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Por que o canibalismo fascina as pessoas?

Obras da cultura pop saciam a curiosidade sobre o tema

Você se lembra da primeira vez que se deparou com a mera possibilidade de uma pessoa se alimentar da carne de outra? Para muitos, esse primeiro impacto ocorreu por causa de alguma obra de ficção, como O Silêncio dos Inocentes, cujo filme fez história na premiação mais disputada e popular do cinema: os Oscars®.

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As reações para essa “novidade” são as mais variadas, passando pela repulsa, curiosidade e, ainda assim, uma espécie de fixação sobre o tema. Afinal, devorar a carne de um semelhante é algo que jamais passaria pela nossa cabeça naturalmente… ou será que passaria se não fossem as construções sociais em cima do assunto?

O canibalismo é possivelmente um dos principais tabus na nossa sociedade. Encarado como uma fixação patológica, uma anomalia antropológica e, claro, como crime, ele é visto como um ato extremo de desvio social. Mas se a prática é tão repulsiva assim, por que obras sobre o assunto atraem tantas pessoas?

Canibalismo: Um prato cheio no entretenimento

Recentemente a série Dahmer: Um Canibal Americano se tornou um dos maiores sucessos de toda a história da Netflix, perdendo apenas para Stranger Things. Tanto sucesso pode ser explicado por uma combinação de fatores que costumam despertar a curiosidade do público: crimes reais, assassinos em série e ele, o canibalismo.

Evan Peters Dahmer
Netflix/Divulgação

Quase todas as formas de entretenimento na cultura ocidental já abordaram a antropofagia (outro nome para o canibalismo) de alguma maneira. Ela estava lá nos dramas clássicos, nos romances medievais, no teatro jacobino, nos livros, quadrinhos e mais recentemente na TV da nossa casa.

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Os personagens canibais frequentemente aparecem como uma contradição drástica ao comentário social e psicológico do comportamento aceito, que são cercados de tabu. Um exemplo disso é a publicação de 1927 de Sigmund Freud, O Futuro de uma Ilusão, que discute todos os impulsos primitivos e instintivos (incluindo assassinato e canibalismo) que devem ser contidos para que a sociedade funcione. A obra foi publicada em meio a duas adaptações cinematográficas de Sweeney Todd (de 1926 e 1928), a famosa história do barbeiro e da loja de tortas de carne que tem um ingrediente humano até demais.

Esta contradição entre a obra de Freud e a história de Sweeney Todd chamam a atenção para uma verdade um tanto indigesta: ao mesmo tempo em que sabemos que comer humanos é errado, a cultura popular transforma isso em entretenimento.

Sweeney Todd
Divulgação / © 2007 by DreamWorks LLC and Warner Bros. Entertainment Inc.

Era de se esperar que com o passar do tempo e com a nossa própria evolução enquanto sociedade, o tema fosse melhor esclarecido ou abordado com certa cautela. Mas o menu de obras que envolvem a antropofagia parece cada vez mais variado. O canibalismo esteve no Oscar®, em Cannes e agora em um dos maiores sucessos do streaming de todos os tempos.

Nem as estantes da Caveira escaparam impunes do banquete. Saboroso Cadáver é uma distopia da escritora argentina Agustina Bazterrica que nos apresenta a um mundo em que a carne animal se tornou mortal para os humanos e o canibalismo foi normalizado. 

Uma crítica semelhante, mas com uma abordagem disfarçada de comédia, é feita na série de animação BoJack Horseman. Lá, seres humanos e animais convivem em igualdade, com personagens antropomórficos. Porém, isso dá margem para cenas divertidas e desconfortáveis, como uma personagem suína que vai a um restaurante e na mesa ao lado é servida uma cabeça de porco. O desenho vai além quando dedica um episódio ao resgate de uma galinha que vai parar em um abatedouro mantido por… aves! Afinal, por que algumas delas teriam direito a uma vida com cidadania enquanto outras são destinadas ao abate?

