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EntrevistaGraphic Novel

O Fim da Noite: Autores falam sobre as batalhas estampadas na HQ

Confira a entrevista exclusiva de Rafael Calça e Diox

03/02/2023

“Foram as mulheres pretas que, devido à permissão de circular entre a casa-grande, a senzala e as ruas, possibilitaram o trânsito de ideias e informações que se mostrou fundamental para a sobrevivência do nosso povo, pois foi a partir dessas mulheres que fugas foram planejadas e os quilombos foram sendo constituídos.”

A declaração de Diox no posfácio de O Fim da Noite deixa evidente a importância de contar as histórias narradas na HQ. Com um roteiro repleto de verdades trazidas pelo autor Rafael Calça e ilustradas por Diox, a dupla conta um pouco da jornada, repleta de batalhas, dores e resiliência, vivida pelas mulheres de suas famílias — mas que encontram eco em tantas vidas negras do nosso país.

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Rafael e Diox contam com a sensibilidade e a esperança para falar de uma realidade ainda muito desumana e presente na nossa sociedade: o racismo estrutural. A HQ foi a vencedora do 1º Prêmio Machado DarkSide e agora foi publicada pelo selo Graphic Novel da Caveira.

Em uma conversa exclusiva com o DarkBlog, os dois compartilham as inspirações, a repercussão e as verdades que gritam nas páginas de um quadrinho cativante e necessário. Confira a entrevista:

DarkSide: O Fim da Noite foi inspirada nas histórias das mulheres das famílias de vocês dois. Elas e outras familiares tiveram a oportunidade de ler a HQ? Como foi a recepção da história entre elas e com o público em geral?

Rafael Calça: Na minha família, meus tios, inclusive Silvia, que inspirou a personagem Rute, se emocionaram, lembrando de histórias reais que estão ali. Há uma certa melancolia por certas vivências, mas também orgulho por estarem na HQ, para serem lidas e valorizadas pelas pessoas. Quanto ao público, a recepção está sendo ótima, principalmente entre mulheres negras, que compreendem mais que ninguém a jornada dessas três personagens. 

Diox: No geral, o público e a crítica especializada têm gostado bastante. Eu fico feliz quando uma pessoa, que não é da “bolha” dos quadrinhos, chega até a gente e diz que gostou da HQ. No Brasil, a ideia que eu tenho é a de que as pessoas, ainda hoje, associam quadrinhos com algo infantil.

o fim da noite

D: De que maneira essa história em comum nas famílias de vocês contribuiu com o desenvolvimento da graphic novel?

Diox: Eu acredito que o recorte de cor e classe ajudou bastante na construção do quadrinho. Quando eu recebi o roteiro e terminei de ler, parecia que o Rafa tava falando da minha família. Tudo era muito próximo. A luta daquelas mulheres era muito familiar pra mim e me fez pensar nas histórias de luta das minhas avós, tias e da minha mãe também. Por conta disso, eu senti uma responsabilidade gigante ao representar as histórias dessas mulheres.

Rafael: Como a história fala de situações comuns em famílias negras, Diox e eu nem precisamos alinhar pontos de vista, era algo real a ser contado. Aurora é baseada na minha avó, mas é a história de inúmeras mulheres negras brasileiras. Diox já conhecia essas personagens, mas para ele tinham outros nomes, nomes de pessoas preciosas para ele. 

D: Diox, em outra entrevista ao DarkBlog você comentou que a ideia original era adotar uma linha clara com sombreamento posterior em aquarela. De que maneira a escolha pelas hachuras ajudou a compor a atmosfera de O Fim da Noite?

Diox: As duas técnicas são bem ricas, mas por uma questão de tempo eu optei pelas hachuras, que, apesar de ser uma técnica bem trabalhosa, estou mais familiarizado. Antes de começar um trabalho, quando eu posso, sempre escolho uma técnica que seja mais confortável, porque desenhar uma história em quadrinhos demanda muito trabalho. A gente tem que manter o mesmo ritmo do início ao fim. Bom, resumindo: quando as cenas eram mais calmas, eu usava menos hachuras, mas quando as cenas eram mais dramáticas, eu carregava mais nas linhas. Algumas vezes, chegava a preencher áreas inteiras de preto. Foi pensando desse jeito que eu criei a atmosfera da nossa HQ. Agora,  lembrei que, nos primeiros estudos, cheguei a fazer alguns desenhos onde misturo hachuras e aquarela. Segue o resultado:

D: Rafael, você possui vários trabalhos com a Turma da Mônica, principalmente com os personagens Jeremias e Milena. Qual a importância de dar cada vez mais espaço para personagens negros em universos tão populares entre o público infantil?

