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Quem é Mefisto e como ele influencia a cultura pop

O Diabo mora nos detalhes

07/12/2022

Um dos arquétipos mais populares da Idade Média, a história de Fausto e seu pacto com o demônio, frequentou romances de cavalaria, em diversas versões. A trama, porém, tem uma vantagem sobre as aventuras dos cavaleiros medievais: os dramas humanos sobre ganância permanecem atemporais, tendo ainda muito a nos dizer, podendo ser recontada sem muitas concessões. Constantemente surgem novas leituras em filmes, peças de teatro, música, balé, óperas, quadrinhos, games e livros.

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Origens da lenda

Ao contrário do que muita gente pensa, o conceito de um pacto com demônio para se conseguir vantagens em troca de sua alma não nasce na mitologia judaico-cristã. Na Bíblia existe o conceito de tentação, que sugere a alguém temente a Deus e de puro de coração a fazer algo que contrarie a palavra do Senhor sem oferecer nada em troca por isso. Ao cair em tentação, a alma estaria imediatamente condenada à danação infernal sem a necessidade de um acordo para isso.

Tudo indica que a ideia de um pacto infernal surgiu na história atribuída à jornada pessoal de Teófilo de Adana, o São Teófilo, no século VI. Teófilo foi um clérigo na cidade de Adana, que fazia parte do Império Bizantino. Ele havia sido eleito por unanimidade para o cargo de bispo, mas, humildemente, recusou. Mais tarde se arrependeu de sua decisão, pois foi perseguido pelo bispo que assumiu em seu lugar. Teófilo decidiu então contatar Satanás pedindo seu auxílio. O demônio prometeu conduzi-lo ao cargo de bispo, desde que o clérigo renunciasse a Jesus Cristo e à Virgem Maria, comprovando isso em um contrato assinado com seu próprio sangue. Teófilo aceitou e conseguiu se tornar bispo.

A lenda

Diversos magos e adivinhos assumiram na Europa o nome “Faustus” por volta do final do século XV. Era quase como um título, numa referência ao seu significado em latim: “o favorecido”. O Fausto da cultura pop é um personagem surgido a partir de alguém que existiu de fato: Johann Georg Faust. Ele era médico, alquimista, mago, astrólogo, filósofo natural, vidente e o que mais pintasse de físico e metafísico na área. Muito conhecido na época, há muitas suposições sobre sua vida com pouquíssimos fatos comprovados, o que aumentou ainda mais as lendas em torno dele.

Inúmeras eram as fofocas em torno de Johann. Além de pacto com demônio e sua morte assombrosa, havia invocação de espíritos e voos noturnos associados à bruxaria, por exemplo. Não bastasse isso, foram se agregando a esta narrativa mitos e lendas que envolviam originalmente outros personagens, como: Simão Mago, São Cipriano e nosso citado São Teófilo, além de variações de episódios bíblicos e medievais, burlas e fábulas.

Todo esse material serviu de inspiração para o surgimento em 1587 de um livro que as reuniu: A História de Dr. Johann Faust, Famoso Mago e Adivinho. Ele ampliou ainda mais a fama do místico, que ultrapassou as fronteiras da Alemanha. O impacto do personagem e de sua história foi tão grande, que podemos dizer que apresentou um novo gênero de narrativa: o romance faustiano, ou Faustbuch.

No livro tem grande destaque o nome de Mefistófeles, o demônio com quem Fausto teria feito um pacto para que este lhe concedesse todos os seus desejos por 24 anos, em troca de sua vida e sua alma. O nome dele teria sido citado em escritos pela primeira vez em textos de magia do próprio Johann Georg Faust.  Considerado um dos demônios mais cruéis, Mefistófeles, ou Mefisto assumiu posteriormente em muitas culturas a figura do próprio Diabo chefe.

