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CaveirinhaEntrevista

Shaun Tan, na visão de seu tradutor: “Como ele chegou nessas histórias me parece uma coisa alienígena”

Érico Assis assina a tradução Contos dos Subúrbios Distantes, e compartilha o desafio de traduzir o intraduzível

01/02/2024

Érico Assis. O leitor pode até não reconhecê-lo de imediato,mas este é o nome por trás da tradução em língua portuguesa de uma das obras mais contundentes da bibliografia do premiado ilustrador e escritor australiano Shaun Tan estar disponível no Brasil. O jornalista e pesquisador é o tradutor de Tales From Outer Suburbia (2018) em suas edições brasileiras: tanto Contos de Lugares Distantes, publicada em 2012 pela extinta Cosac & Naify, quanto o novo volume, recém-lançado pela Darkside, Contos dos Subúrbios Distantes, publicado em outubro de 2023.

Compilando quinze contos que representam, a partir das mais originais técnicas narrativas em registros verbais e visuais, as finas fronteiras entre realidade e fantasia, Contos dos Subúrbios Distantes é um livro fundamental para os leitores aficionados pela presença do fantástico na literatura. 

contos dos subúrbios distantes

Quando perguntamos ao Érico o que Shaun Tan diz para as crianças de hoje, ele responde com a aceitação do inexplicável. “Não é só você que não entende esse mundo, somos todos nós. E tudo bem, a vida é assim e é muito bonita”, afirma o tradutor.

“Talvez, a aula de Shaun Tan seja essa: o mundo não tem chão.”

Érico Assis, tradutor

Quem quiser se aprofundar nos significados culturais, artísticos e sociais da obra, publicamos, aqui no Dark Blog, um conteúdo anterior a este, que traz declarações inéditas de Shaun Tan sobre Contos dos Subúrbios Distantes.

Tradução e criação

O escritor e pesquisador brasileiro Haroldo de Campos, que ressoava a ideia de que traduzir um texto é transcriá-lo, contribuiu para práticas tradutórias que se permitem inúmeras liberdades de criação. Já o filósofo alemão Walter Benjamin defendia que “A tradução é uma forma”.

Diante de uma obra aberta como a de Shaun Tan, que nem sempre cabe em delimitações fixas, toda a rede de profissionais envolvidos em sua publicação — editores, preparadores, revisores, diagramadores, e muitos outros — ganha um presente que pode despertar sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo em que é um deleite deparar-se com sua engenhosidade, acomodá-la em certas necessidades do mercado literário pode ser um desafio extra. Com a tradução, não seria diferente.

Quem bate o olho na novidade da edição nota, já de bate-pronto, uma transformação essencial, já que o título da obra agora é outro. Os “subúrbios”, que aparecem na nomenclatura original (suburbia), e que haviam sido suprimidos na primeira edição, voltaram a integrar o livro dessa vez. Uma escolha que envolve diversos elementos culturais, históricos, éticos e estéticos que impactam o modo as palavras são percebidas em contextos linguísticos diferentes. 

Novidades da tradução da DarkSide®

No caso de Tales From Outer Suburbia, é preciso considerar até mesmo a forma como as cidades são arquitetadas em cada cultura. Se, no município australiano de Perth, onde Shaun Tan nasceu e cresceu, e no qual ele se inspirou para compor o livro, os subúrbios significam territórios de recolhida tranquilidade em centros urbanos, no Brasil, o sentido de “subúrbio” se altera drasticamente, ao se associar a ambientes marginalizados, ou seja, “à margem” dos centros de poder econômico e por isso mais propenso a violências.

O termo “periferia”, que seria uma tradução possível e habita algumas traduções da obra, como na versão italiana, por exemplo (Piccole storie di periferia), também carrega outros símbolos em nosso país, diversos da ambiência original do livro. Já na edição francesa (Contes de la banlieu), a noção de subúrbio está presente, com todas as proporções guardadas, entre território e geografias políticas diferentes. É o que explica Érico Assis: 

“Encanei com Contos dos Lugares Distantes porque o que o que eu entendia do título Tales From Outer Suburbia era justamente que o Tan NÃO queria se referir a ‘lugares distantes, e sim ao subúrbio urbano — que fica longe do centro, mas que é onde você mora ou do lado de onde você mora. É ‘logo ali’, e não ‘lá’”.

