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Quem eram os Bórgias?

Mary Ann Cotton era conhecida como "a Bórgia de West Auckland", entenda por quê

28/11/2023

Quando falamos em Renascimento geralmente nos vem à mente um período marcado pelo incentivo às artes, cultura e filosofia, habitado por personalidades famosas e nomes marcantes. Maquiavel, Michelangelo, Leonardo Da Vinci sendo apenas alguns deles. 

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Embora tenha sido realmente uma época de valorização das ciências, da cultura e das artes, o Renascimento também foi marcado pela consolidação de governos, disputas políticas e religiosas e, é claro, dinastias poderosas, como os Medicis e os Bórgias

Os Bórgias eram uma família nobre de origem espanhola, e provavelmente uma das mais lembradas quando pensamos em genealogias controversas. Uma das linhagens mais influentes do século XV e XVI, eles não apenas possuíam poder político e econômico, mas também religioso, estabelecendo-se na Igreja Católica

bórgias
Mondadori / Getty Images

Por inúmeros motivos, o nome dos Bórgias é até hoje associado a escândalos que englobam desde traição e nepotismo até sexo e assassinatos. Muitos membros da família — em especial Lucrécia Bórgia — ficaram conhecidos por supostamente envenenarem seus inimigos

Essa imagem dos Bórgias como envenenadores ganhou tanta repercussão no inconsciente coletivo que muitos anos depois, em 1873, a envenenadora em série Mary Ann Cotton ganhou justamente o apelido de “Bórgia de West Auckland”, quando foi condenada pelo assassinato do enteado e acusada de envenenar seus filhos, sua mãe, seus três maridos e ex-amante. 

Você pode conhecer mais dessa história em Lady Killers Profile: Mary Ann Cotton, obra do historiador Martin Connolly, que analisa a vida e o julgamento de Mary Ann, investigando também todo o contexto da Inglaterra vitoriana. 

mary ann cotton

Mas se Mary Ann era a “Bórgia de West Auckland”, quem eram os verdadeiros Bórgias e o que essa família fez para carregar uma fama tão pesada? Vem com a Caveira que eu te explico. Pegue seu passaporte e se prepare para voltar no tempo. Renascimento, aqui vamos nós!

Intrigas, poder e depravação

Os Bórgias foram uma família nobre originária da Espanha, que posteriormente se estabeleceu na Itália. Seu sobrenome deriva justamente da cidade de sua origem: Borja, localizada atualmente na província de Saragoça, que na época estava sob o governo da Coroa de Aragão. Com uma linhagem que data de meados do século XV, por muito tempo os Bórgias alegaram ser descendentes de Pedro de Atarés, o Lorde de Borja, que no século XII reivindicou a coroa do Reino de Aragão. O único problema dessa alegação é que, na verdade, Pedro de Atarés morreu sem deixar nenhum herdeiro

LEIA TAMBÉM: CONHEÇA MARY ANN COTTON, A PRIMEIRA SERIAL KILLER DA INGLATERRA

Contudo, a fama dos Bórgias se intensificou quando eles se estabeleceram em Roma, no que viria a ser a atual Itália. Vale lembrar que na época, como ainda não existia o Vaticano, fundado apenas em 1929, Roma era a sede da Igreja Católica, que reunia imenso poder político, econômico e cultural

bórgias

Foi justamente com a Igreja Católica que os Bórgias se misturaram, conquistando fama e poder eclesiástico e político, além de, é claro, uma grande fortuna. Foi nesse período também que se tornaram protagonistas de escândalos que incluíam suborno, perversões sexuais e nepotismo, ganhando a fama de serem gananciosos e cruéis. 

