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Os Bons Companheiros: Por dentro da mente de Martin Scorsese

Diretor explica o processo de produção e a mensagem de um dos maiores filmes de máfia de todos os tempos.

Quando Martin Scorsese leu uma crítica do livro Wiseguy, de Nicholas Pileggi, ele teve uma visão quanto ao potencial da história, antes mesmo de ler o livro. Mas o diretor de cinema provavelmente não imaginava que este seria o início de uma das produções sobre máfia mais aclamadas de todos os tempos.

Completando 30 anos desde o seu lançamento, Os Bons Companheiros se mantém uma obra interessante para se assistir nos dias atuais. Desconsiderando a qualidade de imagem e som dos equipamentos disponíveis na época, o filme envelheceu muito bem, obrigado. Assisti-lo na década de 1990 ou nos dias atuais é desfrutar de uma ousada aula de cinema, que mistura drama com documentário.

Quando Scorsese leu o livro que conta a história de grupos de gângsters do ponto de vista de um deles, Henry Hill, interpretado por Ray Liotta, ele sabia que o filme precisaria manter o tom da sua principal fonte: com narrativa livre e de uma “maravilhosa arrogância”, como o próprio diretor define. “Seria um filme fascinante se você o fizesse do jeito que ele é: literalmente o mais próximo da realidade que um filme de ficção poderia chegar. Não há necessidade de cultivar uma grande empatia pelos personagens de forma falsa”, declarou Scorsese em uma entrevista à Film Comment em 1990.

LEIA TAMBÉM: QUEM FOI HENRY HILL, O MAFIOSO QUE INSPIROU O LIVRO DE OS BONS COMPANHEIROS

Ao ponderar sobre Os Bons Companheiros como um meio termo entre ficção e documentário, o diretor define a produção como um “documentário encenado”, o que hoje conhecemos como “docudrama”, porém, com um pouco mais de compromisso com os fatos. “Se você tivesse uma câmera de 16mm com estes caras por 20, 25 anos, este é o resultado que você teria”. Para ele, a pessoalidade com que a história é narrada é um dos fatores que dá esta proximidade de drama e realidade.

A psicologia de Os Bons Companheiros e o estilo de vida da máfia

O interesse primordial de Scorsese pela história e sua preocupação ao produzir o filme é o de retratar com o máximo de fidelidade o estilo de vida da máfia – não apenas nas aparências, com os clichês já tão incansavelmente explorados pelo cinema, mas em entrar na mente de personagens que não sabiam viver de outra forma. “Eu estava interessado no que eles faziam. E, você sabe, eles não pensam muito nisso”. A proposta do diretor era retratar as ações e intenções dos personagens da forma mais prática e primitiva possível. “Eu estou mais preocupado em mostrar um estilo de vida e usar Henry Hill (Ray Liotta) como um guia”.

Apesar de ser tão fidedigno à história real, Martin Scorsese ainda enxerga o filme como uma tragédia. O próprio ritmo do longa dita esta dinâmica: de um garoto que admirava os mafiosos e até encarava um deles como um segundo pai, passando por uma vida de certo glamour, respeito e dinheiro fácil, e adotando uma postura totalmente diferente na segunda metade, passando pela prisão, o abuso de drogas, a paranoia dos próprios colegas e um futuro cujas únicas opções são morrer ou se esconder.

A tragédia não é ditada apenas pelos corpos que se acumulam pelo caminho ou pela queda de prestígio de Henry ao longo da história. Trata-se de uma derrota pessoal para o personagem. Enquanto adolescente ele conquistou o seu espaço e o seu respeito pela sua habilidade em manter segredos. No entanto, as circunstâncias o forçaram a se tornar um dedo-duro, algo tão doloroso para ele quanto o medo de ser assassinado.

A contribuição de Henry Hill para o filme

Este sentimento de culpa vem muito mais de uma construção de personagem do que do verdadeiro sentimento de Hill à época. Apesar de ter sido crucial para a produção de Os Bons Companheiros, Henry Hill estava no programa de proteção de testemunhas durante as filmagens e, portanto, só pode contribuir à distância.

