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Como o Horror de Coração das Trevas influenciou Apocalypse Now

Filme clássico de Francis Ford Coppola transportou temática de Joseph Conrad ao Vietnã.

No final do século XIX, após um longo período de exploração belga no Congo, o capitão Marlow precisou descer o rio para resgatar um gerente de posto de comércio chamado Kurtz. Esta é a história central de Coração das Trevas, clássico da literatura escrito por Joseph Conrad após uma experiência pessoal assombrosamente semelhante.

Na década de 1960, o capitão Willard (Martin Sheen) precisou navegar um rio no Vietnã em busca do coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando). Esta história ficou imortalizada no cinema pelo diretor Francis Ford Coppola através do filme Apocalypse Now.

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O local e o contexto histórico podem ser totalmente diferentes, mas as semelhanças entre Coração das Trevas e Apocalypse Now não são mera coincidência. Coppola se inspirou amplamente na obra de Conrad para conduzir a trama do longa, lançado em 1979 – poucos anos depois da guerra dos Estados Unidos com o país asiático ter se encerrado.

Apesar do livro não ser creditado no roteiro, o que faz com que poucas pessoas pensem no filme como uma adaptação, há muito de Coração das Trevas no longa. A jornada do protagonista, as características do rio em si e até mesmo o nome do homem que seria resgatado. Entre semelhanças e diferenças, a missão de Coppola era trazer a reflexão do clássico de Conrad para o contexto da Guerra do Vietnã.

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Coração das Trevas x Apocalypse Now: Semelhanças e diferenças

As referências utilizadas pelo cineasta não negam a influência da obra de Joseph Conrad, apesar de não ser uma adaptação fiel. A jornada em um barco através de um rio que levará aos extremos de outra civilização é completamente emprestada da estrutura do livro. Focar nesta viagem como uma missão para resgatar um homem importante, mas que acabou se “corrompendo”, é utilizar o conceito central de Conrad, inclusive mantendo as características de Kurtz: sua calvice, sua apresentação como uma “voz desencarnada” e, claro, o seu nome.

Além de Kurtz, muitos dos demais personagens também têm suas raízes em Coração das Trevas: o fotojornalista interpretado por Dennis Hopper é uma versão do arlequim russo e o piloto negro do navio é uma reencarnação do timoneiro de Conrad. 

Apesar da distância entre o Congo e o Vietnã, a ambientação da jornada de Apocalypse Now se aproxima bastante do livro: o aspecto de serpente do rio, a névoa pesada que recai sobre eles antes de entrarem no complexo de Kurtz e a iluminação contrastante do filme como um todo.

Tanto em Apocalypse Now como em Coração das Trevas a jornada central é tanto literal quanto metafórica. Ela revela os impulsos destrutivos da suposta civilização ocidental sobre outros povos, além de ser uma viagem de descoberta das profundezas do coração humano e de sua capacidade de fazer o mal.

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De Marlow a Willard e a relação com Kurtz

Algumas características do protagonista foram mantidas, enquanto outras soam completamente diferentes nas comparações entre o livro e o filme. Tal qual Coração das Trevas, o personagem principal é um observador que também serve como narrador da história. Originalmente o papel de Willard seria interpretado por Harvey Keitel, que já era um ator bem-estabelecido no final da década de 1970. Porém, Francis Ford Coppola tomou a ousada decisão de substituí-lo por um rosto menos conhecido, para que ele pudesse ter uma participação mais passiva na história. Foi assim que Martin Sheen conseguiu o papel.

Marlow também é um observador no livro, narrando tudo o que ele viu nas selvas do Congo. De maneira semelhante, Willard tem o mesmo fascínio mórbido com Kurtz que Marlow tem, com um impulso atraindo-o ao objeto da jornada, no lugar do medo que ele poderia sentir pelas histórias que ouviu sobre ele. A natureza mais passiva do personagem faz com que o público – tanto do livro como do filme – veja os acontecimentos através dele.

Porém, há algumas diferenças entre Marlow e Willard. Enquanto o narrador do livro é comparado com um bom Buda, que aprendeu com o seu passado, Willard ainda está lutando com seu passado, tentando esquecê-lo através da bebida. Apesar da experiência de Marlow com Kurtz ter sido dolorosa, o filme dá a ideia de que afetou mais Willard: ele é um soldado deprimido que quer tirar a própria vida e que em um determinado momento se identifica muito com Kurtz, considerando seriamente se juntar ao seu reinado de loucura.

O propósito da missão é diferente entre as obras. Em Apocalypse Now Willard é enviado em uma missão para neutralizar Kurtz, pois as forças armadas sabiam da insubordinação do coronel. No livro, Marlow só precisava explorar o que estava acontecendo nas profundezas da selva.

Mais do que um filme de guerra, uma reflexão sobre o conflito

Francis Ford Coppola recorreu a Coração das Trevas porque estava insatisfeito com o roteiro de John Milius – que também teria sido inspirado no livro. Quando o diretor iniciou as filmagens com aquela versão do roteiro, ele passou a mudar tão drasticamente os eventos do filme que não foram poucas as ocasiões em que os atores recebiam scripts de cenas assinaladas como “desconhecidas”.

O roteiro de Milius seguia mais o formato dos típicos filmes de ação de Hollywood: ele começava com Willard trabalhando como guarda-costas em um iate, contando sua história da guerra aos passageiros a bordo. Os personagens também tinham personalidades e falas diferentes.

A principal mudança de um roteiro para o outro foi o final. Originalmente o filme encerraria com aeronaves, bombardeios e o complexo de Kurtz em chamas. Em vez disso, Coppla optou por um final ambíguo com o mínimo de violência possível. Apesar da ação final de Willard, o longa termina de forma mais silenciosa.

A escolha por este outro final vai ao encontro do objetivo de Coppola para o filme. Ele não queria uma simples produção sobre o conflito, mas sim um desfecho mais filosófico e de acordo com diálogos travados anteriormente ao longo do filme. A parafernalha de Milius não faria sentido diante do silencioso poder da presença de Kurtz.

Enquanto Coração das Trevas é uma crítica ao colonialismo europeu sobre a África, Apocalypse Now adaptou a reflexão ao apontar a falta de sentido da guerra e do imperialismo norte-americano. Histórias separadas por quase um século e com questionamentos tão pertinentes, até mesmo aos tempos atuais.

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Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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