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Crime SceneQue diabo de filme é esse?

Nó na Garganta, 1997

Que diabo de filme é esse?

O medo transforma as pessoas. Quando vivemos em um ambiente rodeado pelo caos, por ameaças constantes, com um sentimento de que a vida está sempre por um triz, nos moldamos conforme nosso instinto de sobrevivência. No caso de uma criança aos doze anos, vivendo em uma família disfuncional e propensa a desenvolver neuroses, o medo se transforma em uma anomalia incontrolável, em comportamentos violentos e capaz de quebrar os filtros da sensatez humana que nos fazem viver em sociedade. 

Essa é a história de “Francie” Brady, retratada de maneira crua e sarcástica no filme de 1997 “The Butcher Boy”, ou Nó na Garganta, adaptação da obra de Patrick McCabe, lançada pela DarkSide® Books. O grande mérito na produção do cineasta Neil Jordan, é equilibrar o tom de humor ácido e sombrio contido na obra original de McCabe. Afinal, estamos falando de um conto que flerta com a realidade o tempo todo, e de uma criança, que apesar dos pesares, não deixa de lado a inocência e a vontade de vivenciar essa fase como qualquer outro garoto comum. 

LEIA TAMBÉM: NÓ NA GARGANTA: 8 CURIOSIDADES SOBRE O FILME DE BUTCHER BOY

Fonte: Film Affinity

Ao mesmo tempo que nos divertimos com a relação da amizade entre Francie e seu melhor amigo Joe, com suas brincadeiras sobre gangsters, monstros e cowboys, também somos mergulhados na escuridão da família do protagonista, que aos poucos se desmantela de forma trágica. Assim também ocorre com o psicológico do personagem, que assume o caos cada vez mais, tem suas poucas relações de afeto anuladas e, consecutivamente, o pouco de seu conforto destruído. É como se presenciássemos, um simples e jovem relógio de pulso se transformar em uma bomba relógio prestes a explodir. 

No filme, a atuação do jovem Eamonn Owens entrega de forma eficaz e complexa as camadas internas e externas de Francie. Seja pelo seu lado imponente e feroz, mesmo com aquela idade, ou pela esporádica ternura em momentos bastante pontuais. É o tipo de indivíduo em uma história que se ama e se odeia ao mesmo tempo. Mas com apenas um pouco de sensibilidade, é possível sentirmos a tristeza de como uma infância negligenciada pode trazer consequências futuras negativamente incalculáveis. Assim como também reconhecemos que, depois que uma certa linha é ultrapassada, a inocência dá lugar à mais pura violência. O brilho da infância sucumbe de vez e dá lugar à sombra daquele medo que toma conta.

Fonte: Film Affinity

Chega a ser irônico como o filme da década de noventa possui de uma certa distância tanto uma ambientação, elenco, trilha e alguns personagens dignos de obras da “sessão da tarde”. E somente com o texto ácido e maduro de McCabe é que temos o diferencial entre tantas outras obras. E talvez seja por isso, que essa história pegue tanta gente desprevenida. “Butcher Boy” nos faz lembrar como na mesma vida temos coisas tão sutis e singelas, como também as coisas que nos adoecem ou que fazem despertar o pior que existe em nós. Quando dizem que a vida é curta, deve ser porque um dia estamos brincando de pique-esconde, assim como Francie, e no outro, estamos nos escondendo dos nossos próprios “demônios”. Sobrevivendo, um dia de cada vez.

LEIA TAMBÉM: BUTCHER BOY – INFÂNCIA SANGRENTA, POR PATRICK MCCABE

Fonte: Film Affinity

Butcher Boy na DarkSide® Books

Patrick McCabe entende a importância de dar voz aos excluídos, como o seu protagonista. Narrado em primeira pessoa pelo próprio Francie, o romance é um retrato panorâmico da vida, dos pensamentos e dos atos desse menino. Desprovido de empatia, mas não de humor, o fluxo de pensamentos de Francie guia o leitor pela Irlanda dos anos 1960, costurando passado e presente em uma trama que se constrói junto da personalidade do seu narrador.

Com poderosa reconstrução de época, aliadas a uma prosa que emula o sotaque do personagem, BUTCHER BOY é um livro pungente, sangrento, divertido e aterrador. Ele nos lembra que os sonhos de infância também podem ser pesadelos aterrorizantes. Como sabemos, os verdadeiros demônios moram dentro de nós. 

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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1 Comentário

  • Regina Celia Bastos

    28 de outubro de 2021 às 02:46

    Gostei muito do seu artigo, Lucas.
    Assisti ao filme faz muito tempo e gostei demais!
    Agora quero ler o livro!

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