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The Backrooms, Casa de Folhas e o gótico institucional

Como o desconforto ligado à espacialidade afeta o nosso subconsciente

28/04/2026

Se você frequenta a internet há algum tempo, com certeza já ouviu falar dos backrooms. Fenômeno do 4chan, a creepypasta nasceu em 2019 com uma postagem anônima que foi eternizada pela foto de um escritório abandonado, ressaltado pelo carpete desbotado, iluminação fluorescente e paredes amarelas. 

LEIA TAMBÉM: Kane Parsons: o diretor de Backrooms que veio do YouTube

Evocando nosso desconforto perante espaços liminares, a imagem foi o suficiente para que os usuários criassem uma história sinistra envolvendo milhões de quilômetros quadrados de salas labirínticas, vazias e segmentadas aleatoriamente. Concebido como um mundo paralelo ao nosso, os backrooms só poderiam ser acessados atravessando a superfície da realidade. À medida que a creepypasta foi ficando mais popular, o conceito foi expandido por fãs e criadores de conteúdo, os quais adicionaram incontáveis níveis, teorias, mapas e, obviamente, entidades à essa complexa lenda urbana. 

Em 2022, o YouTuber Kane Parsons, conhecido como Kane Pixels, adicionou outra camada de mitologia por meio de uma série de curtas-metragens no estilo found footage, os quais acompanham um cineasta dos anos 90 que acidentalmente entra nesse espaço sinistro. O sucesso dos vídeos foi tão grande, despertando ainda mais interesse pelos backrooms na internet, que Parsons foi contratado para dirigir uma adaptação cinematográfica, a qual chega aos cinemas em maio deste ano com produção da A24.

No entanto, a popularização dos backrooms vai muito além do cinema e da internet. Ela nos incentiva a pensar na ascensão do chamado gótico institucional, o qual revela uma ansiedade coletiva intrinsecamente vinculada à condição moderna e corporativa: o medo de espaços que deveriam ser seguros, organizados e metódicos, mas simplesmente não são. 

Entre espaços liminares e um novo tipo de gótico 

Para começo de conversa, o gótico institucional está extremamente conectado ao conceito de liminaridade. Criado há mais de um século pelo antropólogo Arnold van Gennep, que se referia aos ritos de passagem, o conceito extrapolou seu significado inicial. Atualmente, a ideia de liminaridade é utilizada para descrever a desorientação e desconforto sentidos perante lugares de transição, os quais representam o limiar ou limbo entre duas coisas. Nesse sentido, tais espaços causam estranheza por estarem despidos de seus contextos originais.  

A internet, por exemplo, transformou a liminaridade em uma espécie de estética, na qual pistas de boliche abandonadas, aeroportos completamente vazios e shoppings antigos sem nenhuma alma viva causam profunda inquietação. Tudo isso porque são locais que deveriam estar ativos e cheios de vida, mas que encontram-se anormalmente desprovidos de qualquer tipo de humanidade. 

Por sua vez, isso nos leva até a ascensão do gótico institucional. Enquanto o gótico clássico, popularizado nos séculos XVIII e XIX, era marcado por paisagens dramáticas, antagonistas dúbios, heroínas aterrorizadas e narrativas permeadas pelo sobrenatural, o gótico institucional desloca o horror para um tipo diferente de estrutura.  

Segundo Shira Chess, professora de estudos midiáticos na Universidade da Geórgia, o gótico institucional ainda envolve espaços inquietantes, forças malévolas e um desconforto ligado à espacialidade. No entanto, ele se desenvolve em estruturas organizadas como hospitais, escritórios labirínticos, prédios administrativos e arquivos corporativos, os quais são consumidos pela banalidade industrial e perda de identidade.

Feitos para proteger e ordenar o mundo, aqui eles são despidos de seu propósito original, permeados por opressão, vigilância e desumanização. Enquanto no gótico clássico, os antagonistas são nobres ardilosos e decadentes, no gótico institucional eles são grandes corporações sem alma, marcados por uma autoridade invisível e impessoal. Segundo Chess, o gótico institucional transforma um gênero antes alimentado pelo terror fantasmagórico em algo voltado para o medo familiar e mundano da alienação no ambiente de trabalho. 

