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Cellar Dweller: Quando a imaginação se torna um risco

Arte, quadrinhos e muito terror

06/10/2023

Desde o início tudo nesse filme parece bastante inocente. O flashback de trinta anos, os quadrinhos em produção, a mão habilidosa, de traços firmes de um ilustrador competente. E nossa sensação de inocência é imediatamente interrompida pelo rosto pálido e inesquecível de Jeffrey Combs (que também cedeu vida ao dr. Herbest West de Re-Animator). Obviamente, redobramos nossa atenção ao vê-lo, e ficamos um pouco mais atentos ao notar o teor dos desenhos nos quadrinhos e seu material de pesquisa bastante… peculiar. 

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No caso desse filme, Jeffrey empresta sua interpretação insólita ao cartunista Colin Childress, que mantém o mesmo traço de obstinação de outros personagens encarnados pelo ator. E de repente percebemos que estamos dentro da imaginação desse talentoso cartunista que é prevenido: “Aquele que tem sabedoria não pensa na besta, pois nada no Inferno vive sem o consentimento do homem. Ai daqueles que dão forma à besta. Contemplar o mal é o mesmo que convidar o mal”.

Mas ele segue deixando sua imaginação fluir, e o monstro que desenha também está do lado de fora das páginas, vivo e rosnando e babando em seu pescoço, enquanto se ocupa de destroçar uma vítima.

cellar dweller

Conhecemos bem algumas histórias que ganham formas terríveis na mente de seus criadores, mas o que acontece quando elas decidem se libertar das mídias e dar um passeio pelo mundo real? Se você gostou dessa premissa, então vai adorar Cellar Dweller, um ótimo filme que acumulava poeira em muitas videolocadoras (não era o caso da Firestar, você sabe). Concebido em 1988 por John Carl Buechler, o longa que por aqui foi chamado de O Monstro Canibal (terrível, eu sei, mas tem sua valia) apostou e acertou em cheio em sua abertura, seja pela surpreendente premissa, seja pelo sempre eficiente Jeffrey Combs que funciona como um gacho por si só nesse início de filme.

cellar dweller

Após o ato inicial, a abertura com alguns créditos assume a estética dos quadrinhos, e essa parte também é bem interessante, ajudando no interesse pela trama principal. Obviamente, e apesar das muitas diferenças, lembramos muito das revistas de horror dos anos 1940-1960 e das suas releituras ao audiovisual Tales from The Crypt e Creepshow (esse último escrito pelas majestades Stephen King e George Romero), e esse é outro ponto muito positivo, pelo menos para esse que vos escreve.

cellar dweller

Trinta anos mais tarde, estamos em um táxi com uma nova protagonista, a incauta e destemida cartunista Debrah Farentino (interpretada por Whitney Taylor). A noite parece ansiosa por uma tempestade, Debrah recebe alguns avisos do taxista, mas mesmo com tantos argumentos, claro que ela salta do carro e vai direto para as mandíbulas do Instituto de Artes Throckmorton (que já tem em seu currículo um ou mais assassinatos).

cellar dweller

A estética segue bastante calculada, a captura das imagens, tudo remete a quadrinhos. Podemos sentir isso a cada movimento das câmeras, a cada olhar das atrizes e atores e na construção de cenário. Uma dessas atrizes, aliás, é a sempre irresistível Yvonne de Carlo, que foi responsável por seduzir toda uma geração de cinéfilos com suas interpretações sensuais, heroicas e provocantes. Nesse filme, uma Yvonne mais madura interpreta Sra. Briggs, a reitora do instituto Throckmorton.

Aos moldes de Suspiria, Debrah Farentino está no Instituto de Artes para uma entrevista, que pode ou não franquear sua admissão para a concepção de algumas histórias no estilo de seu maior ídolo, Colin Childress, e sua série icônica Cellar Dweller, ali mesmo, no instituto. Ambição bastante inspiradora, haja visto que Colin — ao que se sabe pelos jornais — enlouqueceu, matou uma mulher a machadadas e ateou fogo em si mesmo no porão do instituto, onde costumava trabalhar.

cellar dweller

“Tudo isso é bastante assustador, mas o que isso tem a ver com arte?”