A origem de seu nome é controversa e pode ter vindo de povos e culturas distintas. Segundo alguns, seria a combinação de dois termos derivados do hebraico: “Mephir” e “Tophel”, com o significado de “destruidor”. Outros afirmam que teria origem em dois termos gregos: “Me” e “Photos”, significando algo como “aquele que não ama a luz”. Mas também pode vir do latim “Mephitis”, que significa “vapor venenoso do interior da terra”

Não há certeza de quem escreveu este primeiro romance faustiano, mas o autor considerado mais provável seria o livreiro e escritor Johann Spies, responsável por sua primeira impressão e distribuição. Spies teria escrito a obra com o objetivo de advertir a todos os cristãos sobre o mal que poderia acometer aqueles que levassem sua curiosidade intelectual além do considerado aceitável pelas igrejas. Mas logo os escritores perceberam que o personagem e seu antagonista poderiam servir a temas mais profundos e complexos. Assim, Fausto e Mefisto tornaram-se figuras recorrentes na cultura mundial ao longo de mais de quatro séculos.

Marlowe, Goethe e suas Primeiras Influências

Inspirado na obra alemã, ainda em 1592 o escritor e dramaturgo inglês Christopher Marlowe – coautor de algumas peças de seu contemporâneo Willian Shakespeare –, criou a peça teatral A Trágica História do Doutor Fausto, que, de maneira sutil, mostra o dilema do homem ocidental da época, dividido entre a religiosidade medieval e o humanismo renascentista.

Por todo o século XVI, dramas e comédias com atores ou marionetes contando versões da história de Fausto e Mefistófeles foram populares por toda a Europa. Mas foi no Iluminismo que Fausto, suas inquietações e sua tensa relação com Mefisto entraram de vez no imaginário da cultura pop e do inconsciente coletivo das sociedades ocidentais. Em 1760 o escritor alemão Gotthold Ephraim Lessing criou uma nova peça sobre Fausto, uma versão dramática e incompleta em que o personagem encarnava o heroísmo e o potencial do intelecto humano, capaz de, por si mesmo, triunfar sobre o mal, personificado por um demônio.

O Romantismo, que dominou a cultura ocidental até o século seguinte, também foi importante para a valorização da lenda. Assim novas obras nela baseadas surgiram, como A Vida de Fausto (1778), de Maler Müller, e Vida, Feitos e Danação de Fausto, de F. M. Klinger e Fausto, de Nikolaus Lenau, ambos de 1791.

Mas não há dúvida de que a mais famosa de todas as obras baseadas na história de Fausto e Mefisto é a tragédia escrita por Johann Wolfgang von Goethe, que consumiu quase toda a sua vida para ser elaborada. Escrita e reescrita num processo que durou quase 60 anos, a peça foi publicada em duas partes. Para muitos críticos, esta é considerada a maior obra da literatura alemã e norteou todas as versões da história lançadas depois.

É na obra de Goethe que Mefistófeles ganha destaque de verdade, apresentado como um ser ambivalente, contrastando entre suas intenções e suas ações. Mesmo trilhando o caminho da maldade, o demônio acaba conduzindo Fausto para o lado oposto. Tramou para escravizar Fausto, mas, mesmo obtendo êxito no que se propôs, o resultado de sua aposta acabou não sendo o esperado.

Sendo uma perfeita representação arquetípica da alma humana, o mito de Fausto e Mefisto até hoje continua demonstrando sua força em nosso imaginário em novas versões e de forma aparente inesgotável e sempre se renovando. Goethe abriu as porteiras e diversos artistas desde então reagiram a sua obra e deram sua contribuição pessoal para ampliar o alcance e as possíveis interpretações da lenda.

Para começar, a obra tem grande destaque na música clássica. O jovem e futuro grande compositor alemão Franz Schubert sentiu-se impactado pela peça recém-lançada de Goethe e compôs “Gretchen na Roda de Fiar” em 1814. Outro grande nome da música, o compositor francês Louis-Hector Berlioz, lançou em 1846  “A Maldição de Fausto”, uma obra musical de coro e orquestra. Em 1857 estreou “Sinfonia Fausto”, obra de seu colega húngaro Franz Liszt, que também tem vaga cativa no panteão da música clássica.