O melhor exemplo da popularização do gótico institucional são justamente os backrooms. Com seus corredores infinitos, carpetes úmidos, tons monótonos de amarelo e luzes fluorescentes, essas salas são o ápice do pesadelo corporativo, nos perturbando pela ausência de sentido e pela sensação de que estamos presos em um sistema que deveria funcionar, mas não funciona mais. 

De acordo com Chess, não é coincidência, por exemplo, o fato de que grande parte da mitologia dos backrooms se passa nas décadas de 80 e 90. Uma época de grande prosperidade para a classe média dos Estados Unidos, ela foi marcada pelo auge dos cubículos, que representavam as promessas de um capitalismo moderno e burocrático que parecia invencível. Contudo, algumas décadas mais tarde, entre crises econômicas e instabilidades sociais, os cubículos foram praticamente descartados quando muitas indústrias e grandes corporações reduziram e reorganizaram suas operações. No entanto, não foram apenas os cubículos que foram abandonados, mas também grande parte da classe trabalhadora. 

É assim que no gótico institucional, escritórios e outros espaços burocráticos se tornam armadilhas inescapáveis, ecoando os horrores corporativos do século XX. Trata-se de um terror profundamente moderno, que nasce da burocracia, da padronização, da falta de escolha e da impessoalidade. Em narrativas como os backrooms, a individualidade não importa, de forma que nos transformamos em apenas mais um corpo perdido em um enorme labirinto alienante. 

É claro que os backrooms não são o único exemplo de gótico institucional. Basta pensar no videogame The Stanley Parable, no qual assumimos o controle de um protagonista silencioso que explora o prédio em que trabalha e descobre que o local está completamente vazio, e na cultuada série da Apple TV, Ruptura

Podemos encontrar sementes dessa tendência até mesmo em obras anteriores, como o romance experimental de Mark Z. Danielewski, Casa de Folhas, publicado originalmente nos anos 2000. Aqui, a história gira em torno de uma família que descobre que sua casa é maior por dentro do que por fora, desafiando as dimensões físicas e a lógica do espaço. Entre as anomalias, destaca-se um grande corredor escuro que revela ser cada vez maior e mais labiríntico, parecendo mudar de forma e se estendendo infinitamente. Assim como nos backrooms, o espaço de Casa de Folhas deixa de ser confiável e é aqui que nasce o horror. 

casa de folhas

É claro que existem diferenças. Enquanto os backrooms e o gótico institucional priorizam a impessoalidade e o anonimato, Casa de Folhas conecta o espaço liminar ao psicológico e familiar. Na obra de Danielewski, o labirinto não é apenas físico, mas também emocional, narrativo e até textual, exigindo uma leitura não linear por parte do leitor. 

As convergências surgem por meio da quebra de confiança em espaços que deveriam ser estáveis e seguros, como escritórios ou casas. Tanto no gótico institucional quanto nos backrooms e em Casa de Folhas, estes locais se tornam hostis, despertando um medo de estarmos presos em locais que não podem ser compreendidos pelas leis que conhecemos. Além disso, os três exploram o horror a partir daquilo que chamamos de desorientação ontológica, ou seja, da sensação de ruptura profunda da realidade. Aqui, as regras tradicionais não se aplicam mais e é essa falha que produz o medo. 

Resumindo, o gótico institucional, os backrooms e Casa de Folhas discorrem sobre ansiedades contemporâneas similares, construindo o horror a partir da perda de controle, da alienação, da impessoalidade e de estruturas invisíveis que parecem não ter fim. Seja por meio de uma corporação opressora, um escritório labiríntico ou uma casa “impossível”, o medo surge de uma arquitetura e de instituições que deveriam ser seguras, mas que, no final das contas, apenas nos aprisionam e consomem. 

E talvez o mais perturbador seja o fato de que esses espaços já não estão tão distantes de nós, como os castelos em ruínas das histórias do gótico clássico um dia estiveram. Em um mundo cada vez mais liminar, suspenso entre o físico e o digital, o horror passa a ser um lugar que se habita sem perceber. Não há um limiar de entrada, uma porta ou um momento exato em que cruzamos a linha de chegada. Seja vagando por corredores familiares demais ou repetindo caminhos que não levam a lugar algum, talvez a solução seja seguir em frente, rumo ao desconhecido…  andando, explorando e torcendo para que exista, em algum ponto, uma saída. 

LEIA TAMBÉM: Casa de Folhas + 11 obras de literatura experimental

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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