social” que compõem majoritariamente os filmes de terror atuais. A ideia é justamente esta: incluir de maneira hábil e muitas vezes não tão explícita, problemas do mundo real, com personagens e narrativas que se tornam híbridas e geram um terror tão ou mais ameaçador do que o terror “padrão”, ou seja, aqueles que são puramente e apenas sobrenaturais, slashers e não possuem grandes planos de fundo para uma reflexão maior, a não ser entreter. E isso ocorre não só pela necessidade de trazer debates ainda mais relevantes para o gênero, como também agregar mais fôlego às histórias de terror, já que nos últimos anos, temos cada vez mais produções com essa abordagem. 

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Em 1992 tivemos uma ótima amostra não só dessa junção do social com o horror, como também podemos conhecer melhor quem afinal de contas era Candyman. No longa “O Mistério de Candyman”, dirigido por Bernard Rose naquele ano, tivemos a personificação da lenda vivida por Tony Todd, em seu casacão de lã e com um intimidador gancho na mão direita. A sinistra figura ainda aparecia por vezes rodeado por abelhas e condensava sua presença com uma voz grave e sedutoramente horripilante. Uma simples caracterização, mas tão marcante, que deixaria Todd reconhecido pelo papel por muito tempo. 

Por mais que no filme da década de noventa, Rose, que também foi roteirista do projeto, tenha optado por seguir mais a linha “slasher sobrenatural”, dando apenas pinceladas nos problemas estruturais de Cabrini-Green, é possível notar como a ambientação e abordagem do longa era diferente dos lançamentos de sua época. Quase trinta anos depois, em 2021, a diretora e roteirista Nia DaCosta lança uma sequência direta ao original, resgatando nomes, personagens e abraçando ainda mais forte os elementos sociais que o conto original de Barker possui. 

Em “A Lenda de Candyman”, DaCosta e o famoso produtor Jordan Peele, resolvem explorar ainda mais o passado do personagem título, traçando um paralelo com os personagens da atualidade, mas deixando em evidência como o racismo historicamente dizimou pessoas, causou traumas em seus descendentes e estabeleceu dezenas de preconceitos culturais. E quando o roteiro do novo filme, transforma as pessoas daquela pequena comunidade, no reflexo do que Candyman pode significar, como uma vingança fruto de um sofrimento intenso, longínquo e real, é muito maior do que o próprio Clive Barker poderia imaginar de sua obra adaptada para a tela de cinema. 

E seja qual for o futuro de Candyman no cinema, lembre-se, que ao chamar seu nome cinco vezes na frente do espelho, ele pode aparecer. Seja pelo rosto de Tony Todd, seja pelo rosto de qualquer outro afrodescendente, o “homem-doce” veio para nos lembrar que está vivo, assim como os problemas que o fizeram emergir das sombras. E enquanto tais atrocidades existirem, obras como esta e tantas outras recentes de cunho social são mais uma forma de denunciá-las e combatê-las, mesmo que isso leve décadas, ou séculos. 

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Sobre Lucas Maia

Lucas Maia é jornalista e pesquisador do gênero de terror. É criador do canal Refúgio Cult no YouTube, que fala principalmente sobre filmes e séries bizarras.

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