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Por trás da tradução de O Médico e o Monstro e Outros Experimentos (Robert Louis Stevenson)

Em meados de 2017 encontrei por uma pechincha um volume usado dos contos completos de Robert Louis Stevenson, um de meus contistas favoritos; mal podia imaginar que no fim do ano o utilizaria para uma tradução. Eu o propus à DarkSide® Books assim que entreguei a tradução de O Mal Nosso de Cada Dia, de Pollock. Bruno, o editor, me respondeu que a editora já pensava em publicar O Médico e o Monstro, então me pediu que montasse um projetinho com os contos que poderiam acompanhar essa história. Embora eu seja um péssimo negociante, dessa vez, por instinto, incluí alguns contos que ainda não tinha lido, para salvaguardar os meus favoritos, caso pedissem para cortar itens da lista (mas avisei, e pesquisei a respeito de todos, que fique bem claro). Para meu espanto, alegria e desespero, aprovaram a lista completa.

Ironicamente, meu conto preferido do volume é um desses que incluí sem ter lido, “Olalla”. Também foi um dos mais complicados de traduzir. Minha tradução passa por várias etapas. Chamo a primeira de versão bruta, uma tradução braçal em que não tento resolver nenhum pepino, e deixo marcações nas dúvidas. Essa versão bruta foi feita em ordem aleatória, um arquivo por conto, que depois reuni em um único, para as etapas seguintes.

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Depois fiz uma limpeza em todas essas marcações. Nessa etapa vale tudo: leituras de suporte, consultas com profissionais de áreas variadas, pesquisa enciclopédica e em dicionários bilíngues, monolíngues, de sinônimos, de analogias. “Janet, a entortada”, escrito em dialeto escocês, ainda demandou a consulta a uma tradução para o inglês “normal”. Curiosamente, ao buscar a palavra “harkening” em um dicionário virtual enquanto traduzia “Olalla”, encontrei a própria citação do conto como exemplo ilustrativo.

Noun
harkening (plural harkenings)The act of one who harkens or listens. 
1. 1885Robert Louis Stevenson, “Olalla“The sight of his scared face, his starts and pallors and sudden harkenings, unstrung me […]

Num texto muito complicado, a etapa da limpeza pode ser repetida mais de uma vez. Num mais tranquilo, eu a incorporo com a do cotejo, em que comparo linha a linha a tradução com o original. Em tese, após o cotejo eu já tenho um texto legível, mas a etapa da leitura final da tradução, já desprendida do original, revela que sempre há melhoras possíveis. Nessa etapa também ajusto questões rítmicas, ortográficas e de formatação.

Durante esses meses, para escrever a Introdução, as notas e os paratextos, imergi na obra do autor e seus entornos de uma maneira que eu jamais fizera fora do âmbito acadêmico. Além da ficção de Stevenson, li também sua correspondência para Henry James, relatos de viagens, ensaios sobre a arte da escrita, um pouco de sua poesia, e dezenas de textos a seu respeito, entre eles o ensaio de Marcel Schwob (outro de meus contistas favoritos) presente no volume. Minha mesa estava um caos durante a escrita da Introdução. Meu Complete Stories caiu no chão e, pela primeira vez na vida, consegui quebrar um livro. 

Em abril de 2018, quando já estava na etapa do cotejo, comecei a cursar o excelente Programa Formativo para Tradutores da Casa Guilherme de Almeida (CGA), em São Paulo. Esse convívio me ajudou a pensar em como transmitir em português a estranheza de “Thrawn Janet”, conforme discorro na Introdução. E embora eu não tenha consultado nenhuma das traduções anteriores de Stevenson, na CGA descobri que não é antiético, na verdade é até recomendável, no limite do bom senso, conferir as traduções anteriores de um texto. Hoje, quando é viável, tento dar uma olhadela nas traduções preexistentes, inclusive para outros idiomas.

Após a primeira aula das Oficinas de Tradução em prosa da CGA, fui à comic shop Ugra para o lançamento de Cadafalso, de Alcimar Frazão, um de meus quadrinistas favoritos. Foi o dia da prisão de Lula, e o autor, que não me conhecia, me fez o autógrafo mais legal que eu tenho. Poucos meses depois, com a tradução entregue, voltei à Ugra para o lançamento de Samurai Shirô, de Danilo Beyruth, também publicado pela Caveirinha. Lá, me encontrei com o pessoal da editora e mencionei a história desse autógrafo a Bruno, o editor, e ele me contou que Frazão ilustraria o Stevenson. Quando o livro foi lançado, em outubro de 2019, tive a glória de matar uma garrafa de Vale Verde com o quadrinista.

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Embora tenha traduzido a obra de Pollock antes, O Médico e o Monstro e Outros Experimentos foi a minha primeira tradução publicada. Pouco antes do lançamento, Bráulio Tavares me contou que fazia anos que tentava em vão convencer editores a publicarem os contos menos conhecidos de Stevenson. Tavares, para quem não sabe, tem uma longa e respeitada carreira como ficcionista, poeta, compositor, antologista, roteirista, tradutor, editor, jornalista e sabe-se lá o que mais. Como é que eu, que só estava começando, conseguira esse feito?

Às vezes ainda volto à minha estante para confirmar que não é apenas um sonho.

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Sobre Paulo Raviere

Avatar photoPaulo Raviere nasceu em Irecê-BA, em 1986. Colaborou com o Blog do IMS e as revistas Pesquisa FAPESP, Barril, Serrote e Piauí. É editor da DarkSide®️ Books, pela qual também publicou traduções de obras de Robert Louis Stevenson, Bret Easton Ellis, Donald Ray Pollock, Clive Barker, Joseph Conrad, David L. Carlson e Landis Blair, entre outros. Tem mestrado em tradução pela UFBA e atualmente pesquisa e traduz a obra de Charles Lamb em doutorado na FFLCH-USP. Todos se Lavam no Sangue do Sol é seu primeiro romance publicado pela DarkSide®️ Books. Saiba mais em raviere.wordpress.com.

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4 Comentários

  • Pablo

    9 de agosto de 2021 às 18:06

    Amigo, essa edição tem TODOS os contos do Stevenson?

    • Avatar photo

      DarkSide

      10 de agosto de 2021 às 14:41

      Oie Pablo!

      Para honrar o trabalho do mestre Robert L. Stevenson, a Caveira selecionou alguns dos contos do autor para quem quer conhecer ou revisitar seu talento inigualável. Os contos presentes nessa edição são: “Markheim”, “O Apanhador de Corpos”, “Olalla” e “Janet, a Entortada”), sem falar nos contos de mistério e aventura (“A Praia de Falesá”), e fantasia (“O Demônio da Garrafa”, “A Ilha das Vozes”). Depois me conta o que achou da leitura

  • Pablo

    11 de agosto de 2021 às 03:22

    Já encomendei meu exemplar. Obg.

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