Sobre as óperas, apenas no século XIX tivemos Fausto e Marguerite (1855), do britânico Meyer Lutz; Fausto (1859), do francês Charles Gounod; e Mefistofele (1868), do italiano Arrigo Boito. 

Quem é Mefisto

Apesar das primeiras obras baseadas na lenda levarem o nome de Fausto em seus títulos, o personagem que em geral hoje nos vem à mente é o seu antagonista. O demônio Mefistófeles, ou simplesmente Mefisto, acaba sendo mais lembrado, seja pelo fato do mal ser mais atraente ou pelos seus maneirismos, sua personalidade envolvente, sua dissimulação ou seu visual apelativo.

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O objetivo de suas ações é sempre o mesmo: condenar as almas dos mortais ao inferno oferecendo a realização de seus desejos em troca delas. Ele pode ser convocado por pessoas insatisfeitas com suas vidas e que têm plena consciência do que estão se metendo ou vir por vontade própria, detectando as inquietações de mortais virtuosos e indo até eles em seus momentos de maior fragilidade para tentar corrompê-los. Um esquema muito parecido com o que vemos na Bíblia, quando Jesus vai jejuar no deserto por 40 dias e Lúcifer vai tentá-lo três vezes.

Mefisto se faz presente e sedutor por sua conversa envolvente, seu charme cativante e sua elegância ao vestir. Sua aparência pode variar de acordo com a versão da história apresentada. Em geral ela é humana, com pele pálida, cabelos escuros e feições bem definidas. Mas ele possui elementos que denunciam sua natureza demoníaca, tais quais chifres, um par de asas semelhantes a morcego, cauda farpada; ou atributos mais discretos, como sobrancelhas inclinadas e olhar penetrante, coaxar da perna esquerda, unhas longas e afiadas. 

Versões de Mefisto na Cultura Pop

Com seu visual e suas características marcantes, Mefistófeles foi uma figura constante em seriados de TV entre as décadas de 1960 e 1980, como Além da Imaginação, Galeria do Terror, O Homem que Veio do Céu e A Ilha da Fantasia. Ou mesmo no seriado mexicano Chapolin Colorado. No episódio “De acordo com o Diabo”, o Chapolin (Roberto Gomes Bolaños) tenta ensinar um rapaz que a ambição não serve para nada. Para isso, ele narra uma versão da história de Fausto, um velho que almeja o poder pelo saber, a juventude e o amor. Mefistófeles (Ramon Valdez) o faz assinar um contrato no qual, em troca de sua alma, Fausto recebe uma varinha mágica (chamada Chirrin-Chirrion) que realiza diversos de seus desejos. Entre eles está o de rejuvenescer e conquistar o coração de Margarida (Florinda Meza). Aqui temos um final diferente, onde Fausto verdadeiramente engana o diabo.

Até nas telenovelas brasileiras Mefisto teve seu espaço. Em Corpo a Corpo, novela das oito da Rede Globo de 1985, temos o misterioso Raul (Flávio Galvão), que se fazia passar pelo diabo e apavorava Eloá (Débora Duarte) na trama, oferecendo-lhe um acordo em troca de sua alma. Só que tudo não passava de uma grande armação. Apesar de ter em seu elenco os então galãs Antônio Fagundes e Marcos Paulo, Galvão falou do sucesso de seu personagem: “A mulherada gostava do diabo”, recorda o ator.

Talvez a mais incrível inspiração em Mefisto para a TV seja o demônio Ele, um dos mais icônicos adversários da trinca de jovens super-heroínas As Meninas Superpoderosas. O personagem era extremamente ousado para um seriado de animação infantil: um demônio com características clássicas – como a cor vermelha, a barbicha e as orelhas pontudas –, mas também com elementos surpreendentes, como seu visual andrógeno e espalhafatoso.

