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Caveira Viu: Noites Brutais

Os verdadeiros monstros escondidos no porão

“Casa limpa, máquina de lavar que funciona e o vinho deixado pelos anfitriões foi um ótimo toque. Porém, já havia outro hóspede no local e deveriam fazer algo em relação ao porão, e não estou falando apenas da porta que fecha sozinha. Não voltaria a me hospedar. Uma estrela.” Essa seria a avaliação no Airbnb da casa de Noites Brutais, filme de terror disponível na Star+ que explora medos de monstros reais.

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Imagine a situação: você chega em uma noite chuvosa para ficar na sua acomodação alugada on-line e descobre que a chave não está no compartimento em que deveria. Pior: a casa já está sendo ocupada por outra pessoa que a alugou e uma convenção na cidade impede que você consiga outro lugar para ficar. Tentar qualquer resposta dos anfitriões é uma possibilidade apenas para o dia seguinte e a vizinhança não é das mais amigáveis. O que você faria?

Ah, imagine tudo isso sendo uma mulher e considerando que o hóspede que já está lá é um homem. É essa a situação em que Tess (Georgina Campbell) se encontra no início de Noites Brutais. Para deixar tudo mais assustador, o outro hóspede, Keith, é interpretado por Bill Skarsgard, o próprio Pennywise de It: A Coisa (ok, para a personagem isso não significa nada, mas como espectador a gente já espera o pior).

Noites brutais
Fox/Divulgação

O plot poderia seguir por dois caminhos: uma comédia romântica ou um filme de terror. Para a alegria da Caveira, o roteiro seguiu pela segunda opção, mas não do jeito que a gente imagina.

Muito mais do que um filme de monstro

SPOILERS DE NOITES BRUTAIS A PARTIR DAQUI

Desde o início, Tess mostra que tem todas as qualidades de uma final girl, incorporando o espírito “nem a pau” da coisa. Ela inicialmente não quer passar a noite na casa com o desconhecido, recusa-se a beber qualquer coisa que não tenha sido preparada na sua frente, tira uma foto da identidade do cara e tranca a porta do quarto na hora de dormir. Nada daquelas péssimas decisões que povoam os filmes de terror. 

Mas em um de seus momentos inspirados, Noites Brutais não segue pelo caminho do terror que Tess ou o público esperam. Aparentemente Keith realmente é um cara legal, talvez um pouco ingênuo e otimista, mas isso não faz dele o monstro do filme.

Há algo no porão, descoberto por Tess, que desperta os instintos da nossa final girl para dar o fora o quanto antes, mas Keith se sente seguro o suficiente para investigar, apesar de todos os alertas da sua roommate acidental. Enfim, uma decisão estúpida! Agora temos um filme de terror de verdade!

noites brutais
Fox/Divulgação

Com um corte seco e pertinentemente anticlimático, somos levados a um segundo plot: AJ (Justin Long) é um ator de sitcom acusado de abuso sexual e o escândalo limpa suas finanças. O envolvimento dele com a casa alugada em Detroit não é lá muito surpreendente: ele é o proprietário, que aluga o imóvel com o intermédio de uma agência. 

Não demora muito para que ele descubra o porão e, numa tentativa de ampliar a metragem e o valor da casa, acaba se deparando com o monstro que habita o subsolo. Isso acontece semanas após o episódio de Tess, com quem ele se encontra no cativeiro para onde a criatura o leva.

Tess, como uma excelente final girl, entendeu como se manter viva, ainda que confinada e nutrida com uma dieta de embrulhar as entranhas. Aprendemos mais ou menos o que é a criatura e qual a motivação dela, embora suas origens permaneçam misteriosas

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Um terceiro plot elucida essa questão: quando o bairro ainda era bem povoado (em contraste com a decadência atual), um morador chamado Frank (Richard Brake) compra itens para bebês no mercado, embora ele evidentemente não entenda nada do assunto. Frank também ativa todos os sinais de stalker, utilizando-se de um disfarce para entrar na casa de uma mulher e conhecer melhor o seu interior. Mais pra frente isso vai fazer sentido para compreender melhor a criatura que prendeu Tess e AJ (repararam que não mencionei Keith aqui? Pois é).