Conforme explica o próprio Scorsese, a construção do personagem de Ray Liotta foi baseada nos relatos de Henry para o livro e no testemunho do próprio Nicholas Pileggi. “Eu nunca falei com Henry Hill. Ao fim da produção do filme eu falei com ele uma vez ao telefone. Ele me agradeceu por algo. Foi uma ligação de menos de 30 segundos”, declara o diretor.

Ainda assim, a contribuição do gângster foi crucial para dar uma cara tão documental ao filme. Além de tudo o que ele já havia dito a Nicholas Pileggi, que assinou o roteiro, Hill assessorava os atores, descrevendo como seus personagens se comportavam de verdade, com trejeitos, sotaque, vocabulário e até a própria postura. 

Para Martin Scorsese, o Henry Hill do filme não é apenas um guia para o estilo de vida dos mafiosos, mas um verdadeiro retrato da sociedade dos Estados Unidos naquela época. Na década de 1960 o personagem veste ternos de seda, é jovem e é a cara da esperança, a cara de alguém que vai conquistar o mundo. A jornada de Hill acompanha o sentimento do país ao longo da década, passando pelas loucuras e excessos dos anos 1970 até culminar nos tenebrosos anos 1980, com um sentimento de desilusão, de que as coisas não ocorreram de acordo com o planejado.

Em essência, Scorsese enxerga as ambições de Henry Hill como algo muito mais simples do que as pessoas compreendem: “Há algo no sentimento dele através da narração do começo do filme sobre ser respeitado. Eu realmente acredito que é mais sobre o Henry não ter que esperar na fila para buscar pão para a mãe dele. É assim simples. E por ter a confiança de gente tão poderosa, que, na cabeça de uma criança, nem precisaria se preocupar em estacionar ao lado de um hidrante. Este é o sonho americano”.

Idealização e a dura realidade dos mafiosos

A primeira metade de Os Bons Companheiros foca na ascensão de Henry a um estilo de vida que pode ser chamado de idealizado, como se houvesse uma romantização da máfia. No entanto, tanta bonança vem acompanhada de uma verdade inconveniente velada, da qual ninguém falava, mas que todos sabiam: você provavelmente terá que sair desta vida de uma forma não natural, seja pela prisão ou por um tiro na cabeça.

Para o diretor, não há uma linha muito clara entre os “anos dourados” e a decadência dos personagens: “Há uma quebra na disciplina em quaisquer códigos morais que aqueles caras seguiam nos anos 1950 e 1960”. Ele cita isso relacionando com os atuais problemas com tráfico de drogas, que o próprio filme mostra como um tabu entre os mafiosos mais tradicionais e os mais novos. “Eles sempre estarão por perto, sempre haverá a ideia do crime organizado. Mas aquela imagem quase romanceada da máfia explorada pela franquia de O Poderoso Chefão, bom, isso já acabou”.

O próprio personagem de Henry Hill demonstra os perigos de adotar este estilo de vida. Ele teve seu ápice, mais ou menos oito ou nove anos antes de sair da máfia, e depois entrou em um ciclo de entrar e sair da cadeia, o que desgasta a relação com seus colegas e começa a colocar um alvo em sua cabeça. Ele entende que é preciso sair, o problema é como fazer isso sem comprometer a sua vida ou a da sua família.

O próprio Scorsese espera que o público se revolte com o sentimento de Henry ao final do filme, muito mais de tédio do que de arrependimento. Mas, mais do que isso, as pessoas devem se revoltar com um sistema que permite e que alimenta este estilo de vida. A ironia do final do filme só não é mais divertida porque reflete pontualmente uma realidade que ainda se repete com assustadora proximidade nos dias atuais.

LEIA TAMBÉM: POR QUE CABO DO MEDO, DE MARTIN SCORSESE, ESTÁ ENTRE OS MELHORES THRILLERS DA DÉCADA DE 90

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