A família ganhou destaque no âmbito público quando Afonso Bórgia foi eleito Papa em 1455, na época um cargo político escolhido a partir do interesse de famílias poderosas. Afonso adotou então o nome Calisto III, fortalecendo o nome Bórgia e colocando seus parentes em cargos de destaque. Seu curto papado, que durou apenas três anos, foi marcado pela absolvição e reconhecimento da inocência de Joana d’Arc, executada na fogueira em 1431, assim como pela divisão Espanha da recém-descoberta América entre Portugal e Espanha. 

calisto III
Calisto III

No entanto, Afonso não foi o único membro da família a se tornar pontífice. Alguns anos mais tarde, em 1492, seu sobrinho, Rodrigo Bórgia, o qual havia sido nomeado cardeal pelo tio, tornou-se o Papa Alexandre VI. Rodrigo era um político inteligente e influente, tendo trabalhado com quatro papas diferentes até assumir (ou melhor, comprar) o cargo, reunindo prestígio e riquezas. Foi justamente durante seu papado que os Bórgias adquiriram sua sombria e temida fama. 

Para começo de conversa, Alexandre VI intensificou a prática de nepotismo, nomeando familiares para inúmeros cargos eclesiásticos importantes. Além disso, enquanto chefe da Igreja Católica, distribuiu muitas terras e dinheiro, gastando tanto em novas construções e luxos que foi necessário aumentar as fontes de receita da Igreja. Outra prática que se agravou foi a venda de indulgências e simonias, ou seja, as pessoas podiam comprar vagas no céu e cargos eclesiásticos. Isso acabou irritando outras famílias poderosas, afinal Alexandre VI passou a utilizar os recursos e territórios da Igreja como se estes pertencessem aos Bórgias, o que obviamente aumentou as intrigas e disputas. 

Outra polêmica foi o uso da violência. Afinal de contas, os Bórgias ficaram historicamente conhecidos por eliminar qualquer um que ousasse se colocar em seu caminho. Não havia piedade com os inimigos. Um de seus métodos favoritos de assassinato era o envenenamento. Aqui é que surge a relação com Mary Ann Cotton, que ficou conhecida justamente por envenenar todos que se mostrassem uma ameaça para ela ou atrapalhassem sua vida.

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Alexandre VI também se envolveu em escândalos sexuais, adquirindo a fama de mulherengo. Quando ainda era cardeal, foi advertido pelo então Papa Pio II, que teve conhecimento de seu comportamento promíscuo, que envolvia relacionamentos secretos e filhos bastardos. Inclusive, há boatos que o cardeal certa vez organizou — para o horror de Pio II — uma orgia em seu jardim, proibindo a entrada de homens. 

As más línguas contam ainda que as orgias continuaram quando Rodrigo virou papa, com competições sexuais e prostitutas, contando até mesmo com a participação de seus filhos. Ele também mantinha relacionamentos com várias mulheres diferentes e para manter as amantes por perto fazia com que se casassem com funcionários da Igreja. Algumas fontes mencionam que chegou a manter um relacionamento com uma amiga de 15 anos de sua filha, Lucrécia.

Falando em filhos, os de Alexandre VI protagonizaram muitos momentos que contribuíram para a péssima reputação e legado da família. Um deles foi Giovanni, um de seus filhos mais velhos, para o qual desejava entregar o trono de Nápoles. No entanto, a vida de Giovanni foi interrompida pelo próprio irmão, o outro filho de Alexandre VI, César, que cortou sua garganta e jogou o corpo no rio Tibre. Muito se fala que as motivações do crime foram originadas por ciúmes e disputas amorosas e políticas entre os dois irmãos. Outro suspeito de ter participado no assassinato foi Gioffre, o irmão mais novo. Algumas fontes apontam que Giovanni mantinha um caso com a cunhada, esposa de Gioffre. Isso mostra como a família não pensava duas vezes em derramar o sangue de seus próprios membros. 

cesar borgia
César Bórgia
giovanni bórgia
Giovanni Bórgia

Já César Bórgia era o filho de Alexandre VI destinado à vida eclesiástica. Antes dos 18 anos se tornou cardeal e logo líder das tropas papais, conhecido por ser um chefe militar destemido e sanguinário. No entanto, a vida eclesiástica não era de seu agrado e logo após a morte de Giovanni, César convenceu o pai a deixá-lo abandonar as tarefas religiosas. Um fato interessante de sua vida é que era apaixonado por invenções, tendo contratado ninguém mais, ninguém menos, do que Leonardo da Vinci como seu funcionário. 

