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Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos, 1922

Que diabo de filme é esse?

Uma das figuras mais emblemáticas do Halloween, dos filmes de terror e da literatura macabra são as bruxas. Personagens que diferentemente da grande maioria dos ícones do horror, possuem uma importância histórica, cultural e real, muitas vezes deturpada pela sociedade, em nome de criar mais um arquétipo de vilão que merecia todas as alcunhas negativas, perseguição e medo. Quanto mais revisitamos a história, avaliamos os contextos e estudamos as narrativas, mais entendemos que muito pouco se sabe sobre a real essência das bruxas. 

Bruxa Má do Oeste – O Mágico de Oz

Para entender mais sobre a natureza da bruxaria, sua origem, relevância e claro, sua caça, a DarkSide® Books lançou em 2021 o “Grimório das Bruxas”, em duas edições completas sobre a temática: a “Moon Edition” e a “Witchcraft Edition”. Na obra, o historiador Ronald Hutton disseca todo esse contexto cultural, simbologias, superstições e a tão conhecida caça às bruxas na Europa do século XV. E como, claramente movidos pela ignorância e ganância, lideranças da época ordenaram o sacrifício brutal e covarde de inúmeras pessoas inocentes. 

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: GRIMÓRIO DAS BRUXAS, POR RONALD HUTTON

Na obra fundamental de Hutton, somos guiados por uma viagem que passa por diferentes regiões do planeta, indo desde a África, a Ásia, até as Américas do Sul e do Norte, além de tantos outros lugares que elevam a importância não só geográfica do tema, como sua abrangência antropológica e sua enorme influência em crenças da atualidade. No mais recente lançamento, “Grimório Oculto” do autor John Michael Greer, também publicado pela DarkSide® Books, temos a intensificação desse passeio histórico pelas bases do misticismo, trazendo à pauta figuras emblemáticas do meio, como Aleister Crowley, e traçando o caminho pela feitiçaria moderna. 

LEIA TAMBÉM: LANÇAMENTO: GRIMÓRIO OCULTO, DE JOHN MICHAEL GREER

Ao desbravarem ambos os Grimórios, os amantes do cinema antigo, inevitavelmente irão se lembrar do clássico “Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos”, produção sueca-dinamarquesa, dirigida por Benjamin Christensen e lançada em 1922. Se é possível fazermos um “trocadilho” com o subtítulo da obra aqui no Brasil, “Häxan” é também, um filme à frente do seu tempo. Se ainda hoje a bruxaria é tratada como um enorme tabu, há cem anos o documentário do cineasta dinamarquês enfrentou severas críticas e boicotes, ao estudar e revelar sem papas em sua linguagem, como grande parte da caça às bruxas aconteceu na Europa, durante o período medieval. 

Créditos: San Francisco Silent Film Festival

Para conseguir com clareza, retratar o que aconteceu nos séculos anteriores há produção, Christensen recriou cenas a partir da dramatização com atores, de maneira meticulosamente detalhista. Nas sequências, o filme segue duas linhas: como o imaginário dos inquisidores enxergava as chamadas “bruxas”, e como a perseguição e punição de pessoas aconteciam. Na primeira narrativa, temos cenas com “demônios” feitos através de maquiagens assustadoras (um deles inclusive, interpretado pelo próprio diretor do filme), em rituais pagãos com danças macabras, sacrifícios e ambientações claustrofóbicas. Não à toa, por conta desses segmentos, o filme é até hoje considerado uma produção de terror, constando muitas vezes, como uma das obras mais perturbadoras já criadas para o cinema. 

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Na segunda linha, retratando como a Inquisição funcionava, Häxan bota o pé no chão, trabalha com o realismo e destaca como doenças psicológicas eram tratadas de forma excessivamente prematura, como mera bruxaria. Durante essas retratações, para muitos, o filme pode se tornar ainda mais assustador, do que quando mostra um diabo com língua para fora seduzindo jovens para seu lado. Afinal, naquela época, bastava uma mulher ser sonâmbula e caminhar pela casa durante a madrugada, para ser considerada uma bruxa sendo usada como fantoche pelo diabo. A punição dessa mulher era a humilhação seguida pela morte. 

LEIA TAMBÉM: POR QUE AS BRUXAS FORAM DEMONIZADAS AO LONGO DA HISTÓRIA?

Créditos: Janus Films

As bruxas e toda sua mitologia, nos ensinam muito mais do que a magia e o encanto pelo desconhecido. Elas nos refletem como a história pode ser implacável e como um conto mal contado pode custar vidas e uma mentira se tornar verdade, muitas vezes por centenas de anos, ou até mesmo para eternidade. O que desafia a compreensão e a capacidade dos poderosos da nossa sociedade, é frequentemente combatido pela convocação de uma só palavra: a bruxaria. A partir disso, muito do que poderiam ser avanços, acabam anulados pela mais latente “ignorância”, palavra essa que talvez seja a verdadeira vilã de toda essa história.

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Sobre Lucas Maia

Avatar photoLucas Maia é jornalista e pesquisador do gênero de terror. É criador do canal Refúgio Cult no YouTube, que fala principalmente sobre filmes e séries bizarras.

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