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O Retrato de Dorian Gray e a nossa obsessão pela juventude

Quem você seria se pudesse se manter jovem para sempre?

Já diria a canção do Queen: Who wants to live forever? (quem quer viver para sempre?). Mas não basta apenas ser eterno, é preciso se manter jovem neste processo. Pelo menos é o que a sociedade nos diz todos os dias, ao prometer cosméticos que previnem rugas, alimentos que supostamente retardam o envelhecimento, tinturas para cabelos grisalhos… ao que tudo indica, ser bonito é ser jovem.

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Mesmo com a expectativa de vida mais alta já alcançada pela humanidade, ainda sentimos que há algo de constrangedor em envelhecer. Repetimos para nós mesmos que os 40 são os novos 30, os 30 são os novos 20 e assim por diante. Mas basta o primeiro fio branco ou a primeira linha de expressão para nos sentirmos, de certa forma, desapontados.

O que Dorian Gray tem a nos dizer sobre o culto à juventude

Apesar de tudo parecer mais intenso hoje em dia por causa da internet e das redes sociais, esta obsessão com a juventude vem de muito tempo atrás, quando as pessoas de fato viviam muito menos do que hoje. Este é um dos temas centrais explorados por Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray. A trágica ironia é que Wilde viveu apenas até os 46 anos.

Em sua obra mais famosa, o escritor conta a história do jovem Dorian Gray, de apenas 19 anos, que vive com muitos privilégios na Londres vitoriana. Ele tem seu retrato feito por Basil Hallward e, influenciado pelos prazeres da vida hedonista de Lord Henry Wotton, conclui que a beleza e a própria satisfação são as únicas coisas pelas quais vale a pena viver.

Tomado pela ideia de que sua beleza desapareceria com o tempo, ele faz um pacto faustiano: viveria para sempre com sua aparência imortalizada no retrato, enquanto sua imagem no quadro envelheceria em seu lugar. Com sua juventude intocada, Dorian passa a se dedicar a uma vida perversa, devassa e até mesmo criminosa.

Dorian Gray – Créditos: Divulgação

Não é por acaso que a maioria de suas representações o colocam ao lado de personagens de obras como Frankenstein ou O Médico e o Monstro. A certeza da juventude (e da beleza imortal) corrompe Dorian, que começa a agir reforçado pela busca do prazer e com a impunidade de alguém que nunca poderá ser realmente responsabilizado por suas ações.

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Aliás, há outros seres das trevas bem conhecidos por sua imortalidade e pela capacidade de se manter jovens e belos: vampiros. Seja pela aparência por vezes sedutora de Drácula, os vampiros galãs de Entrevista com o Vampiro e até mesmo pela juventude inabalável de Edward Cullen em Crepúsculo, não envelhecer é um atributo que instantaneamente lhe transforma em uma espécie de monstro. 

Afinal, você já parou para pensar em como se comportaria se a sua aparência não se abalasse diante da passagem do tempo?

A beleza e juventude que nos é cobrada o tempo inteiro

Saindo da Era Vitoriana de Dorian Gray, as cobranças de juventude nunca cessaram. Pelo contrário, apesar de ser um processo natural, envelhecer é encarado quase como um crime, um atestado de que você não se encaixa mais neste mundo jovem e vibrante de tecnologia e mudanças constantes.

A cobrança é ainda mais forte quando falamos de mulheres. Há toda uma indústria dedicada a disfarçar ou tentar retardar os efeitos do tempo para elas. Os principais atributos físicos considerados atraentes em mulheres têm relação com a sua fertilidade ou excitação sexual: quadris largos, seios fartos, lábios vermelhos e carnudos. 

Com a idade, as possibilidades reprodutivas das mulheres vão se reduzindo até cessarem por completo. E é aí que entram os produtos que prometem eterna juventude. Aliás, eles entram muito antes, em uma busca incessante por padrões de beleza cada vez mais inatingíveis.

Para os homens a cobrança também existe, mas ainda não chega ao mesmo patamar. Basta ver filmes, séries e novelas: homens mais velhos conseguem papéis de galã por um bom tempo, enquanto as mulheres têm uma janela de tempo muito menor para figurar no papel de heroína ou de interesse amoroso.

O papel da internet nesse culto à juventude

Tudo isso, é claro, já existe muito antes da internet, mas como as redes sociais parecem tornar tudo mais intenso, não seria diferente com as cobranças de beleza e juventude. Filtros aplicados às câmeras de celulares dão uma imagem cada vez mais irreal da verdadeira aparência dos outros, jogando a cobrança pela beleza para patamares cada vez mais inalcançáveis.

Outras ferramentas que também despertam sentimentos contraditórios são as lembranças de aplicativos como Facebook, Instagram e Google Photos. A nostalgia de ver imagens nossas dos últimos anos pode trazer tanto a satisfação de ter vivido bons momentos, como a ansiedade de ver que você estava mais jovem, mais magro ou que tinha uma vida mais emocionante naquela época. Mas você faria um pacto para voltar a ser a pessoa que aparece naquela foto? Abrindo mão de toda a experiência e maturidade que adquiriu desde então?

Isso para falar apenas da aparência, que costuma ser sinônimo da juventude. Mas não só ela: pela primeira vez temos duas gerações predominantes na internet, além de uma terceira e quarta que figuram entre as minorias. Millennials e Geração Z discutem sobre o que é considerado legal e o que já saiu de moda, na famosa conversa sobre o que é cringe, que dominou as redes há alguns meses (aliás, já é cringe falar essa palavra?). Geração X e Baby Boomers respiram aliviados por não serem mais o motivo do bullying digital.

BTS STILL PHOTOGRAPHY

A verdade é: ninguém gosta de saber que em algum lugar há algum grande cronômetro com uma contagem regressiva para o fim dos “bons tempos”, ou até mesmo para a sua vida. Ninguém gosta daquele fio de cabelo branco, daquela papada debaixo do queixo, daquela nova linha no meio da testa ou de constatar que está mais perto dos 50 do que dos 20.

Tentar ignorar o nosso processo de envelhecimento é querer escapar de uma das duas grandes certezas da vida: nós vamos morrer (a outra certeza é a pilha de louça para lavar). Mas a partir do momento em que aceitamos a nossa própria mortalidade e passamos a entender a passagem do tempo como “um dia a mais” em vez de “um dia a menos”, estamos mais próximos de compreender que os tais “bons tempos” também ocorrem hoje. Pensar desta forma teria evitado muitos problemas a Dorian Gray.

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Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

1 Comentário

  • Mariene

    8 de setembro de 2021 às 06:10

    Sempre um prazer pra mim, as reflexões desse site, que adoro.

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