Érico Assis, tradutor

Em cada conto, a aparente normalidade de um cotidiano pacato é atravessado por um elemento fantasioso que brinca com os limites entre familiar e estranho.

Conversamos com Érico para conhecer os bastidores dessa labuta tradutória que requer sensibilidade artística e, especialmente no caso de obras ilustradas, como é o caso desta, uma generosidade criadora ao lidar com duas linguagens distintas que, entrelaçadas, constituem a narrativa. 

Antes de mais, uma breve apresentação do nosso entrevistado.

Jornalista desde 2000, ele enveredou pelo ofício de tradutor em 2008, a partir de seu interesse pelas histórias em quadrinhos. Não por acaso, aquele também foi o ano da primeira publicação de Tales From Outer Suburbia, um livro que desafia as classificações de gênero, por mobilizar aspectos tanto da literatura ilustrada quanto da novela gráfica.

Formado em Estudos da Tradução pela UFSC, Érico Assis é, acima de tudo um leitor obstinado. Em seu currículo, ele soma em torno de 500 publicações, entre HQs, não ficção e literatura infantil. Dentre elas, O muro: Crescendo atrás da cortina de ferro, de Peter Sís, A coisa terrível que aconteceu com Barnaby Brocket, de John Boyne e Oliver Jeffers. Seus “pares” — como se costuma dizer no jargão da tradução — são o inglês-português, francês-português, espanhol-português e português-inglês.

Na conversa, o tradutor compartilha os principais desafios da missão de retraduzir uma obra icônica como Contos dos Subúrbios Distantes, e divide com os leitores as curiosidades sobre a publicação, que ele considera a grande favorita de sua carreira na tradução. Traduzir, sendo também um gesto de criação, demanda paixão pelo objeto.

Abaixo, confira a entrevista na íntegra com o tradutor Érico Assis!

Renata Penzani: Antes de mais nada, gostaria de começar com uma fala sua. Você costuma dizer que Contos dos Subúrbios Distantes é a sua tradução preferida. Por quê? Quais particularidades te atraem nessa obra?

Érico Assis: Traduzir é uma oportunidade de entrar a fundo em um livro. É um tipo de leitura que eu não faço quando sou só o leitor do livro. Traduzindo, tem uma certa quantidade de vezes em que leio e releio o livro — pelo menos três — e horas que passo com o livro que podem ser no mínimo cinco vezes o tempo que eu passaria como leitor. Então, quando o livro é bom, tudo é multiplicado, comparado a uma leitura comum. Além disso, meus livros preferidos — e também filmes, quadrinhos, músicas, etc. — são aqueles que eu não consigo explicar por que gosto. Sou uma pessoa analítica por formação (acadêmica) e por profissão, e costumo conseguir sacar por que o autor ou a autora fizeram isso ou aquilo para chegar no efeito tal. No caso de Shaun Tan, em primeiro lugar, o processo mental, o como ele chegou nessas histórias e o porquê, muitas vezes me parece uma coisa alienígena. Eu não entendo como ele consegue o que consegue.

“Tentando analisar, acho que Shaun Tan toca em assuntos que têm a ver com dúvidas comuns, como as decisões de rumo na vida, qual é a minha casa, como explicar o inexplicável. E dá respostas que são muito simples. Talvez seja um livro que me tranquiliza? Mas não é só isso.”

Érico Assis, tradutor

RP: O ofício de traduzir é feito de possibilidades trabalhosas, entre manter a voz do autor, conservar estilo, ritmo, e acomodar a história à língua de chegada. Cada tradutor faz suas escolhas de perspectiva nesse sentido. Como você chegou à decisão de alterar o título da sua primeira tradução?

