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Caveira Viu: O Menu

Somos todos ingredientes indigestos

26/01/2023

A alta gastronomia possivelmente nunca esteve tão em alta como nos dias de hoje. Competições culinárias povoam o streaming e a TV aberta e os guias gastronômicos são capazes de formar um verdadeiro Olimpo de restaurantes cobiçados e venerados. Mas o filme O Menu chegou disposto a jogar um molho bem apimentado e sangrento nessa idolatria e nas nossas interações enquanto sociedade.

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O filme começa com um grupo de pessoas pegando um barco para jantarem no exclusivíssimo restaurante Hawthorn, do aclamado Chef Slowik (Ralph Fiennes), que obviamente fica em uma ilha, aumentando o mistério. Logo de cara, somos apresentados a um casal de dinâmica suspeita: Tyler (Nicholas Hoult) e Margot (Anya Taylor-Joy). 

Tyler é um aficionado por gastronomia e Margot parece ter caído na situação meio que sem querer. A entrada do filme está servida: aprendemos que o misterioso restaurante comporta apenas doze clientes e cada jantar custa 1.250 dólares, aumentando a nossa fome pelo que a história ainda reserva.

o menu
Alienworx Productions/Divulgação

Além deles, os outros clientes também se mostram privilegiados e abastados. Com exceção de uma crítica gastronômica e seu editor, a maioria deles nem parece tão interessada na culinária que estão prestes a saborear. É tudo uma questão de status — eles vão ao Hawthorn não pela qualidade dos ingredientes ou do preparo, eles vão simplesmente porque podem.

Um breve tour pela ilha orienta os clientes sobre a produção da matéria-prima do estabelecimento, demonstrando todo o cuidado que já começa muito antes de ligar o fogão. O fato de todos os funcionários morarem isolados na ilha e se dedicarem exclusivamente ao ofício cria uma atmosfera de seita, elevando o mistério e o apetite do público pelo que virá a seguir.

Quando o jantar finalmente começa, fica evidente que a comida é apenas um dos elementos em uma extravagante experiência gastronômica. Cada um dos sete pratos do menu tem todo um conceito por trás, uma dramática apresentação e um propósito. E ai do cliente que questionar qualquer coisa — até mesmo pedir um pãozinho pra acompanhar aqueles molhos que vieram de maneira avulsa se torna uma verdadeira afronta.

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Alienworx Productions/Divulgação

Legal, mas cadê o terror?

Num primeiro momento, você pode até desconfiar de que sua fome por algo mais aterrorizante não será saciada, mas lá pelo terceiro prato você irá mudar de ideia. É difícil não dar muito spoiler, mas ocorre uma virada de chave que leva quase todos os clientes a quererem sair dali o quanto antes — embora alguns ainda estejam aproveitando a experiência e achando que tudo faz parte do grande teatro do Chef Slowik.

Há, claro, uma mistura de diferentes temperos conforme a narrativa evolui, principalmente no que diz respeito à nossa protagonista Margot, a única que não parece impressionada com a experiência. Qual a relação dela com Tyler? Por que ela foi chamada de última hora? Por que Slowik está tão incomodado com a sua presença?

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Alienworx Productions/Divulgação

Em determinado momento, o personagem de Fiennes diz: “Não comam. Provem. Saboreiem. Apreciem”, um conselho que devemos levar como espectadores do próprio filme. Se colocássemos os filmes de terror em um prato, os slashers seriam uma espécie de fast food: enchem os olhos, ativam o nosso mecanismo de recompensa e são altamente viciantes. O Menu já está mais para um terror menos saturado, mas com surpreendentes temperos a cada nova garfada — seguindo a linha de filmes como Corra! e Midsommar. Um prato mais elaborado, do qual o próprio Chef Slowik teria orgulho de servir em seu restaurante.

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Onde está o canibalismo de O Menu?

Um filme que mistura terror e culinária certamente tem sua boa dose de canibalismo, certo? Sim e não. Como já foi mencionado, há muita elegância no terror de O Menu, que é marinado no suspense e salpicado com boas doses de humor ácido. E até mesmo a referência ao canibalismo segue a receita.

O longa é amigável a todos os estômagos, até aqueles mais intolerantes a produções sanguinolentas. O pouco de body horror explorado por ele não se destina a qualquer ato canibal. A antropofagia proposta aqui é muito mais metafórica. Tanto a equipe de Hawthorn como os clientes são tratados como ingredientes meticulosamente selecionados para a sobremesa proposta por Slowik. Aqui os clientes não comem o jantar, eles são o próprio jantar.

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Alienworx Productions/Divulgação

Se considerarmos a crítica social não tão subliminar, há toda a relação entre os que servem e os que se aproveitam, apontada pelo próprio Slowik, e a gula em si, que serve como metáfora para o hedonismo da sociedade atual. Pessoas “devoram” umas às outras para se destacarem, alcançarem status e satisfazerem os próprios desejos. A frase “você irá comer menos do que deseja e mais do que merece” é uma que fica presa no nosso esôfago como um indesejável refluxo.

Porém, a sobremesa que O Menu nos reserva parece ter se esquecido de algum ingrediente. O desfecho da nossa heroína parece ter encontrado uma solução simples demais para uma trama tão elaborada — tão simples quanto um cheeseburger e talvez um pouco decepcionante como uma porção de batatas fritas murchas. Não é suficiente para arruinar por completo o banquete cinematográfico que tivemos até aqui, mas ainda assim, confere uma nota agridoce a um potencial não aproveitado em sua plenitude.

Com um suspense preparado em fogo baixo, O Menu entrega um delicioso terror para deixar qualquer fã de cinema satisfeito. A Caveira já está faminta por mais produções deliciosas como essa.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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