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Conheça as histórias japonesas que inspiraram Contos de Horror da Mimi

Eventos sinistros e tradição literária se encontram no mangá de Junji Ito

“Baseado em uma história real.” Quem nunca sentiu um calafrio extra ao ler esse aviso em algum filme ou livro de terror? Se a realidade é capaz de ser tão assustadora quanto a ficção, Contos de Horror da Mimi está aqui para reforçar essa ideia. O horripilante mangá de Junji Ito tem raízes no mundo real e suas possíveis ligações com o sobrenatural. A edição publicada pela Caveira é a completa, com mais contos do que a versão de 2003.

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Adaptado de uma renomada obra de não ficção, o mangá tem em sua essência experiências vivenciadas por diversas pessoas no Japão. Contos de Horror da Mimi é a versão de Junji Ito para as histórias coletadas e compiladas por Hirokatsu Kihara e Ichiro Nakayama em Shin Mimibukuro

Mas antes de falar da obra de Kihara e Nakayama, vamos mergulhar um pouco mais fundo nas tradições de histórias sinistras no Japão.

Conheça a tradição das histórias kaidan

Embora às vezes seja traduzida de maneira simplista como “história de fantasma”, a palavra japonesa kaidan tem um significado mais amplo — que pode, é claro, incluir os fantasmas. Ela é formada pelos ideogramas kai e dan, que carregam respectivamente os significados de “mistério/estranho” e “relato/conversa”. Ou seja, kaidan refere-se a histórias que causam medo, estranheza, frequentemente relacionada a seres sobrenaturais, fantasmas e fenômenos misteriosos.

Esse tipo de enredo mexe com o imaginário do povo japonês desde os tempos antigos e deu origem à literatura kaidan, que teve início no período Muromachi (1338 a 1573) e se tornou bem popular no período Edo. O gênero rendeu clássicos como Shokoku Hyaku-monogatari (1677), Otogi Hyaku-monogatari (1706), Taihei Hyaku-monogatari (1732) e Ugetsu Monogatari (1776).

No fim do período Meiji (1868 a 1912), o intercâmbio com o Ocidente trouxe ao conhecimento dos japoneses o espiritismo ocidental, o que acabou dando um novo impulso à popularidade do kaidan

LEIA TAMBÉM: JUNJI ITO E NAGABE: TERROR E LIRISMO NO MANGÁ

Nessa época, muitos escritores usaram o tema em suas obras e promoveram encontros para realizar o hyaku-monogatari, uma espécie de jogo em que as pessoas se reúnem para contar histórias assustadoras e testar a coragem dos participantes. 

Nesse jogo realizado à noite, os participantes acendem cem velas, que são apagadas uma a cada vez que uma história assustadora é contada. Quando se completam cem histórias, todas as velas são apagadas, deixando o ambiente totalmente escuro e sujeito a acontecimentos estranhos — ou pelo menos é nisso que os participantes, apavorados a essas alturas, acreditam.

hyaku monogatari
Imagem de domínio público

A prática continua até hoje e tais histórias são contadas com mais frequência no verão, coincidindo com a época de Finados, quando, segundo a crença, os espíritos dos antepassados voltam para suas casas. Num sentido mais prático, os calafrios provocados pelas histórias ajudam a aliviar a sensação de calor do verão japonês.

Shin Mimibukuro: A obra que reuniu as histórias horripilantes

Hirokatsu Kihara e Ichiro Nakayama eram fascinados por kaidan e decidiram coletar o relato de diversas pessoas que vivenciaram eventos inexplicáveis cobertos de mistério. Eles foram compilados em Shin Mimibukuro, uma antologia de 990 histórias divididas em dez volumes de 99 contos. Cada volume é chamado de “noite”, em homenagem ao hyaku-monogatari.

Mas se na tradição original eram contadas cem histórias, por que cada volume de Shin Mimibukuro contém apenas 99? Lembra que sempre aconteciam eventos estranhos após a centésima história? Então, a limitação foi proposital, justamente para evitar que algo sinistro pudesse acontecer aos leitores.

Shin Mimibukuro chegou a ser adaptada para uma série de TV japonesa e para o cinema, dando início ao boom do J-horror, o subgênero de terror japonês nas telonas, na década de 1990.

Ringu
Ringu: Um dos filmes do j-horror que ficou popular no Ocidente com o remake O Chamado / Crédito: Basara Pictures

Os autores deram esse título com o intuito de honrar e continuar o legado de Mimibukuro, um extenso registro literário de um oficial samurai do período Edo chamado Negishi Yasumori. O trabalho reúne cerca de mil histórias curiosas e intrigantes referentes às pessoas da época, além dos próprios kaidan. Uma curiosidade: a palavra mimibukuro significa protetor de orelhas contra o frio em formato de bolsa.

As histórias sinistras chegam a Junji Ito

Impressionado pelas estranhezas do livro de Kihara e Nakayama, Junji Ito não pensou duas vezes quando surgiu a oportunidade de não apenas transformar os relatos em mangá, mas também conferir a eles seu toque de excentricidade. O mangaká soube da existência do original ao conceder uma entrevista para a revista Da Vinci e ficou admirado com aquelas histórias inexplicáveis. 

Segundo Ito, “as ‘ideias utilizáveis’ eram abundantes” em Shin Mimibukuro, superando até mesmo o seu caderno de insights, de onde ele afirma aproveitar apenas 10%, em média. Por isso, quando a revista Comic Flapper o procurou para adaptar a obra, ele não hesitou em abraçar a oportunidade.

Um de seus toques pessoais foi juntar os diversos relatos em uma única história e ampliar os episódios com bastante liberdade. Com isso, deu vida à adolescente Mimi e sua vida assombrada, com um enredo permeado pelas experiências misteriosas e apavorantes de Shin Mimibukuro

Contos de Horror da Mimi

Apesar de todas as liberdades tomadas por Junji Ito, o autor de Fragmentos do Horror rendeu justas homenagens ao original, incluindo a história “A Placa de Campo”, que é baseada na experiência vivida pelo próprio Ichiro Nakayama na época em que ele era universitário. O episódio foi adaptado de modo que a protagonista se depara com o evento misterioso quando ela passa por um caminho diferente no fim da tarde.

O resultado de Contos de Horror da Mimi é uma obra original, com raízes na realidade e honrando tradições seculares de contação de histórias do Japão. Um mangá horripilante feito sob medida para os mais destemidos darksiders.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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