EA: Na verdade, a proposta de título que eu fiz à editora Cosac Naify, há 11 anos, era “Contos de subúrbios distantes”. Era uma tradução mais literal e que eu acredito que se justificava diante dos contos unidos por histórias de subúrbio. A editora da época achou que “subúrbio” tinha, no Brasil, uma conotação diferente da que Tan queria, e que não ia se encaixar nas livrarias daqui. Por isso, virou Contos de Lugares Distantes. Preciso dizer que, desde meu primeiro trabalho como tradutor, aprendi que títulos são decisões da editora e que, ao tradutor, cabe apresentar opções.

RP: Que outras mudanças foram feitas na tradução dessa nova edição, e o que levou a elas? Alguma história em especial que você queira contar desse processo?

Érico Assis: Eu tentei não olhar para minha tradução anterior. A ideia era refazer do zero. Mesmo se eu tivesse olhado, acho que teria muitas mudanças. Foram sete anos e pouco entre uma tradução e outra, e nesse tempo a pessoa muda seu léxico, muda sua forma de traduzir, muda sua noção estética (fico lembrando do Dr. Manhattan dizendo que, em sete anos, nenhuma célula do seu corpo é a mesma, ou algo assim). O texto mudaria se eu revisasse de uma semana para outra, então imagine em sete anos. Só peguei os dois livros para comparar por conta dessa entrevista. Vi que os dois primeiros contos têm nomes diferentes: “O Búfalo do Rio” na Cosac, e “O Búfalo D’água” na DarkSide; O “País Nenhum” da Cosac virou “Não Existe País” na DarkSide.

bufalo contos dos suburbios distantes
Shaun Tan/ Reprodução

Os outros títulos me parecem iguais. Comparei três páginas a esmo de uma edição e de outra e as construções das frases são totalmente diferentes. O que me assusta mais é o que ficou igual, não o que ficou diferente, apesar do mesmo tradutor. E você tem que levar em conta que as traduções, nos dois casos, passaram por duas equipes diferentes de preparadores, revisores, editores, diagramadores… Todos eles mexeram nesses textos.

RP: A tradução de um livro que tem sua narrativa apoiada no entrelaçamento entre a linguagem verbal e a visual deve considerar também as imagens como um “texto” a ser traduzido em conjunto. Como você fez isso no caso deste livro especificamente, em que cada conto traz dinâmicas diferentes entre palavras e ilustrações?

EA: Como eu tenho bastante experiência com tradução de histórias em quadrinhos, pensar estas dinâmicas bem variadas entre palavra e desenho faz parte do meu dia a dia. Não encontrei nada de tão diferente no Tan, neste sentido. O único conto que tinha uma camada extra de dificuldade nessa articulação foi “Chuva ao Longe”, em que as frases são cortadas entre vários pedacinhos de papel, e eu tinha que me atentar tanto à decupagem desses fragmentos quanto ao tamanho, ao número de palavras (ou letras) de cada fragmento. Mas, apesar de eu ter “projetado” como esta fragmentação deveria ficar no português, ao ver o livro agora só consigo pensar na trabalheira infernal que foi a diagramação, não no meu trabalho.

RP: Outra característica particular dos livros que circulam como “literatura infantil” é que seus leitores vão crescendo ao longo dos anos, e por isso o pretenso destinatário inicial muda a cada período. Sobre o público-alvo, você acha que é possível dizer quem são os leitores de Shaun Tan no Brasil? 

EA: Penso que são pessoas ligadas em ilustração, que chegam ao Tan mais por este caminho do que pelo do texto. Posso estar totalmente enganado. Já me correspondi com gente que leu Contos, principalmente a edição da Cosac, e não sei se tem uma característica que une as pessoas. Gostaria de saber essa resposta.

RP: Shaun Tan pode ser um desafio de leitura em muitos aspectos, não só porque é difícil encaixá-lo numa caixinha só, mas também porque não há sentidos únicos nas suas histórias, o que pode “assustar” os adultos na hora da mediação. Considerando que muitas vezes o livro infantil chega à criança pelo adulto, como a literatura dialoga com esse público hoje?

