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Funeral ecológico: Você conhece a compostagem humana?

Ajudando o planeta, mesmo do outro plano

“Para onde vamos quando morremos?” Essa simples pergunta costuma abranger as mais aprofundadas discussões religiosas, filosóficas e espirituais. Mas em um sentido mais prático, você já parou para pensar no que vai acontecer com o seu corpo quando você partir dessa para a melhor (ou pior, a gente nunca sabe)?

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Se você ainda não parou para pensar nisso, Caitlin Doughty é a mulher que pode plantar essa sementinha de reflexão na sua cabeça mortal. A agente funerária mais popular da internet com seu canal Ask a Mortician já possui três livros publicados pela Caveira: Confissões do Crematório, Para Toda a Eternidade e Verdades do Além-Túmulo.

Com uma abordagem mais prática e menos estigmatizada sobre a morte, Doughty conta como é o dia a dia em uma funerária, com todos os detalhes que você não sabia que precisava saber. Ela também já viajou o mundo para conhecer diferentes modalidades de ritos fúnebres e respondeu às mais intrigantes dúvidas de crianças sobre o tema.

Em praticamente todas as suas obras ela menciona em algum momento a possibilidade de enterros verdes que causem menos impacto ao planeta. Em Para Toda a Eternidade ela cava essa cova ainda mais fundo e explica como funciona uma dessas metodologias: a compostagem humana.

para toda a eternidade

Do pó ao pó: O que é um enterro verde?

De modo geral, o enterro verde abrange metodologias de sepultamento com base na simplicidade e na sustentabilidade ambiental. O corpo não é cremado (por causa da emissão de gases tóxicos e pelo alto consumo de energia) e nem embalsamado. Em vez disso, ele é colocado em um caixão ou mortalha biodegradável e enterrado sem uma cova de concreto.

Dessa maneira, o túmulo pode se reintegrar à natureza. O objetivo é completar o processo de decomposição do corpo, permitindo o seu retorno natural ao solo. Se a gente parar pra pensar, isso faz todo o sentido com a clássica frase fúnebre que diz “do pó ao pó”.

Esse tipo de funeral não é novidade, até porque a maioria dos enterros realizados antes da metade do século XIX era conduzida dessa maneira. Muitos funerais judeus e muçulmanos ainda são praticados assim. 

Porém, com um planeta cada vez mais populoso e disputado, até mesmo no espaço dedicado aos mortos, os enterros verdes estão recuperando a sua popularidade, e o motivo para isso são vários:

Simplicidade: a ideia de embrulhar o corpo em uma mortalha ou colocá-lo em um caixão mais simples e sem adornos é atraente para aqueles que preferem um funeral mais simples, natural e sem muitas extravagâncias.

Menor custo: por não envolverem o processo de embalsamamento, ou exigirem caixões suntuosos e valas de concreto, eles se mostram como uma alternativa de ótimo custo-benefício. Se a família fornecer a sua própria mortalha ou caixão, o custo pode ficar ainda menor.

Conservar recursos naturais: você já parou para pensar na quantidade de madeira de lei utilizada para aqueles caixões vistosos? Isso sem contar o aço, cobre e concreto utilizados nesses tipos de cova. O enterro verde emprega bem menos recursos naturais.

Eliminar produtos químicos nocivos: para alguns, o simples fato de evitar o processo de embalsamamento já é suficiente para optar pelo enterro verde, já que os fluidos utilizados nos modelos tradicionais incluem formaldeído, uma substância que irrita as vias aéreas e é conhecida por ser cancerígena. 

Preservar áreas naturais: o amor pela natureza e a vontade de fazer o seu último descanso em uma área verde também atrai muitas pessoas à ideia do enterro verde. Os locais dedicados a essa prática restauram ou preservam uma paisagem natural que costuma possuir árvores nativas, arbustos e flores selvagens, além de abrigar pássaros e outras formas de vida selvagem. 

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Somos todos adubo: Como funciona a compostagem humana

Se você é um cidadão minimamente informado sobre sustentabilidade, provavelmente já se deparou com o termo “compostagem”. Talvez já seja até um adepto da prática. 

Caso essa ideia seja totalmente nova para você, ela resumidamente consiste na valorização dos nutrientes presentes no lixo orgânico para a produção de adubo. É um processo que hoje já pode ser realizado em casa, com o uso de minhocas, uma composteira elétrica ou participando de uma compostagem coletiva, doando os resíduos e recebendo o adubo em troca.

Considerando que nossos corpos são todos formados por matéria orgânica, por que não fazer o mesmo com eles, não é mesmo? Chamada oficialmente de Redução Orgânica Natural — ou NOR, de Natural Organic Reduction — a compostagem humana consiste em colocar o corpo em um recipiente reutilizável, cercado por lascas de madeira, e arejado, permitindo que microrganismos se desenvolvam e participem do processo de decomposição.

No livro Para Toda a Eternidade, Caitlin dedica um capítulo à sua visita à Estação de Pesquisa de Osteologia Forense (Forest), localizada na Carolina do Norte (EUA), e estranhamente apelidada de “fazenda de esqueletos”. Na prática, o local é um “cercadinho de cadáveres nas montanhas da Carolina do Norte”, como a própria autora descreve. 

caitlin doughty

Os corpos enviados para lá são doados da mesma maneira que aqueles voluntariamente cedidos para estudos forenses — o que não deixa de ser um dos objetivos da Forest. Lá, eles podem ser enterrados ou cobertos com lascas de madeira, mistura de alfafa (que libera o hidrogênio mais rapidamente) e água, de maneira bem semelhante à compostagem de resíduos orgânicos. Caitlin narra o processo inteiro do qual ela participou em sua visita. 

A compostagem humana já é legalizada nos Estados Unidos em locais como Colorado, Oregon, Washington, e recentemente foi aprovada na Califórnia uma legislação permitindo a sua aplicação a partir de 2027. 

Se é uma prática tão responsável com o planeta e que, diferentemente dos enterros verdes tradicionais, acelera o processo e economiza espaço, por que ela ainda não é muito popular? Além da própria resistência religiosa à prática, há também a dificuldade de passar por cima da (caríssima) indústria funerária tradicional. Além disso, já pipocam algumas teorias conspiracionistas de que se os cadáveres humanos virasse um “produto” (referindo-se ao adubo), haveria pressão para aplicar eutanásia em mais pessoas e produzir mais adubo. Sim, é isso o que você acabou de ler.

Em diversos momentos de suas obras, a própria Caitlin já manifestou que o dia em que ela seguir o caminho dos clientes que já passaram por sua mesa, ela irá optar por um funeral verde, por considerar essa uma maneira de retribuir à natureza. 

“A terra é sabiamente feita para receber de volta o que criou. Corpos deixados como carniça em espaços cercados e regulados poderiam ser a resposta para problemas ambientais de enterros e cremações. Não há limites para onde nosso envolvimento com a morte pode nos levar.”

Caitlin Doughty

LEIA TAMBÉM: CAITLIN DOUGHTY: “MORTE É CIÊNCIA E HISTÓRIA, ARTE E LITERATURA”

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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