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Por que estamos obcecados por true crime?

Não é de hoje que casos violentos despertam o nosso interesse

Podcasts, documentários, minisséries, filmes… a lista de produtos true crime é longa e vasta. Mas uma coisa é certa: histórias reais de crimes estão na moda e caíram no gosto coletivo. Um bom exemplo é o sucesso inesperado de séries que recriam casos famosos e figuram entre as mais assistidas nos serviços de streamings, como é o caso de Dahmer: Um Canibal Americano. Nesse boom de conteúdo true crime, não podemos deixar de nos questionar: o que levou a essa atração? Ela sempre existiu ou é algo recente? 

LEIA TAMBÉM: 10 DOCUMENTÁRIOS SOBRE CRIMES REAIS

Desde os tempos bíblicos o ser humano tem uma fascinação mórbida por histórias de assassinatos e pela punição dos indivíduos responsáveis por eles. Isso faz sentido, considerando que um dos nossos maiores medos é a morte e não sabemos muito sobre ela. Histórias sobre ela são assim, de certa forma, uma maneira de espiarmos pelo buraco da fechadura de um lugar que permanece inacessível para nós… enquanto estivermos vivos, é claro.

As raízes do true crime em si podem ser encontradas no século XV com a invenção da imprensa. Naquela época eram comuns as execuções públicas de criminosos, principalmente pela forca. Com a invenção da máquina de impressão por Gutenberg, por volta de 1439, comerciantes da área começaram a fabricar e vender cartazes que eram exibidos durante as execuções e detalhavam os crimes cometidos. Esses cartazes geraram um negócio lucrativo e acabaram mudando de forma, tornando-se panfletos que alcançavam um público muito maior do que o presente na execução. Esse tipo de leitura se tornou muito “querida” pelo clero, que enxergavam nessas histórias uma narrativa moral a ser passada adiante para os fiéis

Outro antepassado famoso do true crime foram os penny dreadfuls, populares na Inglaterra vitoriana do século XIX. Essa literatura mais barata era publicada semanalmente em capítulos que custavam um centavo e se tornou famosa por trazer histórias de detetives, criminosos e até mesmo entidades sobrenaturais

crimes vitorianos macabros

O fascínio por histórias de assassinatos e crimes não é algo recente. O que mudou ao longo do tempo foi o formato que essas narrativas foram adquirindo, muito influenciado pelo contexto da sociedade, pelas suas mudanças e, claro, pelo seu desenvolvimento tecnológico. A partir da metade do século XX, com os canais de notícias 24h e programas jornalísticos sensacionalistas, surgiu uma nova forma de consumir e produzir material sobre crimes reais, que deixou um legado para o conteúdo produzido atualmente. 

O aumento da produção atual, que passa a sensação de que estamos obcecados por true crime, é o reflexo da oportunidade de mercado aliado ao interesse das pessoas, que mostram que existe um nicho a ser explorado, além de uma maior facilidade em acessar essas histórias. Muito do true crime produzido hoje se beneficia de uma mentalidade mais crítica e sensível, que se afasta do sensacionalismo e preconceitos de épocas passadas, e da possibilidade de acessar arquivos e a cobertura feita pela mídia na época do caso, além de possuir uma aliada que pode ser uma faca de dois gumes: a internet

Existe explicação para gostarmos tanto de true crime?

A Caveira possui uma marca inteira dedicada ao gênero, a Crime Scene®. Toda semana temos novos episódios de podcasts e vídeos no YouTube sobre o assunto. Sempre existe algum lançamento de documentário ou série esperando para ser visto. Mas o que explicaria nossa obsessão por true crime?

Segundo os neurologistas, consumir esse tipo de conteúdo no conforto e segurança do nosso lar libera adrenalina de forma estimulante. É quase a mesma sensação de quando assistimos a um filme de horror ou algum esporte extremo. Não existe “perigo real”. Para psicólogos, o true crime é mais popular entre as mulheres porque funciona como um instinto de sobrevivência e uma forma de ficar alerta aos sinais de perigo, apaziguando ansiedades em relação a isso. 

Dahmer
Netflix/Divulgação

Mas, para além dos motivos individuais, existe um aspecto coletivo em torno dessa obsessão. Isso diz muito sobre nós enquanto sociedade. Colocar crimes em estruturas narrativas lineares e explicativas é uma forma coletiva de lidar com esses eventos trágicos, violentos e incômodos, que nos fazem questionar nossa visão de mundo e a própria humanidade em si. Afinal, somos confrontados com atos cruéis feitos por seres humanos como nós.

O true crime é muitas vezes uma resposta a esses eventos que perturbam a ordem coletiva, funcionando como um ritual de cura, que ajuda a sociedade a se recuperar e entender o que aconteceu e por quê. Desta forma, essas narrativas não falam apenas sobre os crimes, mas também sobre as sociedades que as criam e consomem. O conteúdo true crime diz muito sobre nossos valores e crenças enquanto comunidade.

Qual é o problema, então?

Como tudo nessa vida, existem pontos positivos e negativos no true crime. 

Muitas narrativas assumem papéis importantes em descobrir os verdadeiros culpados de determinados crimes, denunciar injustiças e preconceitos ou até mesmo em examinar o sistema judiciário, por exemplo, apontando como criminosos podem escapar quando têm dinheiro e status social ou como facilmente uma pessoa inocente pode ser acusada. 

