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Medo Clássico

Entrevista com Romeu Martins, organizador da antologia Medo Imortal

Jornalista conta ao DarkBlog como foi descobrir obras espetaculares e reunir os autores mais sombrios da literatura brasileira

Quando o jornalista Romeu Martins pensou em abordar o lado gótico e sombrio da literatura brasileira sua ideia ainda era modesta. “Seria apenas uma amostra de dois contos de dez escritores”, conta. Ao oferecer o projeto para a DarkSide Books, o que seria uma amostra, tornou-se a antologia de edição robusta chamada Medo Imortal, publicado pelo selo Medo Clássico, que tem entre seus título cânones da literatura mundial como Frankenstein, de Mary Shelley, e o mestre Edgar Allan Poe

Ao ser lançado, Medo Imortal revelou o lado mais sobrenatural da literatura brasileira. Nos apresentou monstros, descreveu atos de psicopatas e deu testemunho de todo tipo imaginável de atrocidades concebidas pela mente humana. Produzidos entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, os textos representam o que de melhor se escreveu nos primeiros cem anos de produção do terror em nosso país, elaborados por imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL). E também corrige uma injustiça: a publicação dos contos de Júlia Lopes de Almeida, importante nome da literatura brasileira que participou das reuniões para a fundação da ABL, mas na última hora acabou sendo barrada por ser mulher em uma instituição que em seus primeiros oitenta anos só aceitou a presença de homens. Para Martins, “há uma qualidade inegável” na prosa da autora, assim como em muitas outras contemporâneas à ela. 

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Com ilustrações de Lula Palomanes, a lista de autores para o livro contou com a colaboração de estudos realizados pelos maiores pesquisadores do terror e do insólito das principais universidades brasileiras. São ao todo treze autores, escolhidos entre os patronos, fundadores e primeiros eleitos da ABL, que ocupam as páginas da antologia que revelou ao Brasil a Academia Sobrenatural Brasileira de Letras. Liderados por nosso maior escritor, Machado de Assis, intelectuais e escritores da importância como Aluísio de Azevedo, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Coelho Neto, Fagundes Varela, Humberto de Campos, Inglês de Sousa, João do Rio, entre outros, figuram nas páginas da antologia com obras que evocam o sobrenatural de nossas terras brasileiras.

Confira a entrevista com Romeu Martins, o organizador da antologia Medo Imortal, publicado pelo selo Medo Clássico, da DarkSide Books:

Você acredita que “o caráter necessariamente realista da literatura feita no século XIX”, como menciona Linister Esteves em sua tese, possa ter podado o imaginário de grandes escritores da época que poderiam ter explorado esse lado fantástico e imaginativo da literatura de horror muito bem?

Romeu Martins: Acredito, sim. A tese do professor Esteves demonstra como em um primeiro momento todos os principais críticos em atividade no país relegaram a um segundo plano o surgimento da prosa de natureza fantástica no Brasil, pensando principalmente Noite na Taverna de Álvares de Azevedo como um marco zero (não que não existissem exemplos anteriores que poderíamos classificar como tal, mas é preciso um trabalho arqueológico para relembrá-los e não se comparam em termos de influência com a obra do jovem paulista). Até aquele momento, voos mais altos de imaginação pareciam ser aceitos apenas na poesia, com suas evocações a musas e plano aberto a experimentações de estilo. A situação ficou ainda pior depois da proclamação da República, quando virou praticamente política de estado a promoção de uma literatura focada em uma suposta realidade nacional e que cortasse vínculos com a Europa e com nosso passado colonialista. 

E isso não ficou restrito ao século XIX, em pelo menos três quartos do século XX a verdade é que mesmo estudos universitários também não sabiam bem o que dizer a respeito de tais temas. A situação só começou a mudar a partir da década de 1970, quando os trabalhos do filósofo e linguista búlgaro Tzevetan Todorov foi traduzido para o português, trazendo consigo suas conceituações para o Fantástico, o Incrível e o Maravilhoso na literatura. Somente aí nossos pesquisadores puderam trabalhar com um referencial teórico e começamos lentamente a valorizar, por exemplo, alguns contos esquecidos de Machado de Assis. Parece bem claro que, no mínimo, deve ter havido uma perda considerável e irrecuperável de oportunidades de se incentivar aqueles autores visionários a produzir ainda mais em termos de literatura fantástica e a descobrir outros mais que poderiam ter dado contribuições inestimáveis ao acervo nacional. E, sinceramente, não gosto nem de pensar no que podemos simplesmente ter perdido em termos de obras que possam ter sido produzidas na época e que não foram conservadas, não deixaram memória.  

A genialidade de obras naturalistas e realistas é inquestionável. Mas o passado byroniano de nossa literatura também rendeu textos incríveis, como os reunidos em Medo Imortal. Se você pudesse classificar a mais byroniana de todas obras reunidas no livro, qual seria e por quais motivos?

Romeu Martins: Eu acredito que é mesmo Noite na Taverna. A inspiração de Lord Byron era tamanha para Álvares de Azevedo que extrapolava a mera influência literária e chegava mesmo ao modo de vida que nosso conterrâneo escolheu viver, procurando reproduzir a mítica em torno do nobre inglês. E da mesma forma que Byron moldou seus pares na Inglaterra, inspirando diretamente a existência de obras como Frankenstein, de Mary Shelley e O Vampiro, de John Polidori, a publicação póstuma dos textos de Azevedo em 1855 provocou o surgimento de várias histórias que lhe devem tributo. No caso de Medo Imortal, podemos citar a influência dele nos contos publicados na década de 1860 por outro patrono da Academia Brasileira de Letras, Fagundes Varela. Mas ela se estende bem além: para citar um segundo patrono da ABL, temos A Trindade Maldita – Contos no Botequim, de Franklin Távora, de 1863. Mas antes ainda, podemos lembrar de A Confissão de um Moribundo, de Lindorf França, de 1856; O Estudante e os Monges, de Couto de Magalhães, de 1859; o conto Uma Noite no Cemitério, de João Antonio de Barros Jr., de 1861… Só pelos títulos já podemos perceber a influência, não é mesmo? 