Rafael: Protagonismo negro precisa existir em formatos acessíveis, em plataformas mainstream, assim chegam nas pessoas de forma mais fácil, e constroem um imaginário diferente do que foi espalhado por tantas décadas. Sem estereótipos, sem limitações do que uma pessoa pode ser. Sem criar noções equivocadas de “eles são diferentes de nós, por isso inferiores”. Ser culturalmente diferente é ótimo, mas ser relegado à subserviência (e essa atitude corroborada na cultura, como livros, HQs, novelas etc.) precisa ser visto como o absurdo que é.  

D: Vocês dois são leitores de quadrinhos desde jovens. Nessa trajetória de leitores a autores de HQs, quais são as principais influências que vocês carregam consigo e que foram fundamentais para O Fim da Noite? 

Rafael: Quando se trata de quadrinhos, sempre cito Sandman. Na adolescência, me fez perceber que HQ poderia falar de temas diversos de uma vez, um caldeirão com emoções, mitologias diferentes e fatos históricos. E com muito diálogo bem escrito. Achei inspirador. Fora edições específicas de quadrinhos de super-heróis, que tratem da humanidade desses semideuses, que mostrem seus medos e dores. Mas o cinema e a TV também me fizeram pensar em como me comunicar. Spike Lee, Michaela Coel, Barry Jenkins, uns episódios de Um Maluco no Pedaço, de Superchoque, de Todo Mundo Odeia o Chris, existem elementos que ecoaram em mim ao longo dos anos. 

Diox: Eu aprendi muita coisa trabalhando como ilustrador em diversas áreas,  também sou formado em Artes Plásticas e toda essa bagagem me deu um grande repertório pra fazer quadrinhos. Agora, dos quadrinistas que me influenciaram,  consigo pensar no Alex Tooth e também gosto do desenho gestual do Eisner, além de Jack Kirby, que é um monstro. Cito ainda os irmãos Hernandez (Love and Rockets) e David Mazzucchelli, é impressionante o seu domínio da parte narrativa. Mas, hoje em dia, dois caras que fazem a minha cabeça são o Gipi (A Terra dos Filhos) e Jorge González (Dear Patagonia). Acho que é isso. Eu nunca consigo responder essa pergunta direito, rs.

D: Na HQ há algumas passagens em sala de aula, tanto do ponto de vista de uma estudante como do ponto de vista de uma professora. Como o ambiente escolar pode melhorar o debate em torno da (in)visibilidade negra?

Rafael: Primeiro que deveriam seguir a lei  Lei 10.639 e o que ela determina sobre o ensino da História afro-brasileira (também existe a Lei 11.645, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura indígena). Mas a Base Nacional Comum Curricular não faz muito esforço em falar de negritude de forma a valorizá-la e a sua influência, sua importância para a construção de um Brasil, mesmo que de forma forçada. Seguir essa lei seria colocar o povo preto além da escravização, que não resume em absoluto a história do povo mais antigo do mundo. Mas rechaçar a escravidão com todas as letras também faz falta. Para que novas gerações não a relativizem nem romantizem o período colonial. Para que, como sociedade, entendamos que muito do que enxergamos de injusto hoje vem de não analisarmos o passado. Devemos sentir vergonha do passado sem tentar escondê-lo. E celebrar todas as conquistas e descobertas que surgiram primeiro na África, e compartilhadas com o mundo sem esperar nada em troca. 

Diox: Penso que o ambiente escolar, educacional, é um espaço muito importante de disputa e de combate ao racismo estrutural. Podemos começar discutindo o nosso currículo escolar, onde a cultura e a identidade negra nunca foram devidamente valorizadas em sala de aula. O nosso passado sempre nos foi negado e tratado de forma preconceituosa e estigmatizada. Somos quase 60% da população, aprendemos muito mais sobre os nossos colonizadores e quase nada sobre nossos ancestrais. No imaginário de muita gente a África é um país, só pra gente ter uma ideia do tamanho do problema. Eu acredito que uma escola mais humana e acolhedora passa, também, pelo senso de representatividade, pertencimento e autoestima do povo preto. A gente nunca vai chegar nesse lugar sem que o nosso povo conheça a sua história. 

D: A passagem do tempo em O Fim da Noite ocorre de maneira bem rápida, focando em determinados acontecimentos das vidas dessas mulheres. Ao mesmo tempo em que isso poderia intensificar o contraste geracional de como o racismo se manifesta, a rapidez da narrativa mostra o quanto ainda não mudou ao longo das décadas. Na visão de vocês, o que de fato mudou desde a infância de Aurora até os dias de hoje? E o que já deveria ter mudado?

