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Psicopata Americano: Uma reflexão para os dias atuais

Como o personagem de Patrick Bateman representa a toxicidade ainda admirada nos dias de hoje.

À primeira vista, assistir a Psicopata Americano pode parecer uma excursão ao túnel do tempo: os power suits dos anos 1980, os CDs tão populares dos anos 1990 e até todo aquele clima dos lobos de Wall Street parece pertencer a uma realidade há muito tempo superada. No entanto, há um ponto fundamental da história que nunca esteve tão atual, mesmo após duas décadas: o protagonista Patrick Bateman.

Mesmo com toda a evolução da sociedade nos últimos 20 anos em relação ao feminismo, ao identificar masculinidade tóxica e ao questionar os valores do capitalismo, Bateman ainda se posiciona como uma espécie de modelo a ser seguido, apesar de todas as suas falhas. Basta observar um pouco as lideranças políticas eleitas recentemente em alguns países para associar muitas das características do personagem. É como se ele fosse o “candidato ideal” nos dias de hoje, embora Patrick Bateman provavelmente não tenha qualquer interesse neste sentido.

Esta semelhança existe porque 20 anos, ou 30, no caso do livro, ainda representam um período muito curto para mudar alguns valores há tanto tempo difundidos na sociedade, como a suposta superioridade masculina e a corrida por posses e status que o capitalismo impõe. Ao satirizar estes valores que parecem tão datados, o filme de Mary Harron e o livro de Bret Easton Ellis, publicado no Brasil pela DarkSide®, permanecem atemporais.

LEIA TAMBÉM: DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS ENTRE LIVROS E FILMES

Misoginia e masculinidade tóxica

Uma rápida varrida nos noticiários deixa claro que há ainda muitos homens perigosos entre nós: em relacionamentos abusivos com suas parceiras, casos de feminicídio e até mesmo homicídios em banais brigas de vizinhos ou no trânsito. Mas afinal, de onde vem tanta raiva e tanta confiança para cometer tais barbaridades?

Segundo o professor de sociologia Michael Kimmel, autor do livro Angry White Men, o conceito de “homem de verdade” deixa os caras que acreditam neste ideal num estado constante de frustração quando suas expectativas de poder e dominância não se realizam. Mais ou menos como o ataque de Patrick Bateman quando o rival dele consegue reservar uma mesa num restaurante extremamente seleto. 

E esse direcionamento cego de frustração e raiva se mantém atual. Em uma pesquisa recente com mil homens entre 18 e 30 anos feita nos Estados Unidos, Reino Unido e México, foi identificado que aqueles criados em meio a clichês de masculinidade têm maior probabilidade de perpetuar bullying, adotar padrões de comportamento de risco como o alcoolismo e sofrer de depressão. Ou seja: a masculinidade tóxica é ruim para os homens também, não só para as mulheres.

Homens como Patrick Bateman representam tudo o que a ideia de “homem de verdade” defende: ele é bonitão, rico, tem as mulheres que quer e é admirado por todos. Porém, assim como seus “admiradores”, ele também nunca aprendeu a lidar com as próprias emoções, o que acaba se manifestando em suas atitudes violentas.

O problema é que tanto homens como Bateman como aqueles que o consideram um exemplo foram criados em uma espécie de bolha de privilégios: paparicados pelos pais e pela sociedade, eles crescem acreditando que podem ser tudo o que quiserem e que serão bem-sucedidos nisso. Estão cientes de seus direitos, mas ignoram seus deveres. Enquanto suas irmãs ajudavam em casa desde cedo, eles sempre puderam passar mais tempo brincando. Enquanto as meninas se preocupavam em não engravidar na adolescência, eles só queriam saber de quantas iriam “pegar” numa noite. Enquanto suas colegas administram carreira, maternidade e vida pessoal, eles gozam de salários mais altos pelo simples fato de serem homens. 

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Este é o mundo em que Patrick Bateman cresceu, embora o filme construa o personagem de forma que ele pareça desprovido de família e de qualquer tipo de humanidade. Mas homens que crescem acreditando neste ideal são reais e continuam causando sofrimento em outras pessoas e em si próprios – ainda que não percebam. Eles ainda conseguem se safar e continuarão conseguindo enquanto a ideia de “homem de verdade” for mais forte do que a do “homem bom”, conforme defende Michael Kimmel.

Capitalismo e individualidade

Se Patrick Bateman serve de modelo para o conceito de “homem de verdade”, ele também é um ótimo exemplo do que uma sociedade capitalista, consumista e individualista espera das pessoas. Pode-se dizer que ele seria uma personificação de tudo que a era Reagan representava. A diferença é que esta representação se mantém válida na era Trump.

Podemos afirmar que Psicopata Americano não deixou a cultura porque a cultura não deixou Psicopata Americano. É por isso que ele pode ser entendido tão bem nos dias de hoje. Tudo o que Patrick Bateman realmente valoriza é a beleza, a ordem e a conformidade, o que o torna o consumidor perfeito.

Além disso, ele gosta de aproveitar uma espécie de senso de exclusividade, com um apartamento modernamente equipado e frequentando os restaurantes mais cobiçados de Nova York, luxos restritos a poucos. Ele quer ter os melhores ternos, o melhor apartamento e o melhor layout no seu cartão de visita. 

Sabe quando você quer se mimar um pouco com uma roupa nova ou uma refeição mais especial? Bateman faz disso um estilo de vida: tudo gira em torno dele e de seus prazeres, por mais assombrosos que eles sejam. Ele tem um sentimento genuíno de que é superior e que tem direito a tudo do bom e do melhor, e podemos perder as contas de quantas pessoas nos dias atuais compartilham deste desejo de ostentação e autocongratulação.

Ao buscar satirizar os exageros de um período, o livro de Bret Easton Ellis e o filme de Mary Harron acabaram evidenciando vícios de uma sociedade que ainda não se mostra tão disposta a mudar. Afinal, até quando continuaremos alimentando os Patricks Batemans de verdade?

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