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A crítica literária chegou a classificar Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, como uma obra excessivamente erudita e as influências do autor ficam claras ao transcorrer da novela – até mesmo pelos nomes escolhidos para seus personagens. Houve um exagero de erudição ou a crítica, de fato, só admirava o que estivesse dentro do padrão da época?

Romeu Martins: De fato, parece que certo senso de urgência fez Álvares de Azevedo extrapolar as referências, principalmente no conto que abre Noite na Taverna. Dá para medir isso na prática: o texto completo ocupa pouco mais de 10% de Medo Imortal, mas precisamos fazer para ele 44 notas explicativas, bem mais que o dobro do que há nos outros 90% do livro. Posso arriscar que pesou muito nesse aparente excesso a juventude do autor, ele mal contava com vinte anos quando escreveu aquele conjunto de contos e morreu poucos meses depois de finalizar a escrita. Tenho certeza de que não sou o único que se pergunta o que Azevedo produziria aos 30, aos 40, aos 50 anos de idade.

Existe um ensaio muito interessante da pesquisadora Karla Menezes Lopes Niels chamado Profano, Maldito e Marginal: O Conto Fantástico na Literatura Brasileira. Em sua análise, ela lembra que os textos de Álvares de Azevedo, tanto Noite na Taverna quanto o drama Macário, surgiram na mesma época dos primeiros romances de José de Alencar, como O Guarani. Entre a imaginação obscena e sacrílega do primeiro e o realismo edificante do segundo, de fato a crítica fez uma escolha bastante evidente. Para piorar as coisas para a literatura fantástica, a morte precoce de Azevedo deixou essa vertente órfã, sem que seu maior visionário pudesse ao menos tentar falar em defesa de seu legado.

A autora Julia Lopes de Almeida é a única mulher a se juntar ao grupo de imortais da ABL que exploraram o gótico. Ao mesmo tempo em que havia a agressividade de “Os Porcos” também havia a sutileza para produzir obras infantis. Você acredita que durante a época desses grandes escritores havia mais liberdade para escrever para os mais diversos gêneros? E por quê a crítica deu as costas para a produção de horror no país?

Romeu Martins: Entre o grupo de fundadores da ABL, a carioca Júlia Lopes de Almeida sem dúvida era uma figura ímpar. Mas é bom lembrar que havia outras romancistas produzindo literatura que hoje identificamos com o gótico no Brasil, como a catarinense Ana Luíza de Azevedo e Castro, a maranhense Maria Firmina dos Reis e a cearense Emília Freitas. Acredito eu que a impressionante variedade de temas e formatos que Júlia pode se dedicar em mais de três décadas dedicadas à literatura se deveu primeiro à qualidade inegável de sua prosa. Em segundo lugar, arrisco dizer que é o bônus que vem com a independência: se por um lado a vida de escritora na virada do século era, sem dúvida alguma, dificílima e sem garantias, por outro lado a falta de vínculos fortes de emprego, regras contratuais e mesmo a figura de agentes literários permitiram a ela a se dedicar tanto ao pioneirismo na literatura infantil, aos folhetins realistas, à crônica e aos formidáveis contos fantásticos.

Podemos resumir dizendo que o principal culpado foi a falta de um referencial teórico que desse às bases para nossos críticos escreverem suas análises. Não é à toa que faz menos de meio século, desde a tradução de Todorov nos anos 70 do século passado do milênio passado que finalmente vimos surgir uma crítica especializada no Fantástico, antologias agrupando contos do gênero de nossos autores clássicos e mesmo grupos de pesquisa em nossas universidades. 

Em termos de influência, o que os primeiros cem anos de produção da literatura de horror no Brasil nos revelam? Como foi encontrar e compilar obras únicas, de um período riquíssimo da literatura brasileira, que agora estão reunidas nesta antologia?

Romeu Martins: Sem demagogia alguma, tenho que reconhecer que meu mergulho só pôde ser tão profundo graças ao incentivo e ao apoio da Darkside. Quando eu ofereci a ideia ao editor Bruno Dorigatti, no final de 2017, meus planos eram bem mais modestos: seria apenas uma amostra de dois contos de dez escritores. Foi o Dorigatti quem confirmou o interesse da editora para o selo Medo Clássico, o que automaticamente fez o projeto crescer tanto horizontal quanto verticalmente: não haveria mais um limite rígido para o número de contos e ele me pediu para reunir o cabalístico número de treze escritores para o livro.

Graças a isso, pude alargar ainda mais o panorama e reforçar minha certeza de que havia mesmo diversos tesouros malditos a desenterrar em nosso passado fantástico. Medo Imortal é a prova de que nossos maiores e mais consagrados escritores eram pessoas em fase com o espírito da época e não puderam deixar de legar sua contribuição à literatura do medo, que tanto nos atrai. Faltam palavras para eu conseguir descrever a alegria que é ver esse entusiasmo que nasceu daquela ideia compartilhada chegar aos milhares de leitores de nossa antologia, muitos deles descobrindo com nossa antologia que o terror não é um produto exclusivamente de importação. 

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