Diox: Pra mim, fica claro que coletivamente avançamos muito pouco ainda. Apesar de toda a onda progressista, crianças pretas ainda morrem de bala perdida, ainda sofremos com a violência policial, normalmente recebemos salários inferiores, sofremos com desemprego e o encarceramento em massa. Se fizermos um recorte de gênero, a coisa complica mais ainda. A comunidade preta foi a que teve mais baixas durante o auge da pandemia de covid-19. Eu acredito que só com muita luta, conscientização e organização a gente vai conseguir mudar esse triste cenário. 

Rafael: É impressionante como pouco mudou. Nas grandes capitais parece ser diferente, as pessoas negras estão mais vocais, lutando por direitos e deixando evidente que certas atitudes, pensamentos e falas serão combatidos até que se extingam. Mas no interior do Brasil ainda estamos um século atrasados em pensamento, enxergam o colonialismo como algo bonito, turístico até, com imagens de mucamas felizes em fachadas de restaurantes e hotéis. Estamos no meio do caminho ainda, há muito trabalho a ser feito.

o fim da noite

D: O conceito de racismo estrutural ainda soa bastante abstrato, principalmente por quem não sofre com ele. Algumas pessoas não se consideram racistas, mas perpetuam o racismo estrutural — e a HQ faz um ótimo trabalho em apontar algumas situações em que ele ocorre. Como as pessoas podem, de fato, combater o racismo estrutural, que parece tão sorrateiro, mas que insiste em deixar essa ferida aberta?

Rafael: Acho que, de início, podem parar de dizer que não são racistas. Poxa, crescemos escutando coisas terrivelmente racistas, rindo de piadas racistas, mesmo nas relações com pessoas negras as tratando como hierarquicamente inferiores, e só por nunca ter xingado e agredido um negro a pessoa está aparte de uma estrutura de sociedade? Fazemos parte desse contexto, que é racista culturalmente. Uma sociedade moderna estabelecida com quase quatro séculos de tráfico humano e escravização é o que ela é, e cada um de nós faz parte disso. Então chega de se sentir moralmente superior e comece a repensar, sim, as coisas que sempre ouviu e disse. Terá sim que parar de falar certos termos, terá sim que repensar seu núcleo social, de emprego, o elenco dos filmes favoritos, a etnia dos personagens favoritos de quadrinhos. A menos que escolha de forma consciente não se importar com outros seres humanos. Se esse for o caso, não seja hipócrita e diga abertamente, sem rede social fake, que nada além de si mesmo importa.

Diox: É aquela velha história, não é? No Brasil todo mundo conhece um racista, mas ninguém se reconhece como tal. (Isso vale pro machismo e para a homofobia também.) As pessoas brancas precisam  se entender como parte do problema e desse projeto que é o racismo estrutural. Nesse sentido, tenho percebido um certo avanço. Muitas pessoas estão tendo uma postura antirracista. Eu acredito que uma das maneiras de diminuir o racismo é com uma sociedade mais igualitária, com menos desigualdade social. 

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D: Apesar de abordar uma realidade ainda tão injusta e cruel com as mulheres negras, O Fim da Noite tem uma forte mensagem de resiliência e esperança — até mesmo pela escolha do nome da personagem Vitória. Na visão de vocês, quando essa vitória finalmente irá se concretizar?

Diox: Vai demorar, tenho consciência de que não vou desfrutar desses dias. Mas já me serve de alento saber que estamos lutando por um futuro melhor para as próximas gerações. Desculpe o tom meio pessimista, mas a meu ver, atravessamos um momento muito complicado na história da humanidade, com a ascensão (novamente) da extrema direita no mundo. Precisamos ficar atentos, são tempos de cautela.

Rafael: Acredito que essa vitória irá chegar, que está mais perto do que jamais vimos. E, como visto nos últimos anos, não será sem luta, sem embate. Há influenciador defendendo a existência de partido nazista no Brasil, político abertamente usando slogans integralistas e facilitando violência contra indígenas e quilombolas. Lei de ensino de história afro-brasileira sendo desrespeitada, demonização estúpida e ignorante do Candomblé e da Umbanda, rejeição ao estudo, ao respeito. É preciso enfrentar com veemência pensamentos tão perigosos em seus preconceitos, sem retroceder nunca mais, e isso dá trabalho, leva tempo. Deveria ser independente de governos e partidos, deveria ser um pacto social por igualdade, mas não é assim. A direita quer nos matar abertamente, e precisa ser muito burro ou mau caráter para dizer que isso é mentira. Uma sociedade livre do racismo, essa seria nossa vitória, e sei que não verei isso em vida. Mas tudo bem, porque quando chegar será algo impressionante. 

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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