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Rafael Montoito, escritor e matemático, une a obra de Lewis Carroll aos números

Literatura e Matemática se encontram na trajetória acadêmica deste mestre e doutor.

Já pensou em utilizar a Literatura para ensinar Matemática? Para o acadêmico Rafael Montoito, esta relação está muito mais próxima do que as pessoas costumam pensar. Professor desde que concluiu sua licenciatura em Matemática, a paixão pela leitura fez com que o acadêmico unisse letras e números para além das fórmulas de álgebra.

A união ocorreu casualmente durante a dissertação de mestrado de Montoito, quando ele tinha recém-adquirido os livros Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho. Em suas pesquisas, ele descobriu que o próprio autor dos clássicos, Lewis Carroll, também tinha sido professor e que tinha lecionado sobre tópicos matemáticos.

LEIA TAMBÉM: ALICE, O COELHO BRANCO E A LITERATURA MÁGICA DE LEWIS CARROLL EM TRÊS EDIÇÕES, NA DARKSIDE BOOKS

A imersão na pesquisa durante o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado não apenas despertou a veia de escritor de Rafael Montoito. Ele também passou a perceber que há muito mais padrões matemáticos em outras obras literárias. As possíveis inter-relações entre Matemática e Literatura se tornaram o tema central dos trabalhos acadêmicos do matemático – tanto daqueles desenvolvidos, como pelos orientados por ele.

Em uma conversa ao DarkBlog, ele explicou um pouco melhor como ocorreu este encontro da Matemática com a Literatura, suas pesquisas sobre Lewis Carroll e como esta relação entre letras e números se faz presente em sua vida acadêmica.

DarkSide: Qual a sua formação e profissão atual?

Rafael Montoito: Sou licenciado em Matemática pela Universidade Federal de Pelotas. Sou professor no Instituto Federal da minha cidade, e já trabalhei tanto no ensino médio quanto no superior (Cálculo de várias variáveis e Geometria Analítica são minhas disciplinas favoritas). Atualmente leciono e oriento em cursos de pós-graduação, e por isso tenho circulado bastante entre a Matemática e outras disciplinas da parte de Educação ou da área da Educação Matemática.

D: Há quanto tempo atua nessa área?

RM: Desde 2001, quando me formei. Nunca tive outro trabalho além do de professor. Mesmo durante o mestrado e o doutorado, dividia o tempo das pesquisas com o da sala de aula. Na pós-graduação comecei mais recentemente, em 2016.

D: Sabemos que você tem grande relação com a obra de Carroll, não somente Alice no País das Maravilhas. Como isso aconteceu?

RM: Foi um belo e casual encontro. Quando escolhi meu tema de pesquisa para o mestrado, queria trabalhar com algo próximo à leitura ou literatura, porque ler sempre foi uma atividade constante na minha vida. Talvez, dos prazeres corriqueiros, seja o mais presente na minha vida. Pouco antes de abrir o prazo para a inscrição para a seleção do mestrado, eu havia comprado uma edição comentada de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho e o que Alice encontrou lá, e isso me despertou a ideia de olhar para as histórias pensando em como poderia criar, a partir da narrativa, atividades ou exercícios de Matemática. Meu projeto era sobre isso. Somente depois de aprovado, quando comecei a pesquisar sobre Carroll, é que descobri que ele também tinha tido uma vida de professor acadêmico, que tinha escrito trabalhos sobre tópicos de Matemática e se dedicara a ensinar e a desenvolver questões da Lógica Simbólica e da Geometria Euclidiana.

D: Do que se trata a sua dissertação de mestrado e em que a obra de Carroll foi importante no processo de elaboração dela?

RM: Minha dissertação, defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, foi uma discussão sobre as potencialidades da literatura para o ensino de Matemática, tomando as obras de Carroll como objeto de estudo. Isso foi lá em 2006 e 2007. Acho importante pontuar isso porque, de lá para cá, a quantidade de obras do Carroll que consegui achar e comprar aumentou consideravelmente. Isso significa que minha dissertação pode ser vista como um preâmbulo para o leitor travar conhecimento com a Matemática que há nas obras de Carroll, mas que há bastantes outros elementos a serem estudados do que os que consegui apresentar ali, à época. Minha dissertação tem o diferencial de ter sido escrita de forma romanceada. Isso significa que, tirando a introdução, o enunciado da questão de pesquisa, os objetivos e as conclusões, toda a parte da análise das obras de Carroll foi escrita como uma narrativa. Não fazia sentido, para mim, ler Carroll, que tem uma escrita literária tão particular (por causa do nonsense), e escrever uma dissertação “quadradinha”. Então eu criei quatro personagens que, enquanto interagem entre si, vão comentando os resultados da pesquisa. Posteriormente, este trabalho virou um livro, de nome Chá com Lewis Carroll. Às vezes indico a leitura dele aos meus alunos de mestrado ou doutorado para que percebam que é possível falar de Matemática (e fazer pesquisas em Educação Matemática) de uma maneira mais fluida, que dialogue com a escrita artística, com a Literatura. No fundo, a dissertação acabou dando vazão também à minha veia de escritor independente. Eu já escrevi romances, contos, e agora estou trabalhando num outro livro, então as produções acabam se conectando de algum modo e comunicando formas minhas de ver o mundo, tanto o literário quanto o acadêmico.

D: Posteriormente, você fez pós-doutorado na Inglaterra e analisou um pouco dos diários e correspondências de Carroll. Como foi esse projeto e em que isso acrescentou em seu conhecimento sobre a obra do escritor?

