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Cherry e a Crise de Opioides nos Estados Unidos

Como o uso desenfreado desses medicamentos desencadeou uma epidemia.

O livro Cherry: Inocência Perdida, de Nico Walker, narra a trajetória de um veterano de guerra que se tornou um assaltante de bancos. O fio condutor entre um momento e o outro foi o vício do personagem em opioides. A história foi amplamente inspirada na biografia do autor, que também fez uso dos medicamentos após a guerra e migrou para heroína. 

LEIA TAMBÉM: A INACREDITÁVEL TRAJETÓRIA DE NICO WALKER, AUTOR DE CHERRY

Apesar de ser uma obra de ficção, Cherry denuncia problemas reais dos Estados Unidos, como a crise de opioides no país, responsável por um crescente número de overdoses e que já ganhou status de epidemia. A trajetória de Nico Walker é apenas uma que se soma a milhares de histórias, que muitas vezes têm um desfecho muito mais trágico.

Tom Holland em Cherry: Inocência Perdida

Por que a Crise de Opioides é pior nos Estados Unidos?

Segundo a série documental Seguindo os Fatos, apurada pela equipe de jornalismo do BuzzFeed, no mundo inteiro 29,5 milhões de pessoas sofrem com algum tipo de vício em drogas. No mesmo documentário apontam que desde o ano 2000 cerca de 500 mil mortes ocorreram por overdose de heroína ou opioides somente nos EUA.

O alerta ficou mais forte em 2015, quando a expectativa de vida no país apresentou queda, na contramão das demais nações desenvolvidas. De acordo com dados do Banco Mundial, de 2014 a 2017 os norte-americanos caíram da idade de 78,8 para 78,5 anos. 

A última vez que isso aconteceu foi há um século, por causa das mortes decorrentes da Primeira Guerra Mundial e da pandemia da gripe espanhola. Desta vez o motivo foi o aumento do número de overdoses e suicídios, ambos ligados ao uso de opioides. A mortalidade causada pelo uso de drogas mais do que triplicou entre 1999 e 2017, quando o motivo está relacionado a overdoses por opioides, o número se tornou seis vezes maior. Para se ter uma ideia, em 2017 mais pessoas morreram de overdose de opioides do que de doenças relacionadas ao vírus HIV quando a epidemia de Aids estava em seu auge.

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: CHERRY: INOCÊNCIA PERDIDA, POR NICO WALKER

O que provocou a epidemia de opioides

O problema com opioides não é de hoje, mas a proporção do cenário atual finalmente está chamando a atenção das autoridades. Desde 1980, nos Estados Unidos, problemas relacionados a dor, em especial dores crônicas, vêm ganhando cada vez mais notoriedade. Em 1995, um grupo de médicos de Chicago liderou uma campanha que defendia o monitoramento da dor da mesma forma que é feito com batimentos cardíacos e pressão arterial.

Antes disso, opioides eram receitados majoritariamente para uso restrito, como em recuperações de cirurgias ou para pessoas com câncer avançado e outras condições terminais. Porém, foram ignorados os indícios sobre a possibilidade de tais medicamentos causarem dependência, e a partir de 1986 eles foram cada vez mais receitados para tratarem dores crônicas, ou seja, seriam tomados de forma recorrente pelos pacientes.

As receitas de opioides se tornaram gradualmente mais comuns entre os anos 1980 e 1990, mas foi pela metade dos anos 1990 que as empresas farmacêuticas apresentaram novas medicações deste tipo, com fórmulas baseadas em oxicodona. Isso fez com que o uso dos opioides crescesse consideravelmente para tratar dores crônicas.

As empresas que produziam estes medicamentos investiram pesadamente em lobby com legisladores, patrocinando cursos de extensão de médicos, angariando fundos para organizações de pacientes e profissionais e enviando representantes para visitar médicos. Em todas estas ocasiões, elas reforçavam a segurança, eficácia e baixo risco de seus medicamentos causarem dependência. O problema é que opioides não são muito eficazes em tratar dores crônicas. Com o uso prolongado destas substâncias, as pessoas podem desenvolver uma tolerância à droga e se tornarem ainda mais sensíveis à dor. 