O cinema possui diversas adaptações da lenda desde os primórdios de sua invenção. A mais antiga delas é O Gabinete de Mefistófeles (1897), um curta-metragem francês dirigido por George Méliès. O diretor, aliás, retoma o tema em vários outros curtas ao longo de sua carreira. Em 1915 tivemos Rapsódia Satânica, do italiano Nino Oxilia, que apresenta uma versão feminina de Fausto. Outra lenda do cinema, o alemão F.W. Murnau, dirigiu Fausto (1926), clássico do expressionismo alemão. Uma obra que merece destaque é Fausto (1994), um filme tcheco dirigido por Jan Švankmajer que mistura atores reais com marionetes e diversas técnicas de animação.

Os quadrinhos também possuem suas versões de Fausto e Mefisto. Lançado em 1998, Shaman King é um mangá/anime de Hiroyuki Takei em que um dos personagens é Johann Faust VIII, descendente do Fausto da lenda. A versão mais conhecida nas HQs é Mefisto, personagem dos quadrinhos da norte-americana Marvel Comics envolvido com diversos super-heróis da editora. Ele foi o demônio que fez um pacto com Johnny Blaze, transformando-o no Motoqueiro Fantasma. Foi o responsável pelo surgimento dos filhos de Wanda Maximoff (a Feiticeira Escarlate) e o sintozóide Visão. A alma da mãe de Victor Von Doon (Doutor Destino) está aprisionada em seus domínios. Ele tentou corromper a alma do Surfista Prateado e fez um pacto com o Peter Parker (o Homem-Aranha) para trazer sua Tia May de volta a vida em troca de todas as lembranças e vivências de seu amor por Mary-Jane Watson.

No universo dos videogames, a temática dos pactos demoníacos encontrou terreno fértil para ser explorada em vários níveis. Em 1999, foi lançado Fausto, o primeiro game inspirado no personagem. O jogo apresenta a história a partir do ponto de vista de Mefistófeles e o objetivo do jogador é investigar as causas que levaram o demônio a intervir na vida de Fausto. Mefisto é um dos demônios a se vencer no jogo Diablo II e na sua expansão Diablo II: Lord of Destruction. Neste jogo ele é conhecido como “Senhor do ódio”, que, junto com os seus dois irmãos (Baal, “Senhor da destruição” e Diablo, “Senhor do terror”) formam os chamados Males Supremos. Ele está presente na segunda expansão de Neverwinter Nights: Hordes of the Underdark como chefe final, sob o nome de Mefistófeles.

No jogo de tabuleiro Talisman, Mefistófeles é uma Carta Aventura, que converte personagens de alinhamento bom e neutro em alinhamento Mau. A desenvolvedora paulista Tlön Studios lançou para computador Soul Gambler, um romance visual interativo inspirado livremente na história de Fausto, no qual o protagonista faz um pacto que lhe permite trocar frações de sua alma pela realização de pequenos desejos.

Mefisto, de Klaus Mann

Klaus Mann foi considerado um dos maiores escritores de sua geração. Curiosamente Mefisto, seu livro também baseado na peça de Goethe, foi publicado em 1936, quase dez anos antes do livro do mesmo tema de seu pai, Thomas Mann. A história de Klaus é centrada na trajetória de um ambicioso ator alemão que abdica de seus ideais revolucionários em troca da ascensão social meteórica numa carreira artística cujo ápice, não por acaso, é uma encenação do Fausto de Goethe. Apesar de sua trajetória faustiana, nesta peça o ator interpreta Mefistófeles. Na trágica trajetória do ator, porém, o demônio não é uma entidade fantástica, mas um mal concreto: o próprio Partido Nazista.

Mefisto

O romance foi escrito quando Klaus se encontrava exilado na Holanda, durante a ascensão do Terceiro Reich, um pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Seu protagonista, assim como quase todos os personagens do livro, é inspirado em pessoas reais da época, um dos motivos pelo qual o livro foi censurado. O protagonista era um retrato de seu ex-cunhado, o ator Gustaf Gründgens, que fora casado com sua irmã e considerado por muitos um simpatizante do Partido

Os séculos se passam, mas a cultura pop e a obra de Mann não nos deixam esquecer da natureza ardilosa de Mefisto e de suas propostas tentadoras. Mesmo em diferentes formatos, a mensagem permanece: pensemos bem na hora de assinar qualquer coisa com sangue.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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