RM: Antes do pós-doutorado preciso falar rapidinho do doutorado, pois foi o trabalho da minha tese que me abriu as portas para esta outra experiência. Quando concluí o mestrado, tinha em mãos um livro do Carroll que me intrigava, mas não tinha tido tempo suficiente para me aprofundar em seu estudo, já que a pesquisa de mestrado tem duração de apenas dois anos e, como complicador, tinha ainda o fato de este livro nunca ter sido publicado em português. A tradução dele do inglês, com quase 400 notas de rodapé, e a escrita de mais dois capítulos de análise compõem a tese que defendi em 2013, na UNESP. A tradução foi publicada – o livro se chama Euclides e seus rivais modernos – e ela foi, de certo modo, passaporte para eu conhecer alguns membros da Lewis Carroll Society da Inglaterra. O contato com essas pessoas e essa tradução foram argumentos que declarei nos campos de justificativas quando me candidatei para ir pesquisar na University of Birmingham. A universidade lá é incrível, mas não tinha, na biblioteca, as coleções publicadas das cartas (dois volumes) e diários de Carroll (nove volumes!). Por sorte, Oxford, cidade em que fica a Chirst Church, onde Carroll morou e lecionou, fica relativamente perto, se considerarmos um passeio de trem. Casualmente também (há muitos bons acasos nessa minha amizade com Carroll), o professor que me orientou lá morava em Oxford e trabalhava em Birmingham, então ele me atendia na universidade e ainda me dava acesso aos materiais de pesquisa na Bodleian, que é uma gigantesca biblioteca de Oxford.

Ler as cartas e os diários de Carroll foi algo incrível, porque parecia que eu estava tendo um diálogo diretamente com ele. Além disso, ele tem uma escrita muito peculiar e divertida, eu sentia tanto prazer em lê-lo que às vezes tinha que retomar o lido para direcionar ao texto meu olhar de pesquisador, e não o de leitor.

D: Como se dá essa inter-relação entre a literatura e a matemática? Poderia explicar um pouco para nós?

RM: Carroll é o responsável, posso dizer assim, por me abrir os olhos para isso. Depois de perceber que, de fato, há um espaço partilhado pela Matemática e pela Literatura, comecei a procurar isso em outros livros, e posso dizer que há em vários, de maneira mais discreta ou mais gritante, com maior ou menor aprofundamento das ideias e conceitos matemáticos: o leitor pode encontrar Matemática em As viagens de Gulliver, Pilares da Terra, A Vida de Pi, Planolândia, A Divina Comédia, O Castelo dos Destinos Cruzados e em tantos outros livros, isso sem falar naqueles que são escritos com o intuito específico de atrair o leitor para a Matemática, como O Estranho Caso do Cachorro Morto e O Teorema do Papagaio. Atualmente, as possíveis inter-relações entre a Matemática e a Literatura são o tema central das minhas pesquisas acadêmicas e da maioria dos trabalhos que oriento na pós-graduação, tanto no que diz respeito a analisar obras quanto a criar histórias ou atividades pedagógicas para o ensino de Matemática, a partir de histórias que já existem.

D: Além de Alice, quais outras produções do escritor você se relaciona e recomenda para os leitores da DarkSide?

RM: Carroll escreveu muita coisa, e infelizmente há pouco em português. Mesmo quando escrevia sobre tópicos de Matemática, dava uma roupagem literária às suas argumentações; também escreveu poemas que, ao que me parece, estão começando a chamar a atenção de alguns tradutores, de modo que espero que cheguem aqui a qualquer momento – “Fantasmagoria” mesmo já foi publicado pela DarkSide. Muitas vezes, ler um panfleto que ele escreveu fazendo críticas à arquitetura da universidade é um prazer literário – inclusive esse é escrito de forma dialogada, como se fossem cenas de uma peça de teatro, eco do seu hábito de frequentador assíduo ao teatro e da sua adoração por Shakespeare. Eu não tiraria nenhum dos seus escritos de uma lista de sugestões de leitura e realmente espero que, mais dia ou menos dia, a obra completa Carroll apareça aqui no Brasil. Profissionalmente tenho me dedicado a isso em minhas pesquisas. Mas há dois outros livros – e, até certo ponto, recuso-me a chamá-los de infantis, tal qual acho que as aventuras de Alice não são necessariamente infantis – que já foram publicados no Brasil, os quais indico com muita alegria e entusiasmo, porém tenho quase certeza que ambos estão esgotados: A Caça ao Turpente (The Hunting of the Snark) e Uma História Embrulhada (A Tangled

Tale). O primeiro é um longo poema nonsense sobre uma tripulação de homens estranhos que saem para caçar um monstrengo desconhecido – preciso dizer que, deste, há edições mais recentes, mas a minha favorita é a de 1984, traduzida por Álvaro A. Antunes, pois ela é a única que conseguiu preservar, na tradução, alguns enigmas matemáticos presentes na edição original. O segundo é um livro com histórias curtas, cada uma delas contendo um problema matemático que o leitor deve resolver – Carroll apresenta as soluções no final do livro, o que pode ser um acréscimo para despertar o interesse do leitor, principalmente dos que já têm alguma predileção pelas ciências exatas.

LEIA TAMBÉM: COMO ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS INFLUENCIOU A CULTURA POP

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Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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2 Comentários

  • Dalva Cruz

    15 de março de 2021 às 22:08

    Que riqueza de informações. Despertando o imediato desejo na leitura. Literatura e matemática, o que melhor para nossos estudantes? Parabéns!

    • DarkSide

      16 de março de 2021 às 10:00

      Uma forma de unir estudo e literatura!

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