Além de toda a influência que os médicos recebiam das companhias farmacêuticas, o próprio sistema de saúde nos EUA contribui para a recomendação desmedida de opioides. Pelo fato de muitos médicos atenderem em clínicas particulares, eles podem aumentar seus lucros através do volume de pacientes consultados e da satisfação destes clientes. Receitar opioides também é barato no curto prazo, já que os planos de saúde dos pacientes frequentemente cobrem medicamentos para dor, mas não tratamentos para dor, como por exemplo fisioterapia. 

O agravamento do problema e o alerta para o resto do mundo

Da metade dos anos 1990 até 2010 houve um aumento estável do número de overdoses por opioides. As leis de privacidade de pacientes e a falta de coordenação entre estados permitiu que alguns deles acumulassem receitas e medicamentos e passassem a vender o excedente no mercado clandestino. 

Isso evidenciou o problema da crise de opioides e resultou em medidas restritivas à comercialização destes medicamentos. Ao mesmo tempo em que desencorajou o abuso da substância, a oferta de heroína cresceu, fazendo com que o preço da droga caísse. Com dificuldades de conseguir receitas para os remédios, muitos pacientes migraram para a heroína.

Por volta de 2013, a situação se tornou ainda mais perigosa: os traficantes queriam aumentar seus lucros e passaram a misturar seus produtos com substâncias mais baratas e fentanil. O problema é que, justamente pelo fentanil ser mais potente que a heroína, ele é também mais mortal. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos EUA, entre 2013 e 2016 as mortes por overdose de fentanil e similares aumentaram 88% ao ano.

Um outro problema está no tratamento destes pacientes. Muitos dos protocolos seguidos para reabilitar viciados nessas substâncias consistem em utilizar mais opioides. A taxa de sucesso é insuficiente, o que leva muitas pessoas a buscarem tratamentos alternativos em países como o México, onde a legislação é mais flexível, principalmente no que diz respeito à internação compulsória destes pacientes.

Além do lobby da indústria farmacêutica, a cultura médica dos Estados Unidos facilita o acesso aos medicamentos. Os profissionais europeus, por exemplo, não têm motivação financeira de receitarem remédios, além de terem uma abordagem mais cética a novos estudos, principalmente aqueles financiados por empresas que podem se beneficiar deles. Além disso, a publicidade direcionada ao consumidor final é proibida na Europa, enquanto nos Estados Unidos ela é liberada e leva pacientes a pedirem que seus médicos receitem determinados fármacos.

Conforme o cerco aos opioides se fecha nos Estados Unidos, as empresas que lucram com eles estão buscando mercado em outros lugares, como na Austrália, China, Colômbia, Egito, México, Filipinas, Cingapura, Coreia do Sul, Espanha e até mesmo no Brasil. Mortes relacionadas ao uso de opioides já têm mostrado crescimento em países como Canadá, Inglaterra, Irlanda, Noruega e Suécia.

Em países com renda per capita mais baixa a preocupação é maior. Como os orçamentos destinados à saúde costumam ser insuficientes, estes governos se tornam mais vulneráveis à influência das empresas que lucram com o mercado.

Nico Walker teve a sorte de sua história não ter levado um desfecho mais trágico. Porém, a epidemia de opioides continua a devastar os Estados Unidos e, se o resto do mundo não estiver atento, pode se tornar uma nova pandemia, também com consequências sociais catastróficas e contra a qual a humanidade ainda não dispõe de armas para enfrentar.

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Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

2 Comentários

  • Aline

    1 de março de 2021 às 19:50

    E realmente preculpante asim que puder vou conprar o livro.

    • DarkSide

      2 de março de 2021 às 10:49

      Caveirinha espera que goste da leitura!

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