César também foi mandante do assassinato do marido da irmã, Lucrécia, com quem manteve uma estranha relação. Lucrécia Bórgia era a filha favorita de Alexandre VI e ganhou a fama de ser uma habilidosa envenenadora, frequentemente entrando na lista de envenenadoras do passado. Os boatos contam que utilizava uma variação do arsênico, carregando suas substâncias letais em um anel oco para conseguir envenenar bebidas e alimentos sem levantar suspeitas

Embora tenha financiado o trabalho de diversos pintores, filósofos e poetas do Renascimento, Lucrécia foi muito caluniada ao longo da história e não somente por sua fama de envenenadora. Aos 11 anos, já havia sido prometida a dois casamentos, mas foi aos 13 que se casou em uma aliança entre os Bórgias e outra família. No entanto, quando a aliança se mostrou uma ameaça, seu pai anulou o casamento alegando que este não havia sido consumado. Seu segundo marido, Alfonso de Aragão, foi morto a mando do irmão, César, em uma suposta manobra política. Aos 21 anos, Lucrécia estava indo para seu terceiro e último casamento.

lucrécia bórgia
Lucrécia Bórgia

Muito se fala que ela mantinha relações sexuais com o pai e César, que seria obcecado por ela. Contudo, não existe nenhuma comprovação disso e muitos historiadores apontam que essas histórias poderiam ser fabricadas pelos inimigos da família para atacar e desmoralizar seus membros. Nisso, precisamos ter cautela quando falamos sobre os Bórgias, já que muito do que sabemos sobre a família vem de fontes secundárias, permeadas de objetivos políticos da época. 

Também vale lembrar que os valores morais e relacionamentos daqueles tempos eram outros, muito diferentes dos nossos. Enquanto seus membros realmente cometerem atos condenáveis e violentos, é importante ponderar que matar rivais, forjar casamentos em alianças e vender cargos não era visto como uma grande anormalidade no Renascimento

Tudo começou a ruir com a morte de Alexandre VI, em 1503. Existem duas versões para esse fato. A primeira diz que o papa morreu em decorrência da Malária, enquanto a segunda afirma que foi envenenado. Na época, César também estava gravemente doente, o que levantou suspeitas de que também teria sido intoxicado. Sem a presença do pai, ele viu as famílias rivais se articularem contra os Bórgia, que perderam territórios e riquezas. César ainda conseguiu fugir, mas em 1507 foi assassinado. Já Lucrécia faleceu em 1519 aos 39 anos, durante o parto de seu décimo primeiro filho. 

Os Bórgias são pop

Não importa quanto tempo tenha se passado, os Bórgias ainda permanecem vivos no imaginário coletivo, principalmente na cultura pop. Seus nomes tornaram-se sinônimo de traição e perversidade, o que explica o apelido de Mary Ann Cotton: “Bórgia de West Auckland”. 

os bórgias série

Na literatura, a família se tornou personagem de inúmeros livros. Alexandre Dumas escreveu sobre eles em Os Bórgias e Mario Puzo, autor de O Poderoso Chefão, publicou um romance histórico sobre a vida de Rodrigo Borgia intitulado A Família (ou Os Bórgias). Mas engana-se quem acha que é só isso. O clã foi transformado em peças de teatro, animações, óperas e até mesmo quadrinhos

Nos cinemas, por exemplo, César Bórgia foi interpretado por Orson Welles no longa de aventura de 1949, O Favorito dos Bórgia. Já na televisão, a história da família foi adaptada na série Os Bórgias, que conta com Jeremy Irons como Rodrigo Bórgia/Alexandre VI, sendo que no mesmo ano estreou também, Borgia, outra série centrada na dinastia. Como se isso não bastasse, os Bórgia, especialmente Rodrigo e César, ainda aparecem como personagens do videogame Assassin ‘s Creed

os bórgias

Agora que você sabe mais sobre a história dessa famosa e polêmica família renascentista está na hora de mergulhar fundo no caso da Bórgia honorária do século XIX: Mary Ann Cotton. Fruto de uma cuidadosa pesquisa, Lady Killers Profile: Mary Ann Cotton é mais uma leitura obrigatória para os fãs da marca Crime Scene e vai te levar por uma jornada histórica, te contando tudo que você precisa saber sobre essa sombria e intrigante personagem da Inglaterra vitoriana. 

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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