Com todas as cartas em jogo, ainda resta saber como a nossa final girl vai fazer jus ao título. O desenrolar da história caminha para a ação digna de todo filme de terror e mais uma meia dúzia de decisões infelizes dos personagens, incluindo a nossa até então precavida Tess — será que foi a dieta que a deixou assim? Enfim, o nosso terror old school agradece.

Noites Brutais
Fox/Divulgação

Os monstros de Noites Brutais que permanecem nas sombras

Aterrorizar é sempre o ponto principal de todo bom filme de terror. Suspense enervante, portas que se fecham sozinhas, monstros no porão e aquela boa dose de gore e jump scares são os ingredientes principais na receita desses filmes. Mas alguns deles entregam aquele terror extra com uma boa dose de crítica social, algo que Jordan Peele entrega com maestria.

Zach Cregger, roteirista e diretor de Noites Brutais também tem algo a dizer nesse sentido, embora sua mensagem talvez fique um pouco mais subliminar. A mais evidente delas, principalmente para o público feminino, tem a ver com misoginia. Há até uma conversa entre Tess e Keith que joga na cara do público como as diferentes sensações de segurança entre os sexos interferem nas suas decisões. E isso é evidenciado pelo próprio filme até aqui: temos uma Tess cautelosa e pronta para fugir quando o perigo se torna real, e um Keith que, mesmo com todos os alertas, decide ver por conta própria o que está acontecendo.

Isso é reflexo de um histórico de misoginia e machismo: mulheres sempre tiveram seus instintos estimulados a perceber o perigo muito antes — até porque estão sujeitas a muito mais situações ameaçadoras. Cregger toma cuidado para não ser panfletário, mas a misoginia continua no centro de sua crítica, desde as acusações contra AJ — e toda a atitude do personagem diante de mulheres —, passando pelas origens do monstro no porão, culminando no sacrifício feminino (espontâneo ou compulsório).

noites brutais
Fox/Divulgação

Embora essa seja a mais evidente, não é a única crítica social em Noites Brutais. O próprio bairro abandonado onde a casa se localiza é uma crítica à gentrificação, aquele processo em que certas vizinhanças são supervalorizadas, aumentando o abismo social. 

E não para por aí. O bairro de Brightmoor, onde a casa está, não é uma vizinhança fictícia aleatoriamente localizada em Detroit: ela é real e revela outra crítica do filme, dessa vez a políticas econômicas

Detroit era uma cidade próspera no início do século XX graças à sua proeminente indústria automotiva, com montadoras como Dodge, Chrysler e Ford. A perspectiva de emprego em uma indústria promissora atraiu muitas pessoas, chegando a um ápice populacional de 1,8 milhão de habitantes

Porém, as políticas econômicas que cortaram impostos dos mais ricos desde o governo Reagan contribuíram para o declínio dessa indústria, levando ao desemprego e à evasão de várias vizinhanças operárias em Detroit, não apenas Brightmoor. A recessão econômica do início dos anos 2000 sepultou ainda mais o destino desses bairros, que em alguns casos encontram-se com apenas 25% de ocupação, imóveis vazios e um descaso generalizado do poder público. Durante a pandemia, o governo Trump adotou medidas semelhantes às de Reagan, então a crítica se mantém atual.

Toda essa análise vem de pistas bem sutis dadas pelo filme. Como já mencionado, Cregger não despende muito tempo se debruçando sobre isso.

Para quem só quer um bom e velho filme de terror, Noites Brutais está aqui para isso também. No entanto, se você se atrever a explorar todos os corredores dos porões do filme, poderá encontrar muitos outros monstros — alguns deles brutalmente reais.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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