Embora deixe clara a sua insatisfação com a permanência de Debrah nessa espécie de “colônia de artistas”, a matriarca no comando, senhora Briggs, é pressionada a concordar com a permanência da jovem artista pelo conselho administrativo, então ela lhe apresenta o lugar e algumas peculiaridades de antigos e novos moradores. Como era de se esperar, Debrah rapidamente ingressa em sua imaginação, que parece tão nítida e perigosa quanto a de seu falecido ídolo.

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Outro ponto interessante do filme é o inter-relacionamento entre os artistas, uma verdadeira “casa dos artistas”, mas que vale nossa atenção e audiência (risos). A colônia alberga pintores, dramaturgos, atores, artistas plásticos e cinegrafistas, que convivem em uma espécie de inexata harmonia (outro bom ingrediente desse filme). Debrah, por exemplo, reencontra sua desafeto Amanda morando na mesma casa.

Como era de se esperar, os atritos entre as duas logo começam a despontar, e acontece o mesmo com a curiosidade de Debrah em relação ao porão, antigo local de trabalho de seu grande ídolo. A partir desse ponto, ultrapassamos a barreira da imaginação e penetramos em um pesadelo de olhos abertos. O ponto de não retorno se dá quando ela visita o cômodo-mausoléu, apropria-se do livro satânico que também serviu de inspiração a Colin Childress, e consegue uma autorização de Briggs para trabalhar lá embaixo.

cellar dweller

O filme possuiu uma boa atmosfera, composta pela ambientação, cenários simples e convincentes, e por uma trilha sonora discreta e bem pautada, além de uma atuação bastante razoável dos atores mais novatos (os veteranos dão um show). A metalinguagem também é um poderoso bônus, que frequentemente nos transporta entre a realidade da artista na casa e seu mundo imagético dos quadrinhos.

cellar dweller

Também é um ponto de destaque, e um dos grandes, o protagonismo das atrizes, que assumem o primeiro plano da trama em quase todos os momentos (esse “quase” é por conta do comecinho com Jeffrey Combs). A administração do instituto, as principais artistas da colônia, a protagonista positiva e sua antagonista, todas são atrizes que garantiram a longevidade e a iconicidade desse filme ao longo dos anos. Os homens assumem apenas personagens secundários, ainda que não exista um massacre a eles ou uma ridicularização do masculino, apenas uma ausência de protagonismo — o que parece ter funcionado muito bem entre os cinéfilos da época.

Cellar Dweller é um filme de monstros, mas também excede muito essa classificação, tornando-se uma estranha ópera criada por muitos compositores e brincando com a imaginação e suas intrincadas maneiras de se manifestar no mundo real. Os efeitos especiais, bem como a própria criatura que faz “o trabalho sujo” não são exatamente brilhantes, mas com um pouco de imaginação, eles irão atender perfeitamente as exigências dos verdadeiros fãs de horror. O gore em algumas mortes é bastante pungente, obviamente um deleite, e essa parte vocês me contam depois. Ah, e muita atenção ao final desse filme, que fica aberto a algumas interpretações interessantes.

Agora deixo vocês à vontade para o que sua imaginação comandar, mas a minha sugestão é apertar logo esse play, antes que a maldição decida despertar de seu cochilo nada eterno. Afinal de contas, o outro lado previne: “Onde quer que haja imaginação, eu irei habitar”.

Não esquecemos do trailer não! Confere aqui:

E aqui:

LEIA TAMBÉM: SLEEPAWAY CAMP: ADOLESCENTES, ASSASSINATOS E TABUS

Sobre Cesar Bravo

amplificador cesar bravoCesar Bravo é escritor, criador de conteúdo e editor. Pela DarkSide® Books, publicou Ultra Carnem, VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, DVD: Devoção Verdadeira a D., 1618 e Amplificador.

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