Muitos programas e podcasts impactam positivamente o andamento de alguns casos.  Isso aconteceu com o documentário The Jinx, da HBO, que focou em Robert Durst, que finalmente foi preso pelo assassinato de Susan Berman um dia antes do episódio final ir ao ar. Já o podcast Serial ajudou a levantar a discussão sobre a inocência de Adnan Masud Syed no caso do assassinato de Hae Min Lee. No Brasil, o podcast O Caso Evandro trouxe uma nova luz ao caso e reconhecimento das injustiças sofridas pelas pessoas acusadas. 

A atual “obsessão” por true crime também levou à criação de comunidades na internet, que se engajam em investigações independentes e trocam resultados, o que pode levar a desfechos positivos, como foi relatado no documentário da Netflix Don’t F**k with Cats: Uma Caçada Online. Grande parte dessas comunidades possui boas intenções e desejam resolver os crimes, encontrar desaparecidos e chamar a atenção para erros e injustiças.

don't f with cats
Netflix/Divulgação

Muitos ouvintes e espectadores, por exemplo, afirmam encontrar consolo nessas narrativas. Por mais estranho que isso possa parecer, é muito mais comum do que se imagina. Durante tempos de sublevação social e incertezas, o true crime ajuda a “acalmar” e fornece uma certa ilusão de controle. Ver as injustiças serem investigadas e às vezes resolvidas pode ser satisfatório e reconfortante, principalmente em um mundo cada vez mais imprevisível. 

Contudo, nem tudo são flores e existe um lado mais sinistro. Por vezes, o true crime se situa entre o que realmente aconteceu, que não conseguimos acessar completamente porque não estávamos lá, e o que achamos que aconteceu, que podemos teorizar sobre. Na internet, por exemplo, isso leva a casos sendo abordados de maneira sensacionalista e pouco respeitosa. As explicações podem cair em teorias da conspiração, tendo efeitos devastadores em pessoas inocentes, além de desrespeitarem as vítimas e seus familiares, reforçando estereótipos e preconceitos.

Como produzir e consumir true crime de maneira consciente?

Em um mundo cada vez mais conectado e com acesso a informações e produtos sobre crimes e casos reais, é impossível não se questionar: como consumir e produzir tudo isso de forma consciente? 

Para Mabê Bonafé, escritora, roteirista e podcaster no Modus Operandi, consumir e produzir conteúdo sobre crimes não é o problema. A grande questão é como falamos sobre eles, ou seja, a maneira como conduzimos e absorvemos essa discussão. 

Segundo a podcaster, é imprescindível atentarmos para como a sociedade da época funcionava. Qual o contexto social, histórico, racial e legal, para assim compreendermos como aquilo que aconteceu foi possível a entendermos como foi percebido pela coletividade. Mabê aponta que o distanciamento é necessário para falarmos com responsabilidade sobre um crime. A podcaster conta que não aborda histórias recentes. Se o caso aconteceu hoje, não é possível falarmos dele de forma responsável, pois não sabemos direito o que aconteceu, não tivemos julgamento, nem pesquisa ou investigação, o que pode ser perigoso. 

LEIA TAMBÉM: 5 AUTORES TRUE CRIME QUE ACOMPANHARAM OS CASOS DE PERTO

true crime

Jey Carrillo, física e podcaster no Mundo Freak Confidencial, aponta que precisamos lembrar que true crime é além de tudo um gênero informativo, que existe para contar histórias reais que precisam ser conhecidas, seja como um alerta ou para que os culpados sejam responsabilizados. Ela também pontua que pessoas de verdade estavam envolvidas e deixaram entes queridos para trás, sendo muito importante saber se a família autoriza a divulgação da sua história e a forma pela qual ela vai ser contada

Já para as apresentadoras do podcast 1001 Crimes, Bruna, Fabi e Jéssica, é importante produzir e consumir esse tipo de conteúdo não apenas pelo entretenimento, mas também para trazer debates pertinentes sobre o tema. Segundo elas: “Discussões sobre racismo, machismo, saúde mental e até a eficácia dos sistemas penais são essenciais para entender que esses crimes não acontecem em um vácuo”. Desta forma, é possível entender o que nós, enquanto sociedade, precisamos melhorar para prevenir que essas violências aconteçam

Crime Scene® Academy: Junte-se à brigada investigativa da Caveira

Para os leitores interessados em true crime, a Caveira tem orgulho de sua divisão literária de investigação, situada na marca Crime Scene®. São títulos dedicados a histórias e crimes reais, abordados por especialistas e autoridades no assunto de forma íntegra e respeitosa. Aqui o DarkSider encontra importantes obras investigativas de casos que impactaram o mundo, como Jim Jones Profile: Massacre em Jonestown, Columbine, Manson: A Biografia, Ted Bundy: um Estranho ao meu LadoBTK Profile: Máscara da Maldade.

Para aqueles que desejam saber mais sobre casos brasileiros, a Caveira também é a casa de Ilana Casoy, criminóloga, escritora e madrinha da marca Crime Scene®. Casoy publicou obras, como Arquivos Serial Killers e Casos de Família, que analisam histórias que chocaram o Brasil. 

crime scene ilana casoy

LEIA TAMBÉM: ILANA CASOY, REFERÊNCIA NO TRUE CRIME BRASILEIRO

Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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