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Os seis degraus

Por trás da tradução de Psicopata Americano (Bret Easton Ellis)

Numa quarta-feira de fevereiro de 2019 tirei um dia de folga aleatório. Já me demorava demais na tradução de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, obra de dificuldade inversamente proporcional à sua curta extensão, que eu começara sem um prazo definido e não tinha previsão de terminar. O processo da tradução, em minha experiência, tem alguns degraus: 1) convite (euforia), 2) trabalho (desespero), 3) conclusão (alívio), 4) anúncio (euforia) e 5) recebimento (alívio). O sexto e último degrau seria conferir a reação do público, mas se sujeitar a isso é se submeter a um novo desespero.

LEIA TAMBÉM: COMO O HORROR DE CORAÇÃO DAS TREVAS INFLUENCIOU APOCALYPSE NOW

Eu estava no degrau-desespero do Joseph Conrad, quando meu primo Marcelo, que investia na produção de licor caseiro, combinou de comprar alguns toneis de cachaça artesanal em Seabra, uma cidade da Chapada Diamantina, e me convidou para ajudá-lo na transação. Apesar do trabalho e de ser meio de semana, eu não poderia perder a chance de participar da compra de 150 litros de pinga, oportunidade que provavelmente jamais se apresentará de novo em minha vida. Mas a grandiosidade da coisa ainda guardava um detalhe obscuro: minha incumbência era provar da cachaça e dizer se a compra valia a pena. Trocando em miúdos: eu deveria avaliar um original.

Feita a compra, em vez de voltar para casa, esticamos a viagem até o Capão, exuberante vilarejo encrustado entre os vales da Chapada. Matamos algumas rodadas de bebidas artesanais locais antes de almoçar. Embora não estivéssemos bêbados, não poderíamos voltar dirigindo na mesma hora, por isso fizemos uma trilha até uma das cachoeiras da região.

Quando voltamos para casa já estava anoitecendo, e somente na metade da estrada consegui sinal de internet. Descobri que algumas horas antes havia recebido o convite para traduzir Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, obra que eu conhecia, inclusive possuía, porém jamais tinha lido ou mesmo assistido ao filme. Um dia glorioso encrustado em um vale de anos infames.

LEIA TAMBÉM: PSICOPATA AMERICANO: UMA REFLEXÃO PARA OS DIAS ATUAIS

Como Psicopata Americano tinha prazo, interrompi a tradução do Conrad na quinta-feira. Poucas semanas depois, voltei a Sampa, onde atravessei a maior parte do segundo degrau do Ellis. Cada livro tem suas complicações específicas, e mesmo a suposta simplicidade pode ser sua dificuldade tradutória. No caso de Psicopata Americano, não há simplicidade: Patrick Bateman desastra a mencionar nomes de marcas e detalhes materiais de roupas, produtos de beleza, comidas esdrúxulas, aparelhos de academia, equipamentos eletrônicos dos anos 1980, coisas que ignoro completamente e que me demandaram uma pesquisa exaustiva.

Ainda por cima, essas minuciosas descrições são apenas um dos elementos de uma narrativa experimental em que os estilos e gêneros variam a cada capítulo: fluxo de consciência, crítica musical, surrealismo, witticisms, linguagem televisiva, de filmes de ação, paródias, chistes, trocadilhos, e descrições igualmente minuciosas de exercícios físicos, eventos chiques, sexo e ultraviolência.

Enquanto isso, na Bahia, Marcelo deixou de lado os licores caseiros, montou uma destiladora, e passou a testar a cachaça numa infusão de zimbro e casca de imbu que ele batizou de “gimbu”. Recebi uma garrafa poucas semanas antes de concluir a tradução, e foi com essa rara bebida que brindei cada um dos degraus restantes de Psicopata Americano: pela conclusão, pelo anúncio, pelo recebimento. Restava-me ainda uma última dose, reservada ao degrau que eu preferia evitar: um brinde ao público!

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Sobre Paulo Raviere

PAULO RAVIERE nasceu em Irecê, Bahia, em 1986. Tem mestrado em tradução pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atualmente cursa o doutorado na FFLCH/USP. Colaborou com o Blog do IMS e as revistas Pesquisa FAPESP, Barril, Serrote e Piauí. Traduziu O Médico e o Monstro e Outros Experimentos (Robert Louis Stevenson), Antologia Macabra (Hans-Åke Lilja), Psicopata Americano (Bret Easton Ellis), O Mal Nosso de Cada Dia (Donald Ray Pollock), Livros de Sangue (Clive Barker), Coração das Trevas (Joseph Conrad), todos publicados pela DarkSide® Books. Saiba mais em raviere.wordpress.com.

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