EA: Pensando apenas em mim como leitor, concordo que as histórias não têm sentidos únicos. Mas eu enxergo, como respondi antes, respostas bem particulares para mim nas histórias e entendo que essas respostas são uma possibilidade de interpretação de cada conto. Ênfase no uma possibilidade.

É o jeito como eu enxergo a crítica literária, quando eu escrevo: devo oferecer uma chave de leitura, que não é a certa nem a única, mas é uma que eu enxergo e justifico.

Pensando nisso, acredito que as mediações de leitura podem trabalhar justamente esse aspecto: Tan deixa o leque de interpretações aberto, podemos entender x, y ou z, ou x, y e z junto, e leitura é justamente isso. Me parece uma boa reflexão para os pequenos, por mais que não lhes dê chão. (Talvez, a aula seja essa: o mundo não tem chão.)

RP: Shaun Tan escreveu recentemente que gosta de “ser perpetuamente infantil da melhor forma possível, primário, elementar, instintivo”. Gostaria de saber se você considera a literatura do autor “infantil”, nesse aspecto. O que é ser infantil pra você? 

EA: Eu entendo que o que caracteriza a literatura “infantil” é um texto pouco rebuscado e uma narração mastigada, extremamente clara quanto às descrições. Mas isso é apenas o aspecto material do texto, pois as possibilidades de interpretação e a profundidade de sentimento não tem nada de “pouco rebuscadas” ou “mastigadas”. De modo que os leitores são convidados a enxergar muito naquele aparente “pouco”. O adulto percebe sentidos muito além da palavra fria e a criança, mediada ou não pelo adulto, sente que tem algo a mais naquela narrativa simples — ou introjeta aquele simples e trata como uma verdade pra vida, maior do que percebe naquele momento. Acho que a literatura de Haruki Murakami, por exemplo, se encaixa muito bem nesta definição de “infantil”. Ele não tem — ao menos, nas traduções que eu li, para o inglês e o português — nada de palavras rebuscadas e é extremamente pão-pão-queijo-queijo no que descreve. Mas é óbvio que ele toca fundo em cada leitor com o mínimo de percepção. Shaun Tan é assim, Shel Silverstein é assim, Maurice Sendak é absurdamente assim, Ziraldo foi assim em muitos livros. Mas ninguém chama o Murakami de “infantil”, que eu saiba.

RP: O escritor também costuma dizer que todas as suas histórias têm um tema só: como as pessoas comuns reagem a acontecimentos incomuns. Na sua visão como tradutor, mas também como leitor, o que as crianças de hoje acrescentam em seu repertório lendo Shaun Tan, especialmente este livro?

EA: Que não é só você que não entende esse mundo, somos todos nós. E tudo bem, a vida é assim e é muito bonita.

Érico Assis é tradutor, jornalista e professor. Traduz do inglês e do francês para as principais editoras do Brasil, tendo trabalhado em mais de 500 obras de quadrinhos, literatura, não ficção e infantojuvenis desde 2009. É doutor em Estudos da Tradução pela UFSC e um dos criadores do podcast Notas dos Tradutores. Também é autor da coleção de livros Balões de Pensamento, da newsletter Virapágina e já ministrou mais de dez edições de seus cursos de tradução na LabPub. www.ericoassis.com.br

LEIA TAMBÉM: SHAUN TAN: 7 CURIOSIDADES SOBRE O AUTOR DE CONTOS DOS SUBÚRBIOS DISTANTES

Sobre Renata Penzani

Avatar photoEscritora, jornalista, pesquisadora. Formada em Comunicação social pela Unesp, pós-graduada em literatura para as infâncias pel'A Casa Tombada, e mestra em Estudos da Linguagem pela UFRPE. Autora dos livros "A coisa brutamontes" (Cepe, 2018) e "Maracujá" (Laranja Original, 2023).

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