Bojack Horseman
Netflix/Reprodução

Mais comum do que a gente imagina

A natureza não se importa com as nossas noções de “certo e “errado”, e prova disso é a presença constante de canibalismo no mundo animal. Há até pouco tempo atrás acreditava-se que ele ocorria somente em situações de estresse ou de escassez de comida. Porém, da década de 1970 para cá os cientistas começaram a descobrir que a prática é mais comum do que se imagina, como em uma espécie específica de sapo cujos girinos se alimentam de seus irmãos para poderem maturar antes que a água do seu lago seque e eles morram.

Mas na nossa cultura ocidental o tema permanece um tabu, replicado desde a época de Homero, passando por Shakespeare, Irmãos Grimm, Daniel Defoe e o próprio Freud. Isso influenciou até mesmo a relação dos europeus com os nativos americanos nos tempos colombianos. Apesar de ter levado à rainha um primeiro relatório de que os nativos do novo continente eram pacíficos e que deveriam ser tratados com respeito, Cristóvão Colombo e companhia passaram a descrevê-los como canibais a partir da segunda viagem à América.

Como eles não tinham encontrado todo o ouro que esperavam, o próximo “produto” possível com as colônias seriam escravos. A partir daí começaram as associações com o canibalismo, com o intuito de desumanizar aquelas pessoas, abrindo caminho para o extermínio dos povos, a tomada de suas terras e, por fim, a escravidão.

Apesar do tabu, não são poucos os casos relatados de “canibalismo de sobrevivência”, quando a única possibilidade de alimentação seria outro ser humano. Um dos casos mais conhecidos é o da Tragédia dos Andes, quando os poucos sobreviventes de uma queda de avião se alimentaram dos passageiros que morreram com o impacto. 

acidente andes
Arquivo pessoal/National Geographic

Encontrados quase dois meses após o acidente, os 16 sobreviventes não foram tratados como heróis quando as pessoas descobriram como eles sobreviveram por tanto tempo. Porém, algum tempo depois um dos sobreviventes declarou que acreditava não haver problema na antropofagia pois era isso o que se fazia na missa, ao comungar do corpo e do sangue de Cristo.

Sim, há uma premissa canibal até mesmo na Igreja Católica. O ritual de consagração da eucaristia é chamado de transubstanciação, ou seja, significaria a transformação da hóstia no corpo de Jesus Cristo e do vinho em seu sangue. Embora hoje todo mundo já veja isso mais como uma metáfora, a transubstanciação já foi mais levada a sério em tempos passados, e ninguém parecia se importar muito em estar comendo o corpo e bebendo o sangue de outra pessoa — há até uma menção bem explícita a isso no filme Mãe!.

De modo geral, podemos dizer que o fascínio da humanidade sobre o canibalismo se alimenta (trocadilho intencional) justamente do tabu em torno do tema. Ele é como aquele filme para adultos que você não deveria ver quando criança, e a própria proibição era o que te instigava a querer saber sobre o que se tratava. Protegido pelo véu da ficção e do entretenimento, o canibalismo não pode nos fazer mal, então qual seria o problema de dar uma espiadinha, não é mesmo?

Um futuro canibal seria tão irreal assim?

Entre o tabu e o fascínio, há alguma chance de a humanidade se render ao canibalismo, como ocorre em Saboroso Cadáver? Para o zoólogo Bill Schutt, autor do livro Cannibalism: A Perfectly Natural History [Canibalismo: uma história perfeitamente natural], essa possibilidade talvez possa ocorrer por causa do aquecimento global

Apesar da hipótese alarmante, Schutt disse à National Geographic que essa associação deve ser vista com cautela. “Não quero que isso soe como uma afirmação de que vai acontecer. Mas se você olhar para os principais motivos pelos quais o canibalismo ocorre na natureza, geralmente é por causa da superpopulação ou escassez de alternativas nutricionais”, explica.

Para ele, no Ocidente há uma forte camada cultural que evitaria o canibalismo. No entanto, o zoólogo relembra que até mesmo humanos já recorreram a isso em tempos de fome generalizada. “Com todas as mudanças que estão ocorrendo por causa do aquecimento global, como a desertificação, não é ir longe demais pensar que o canibalismo possa ocorrer se grandes grupos de pessoas de repente ficarem sem comida.” Depois dessa Saboroso Cadáver ficou ainda mais assustador.

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saboroso cadáver

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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