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Rose Tremain: “A ficção tem o poder e a missão de trazer o geral para o individual”

Em A Sonata Perfeita autora aborda temas como amizade, amor não correspondido e autocontrole no contexto de Segunda Guerra Mundial.

Como a neutralidade da Suíça na Segunda Guerra Mundial pode estar conectada às nossas ações e à forma com que nos relacionamos? Esta reflexão é o que move a narrativa de A Sonata Perfeita, livro de Rose Tremain publicado pela DarkSide® Books pelo selo DarkLove.

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A história acompanha o jovem Gustav Perle em uma jornada de amadurecimento situada na Suíça da Segunda Guerra Mundial e que acaba percorrendo diversas décadas. Com um tom mais pessoal, Tremain explora o amor não correspondido do garoto e de sua mãe Emilie, que o orienta a manter um estado de neutralidade e autocontrole. Também entra no foco da narrativa uma amizade não muito equilibrada de Gustav com um garoto chamado Anton.

Rose Tremain escreveu o romance a partir de um conto publicado por ela em 2007, aprofundando os temas que envolvem as relações humanas. Alguns elementos, como o papel de Erich Perle, pai de Gustav, na Segunda Guerra foram acrescentados à trama, dando mais camadas à jornada de suas personagens. Outra abordagem que ganhou mais profundidade foi a amizade dos garotos e a relação de Gustav e de sua mãe.

Amores não correspondidos e a reciprocidade nas relações

Certa vez Tremain declarou que “de certa forma, todo amor não é correspondido”. A autora acredita que é inevitável que em qualquer relação sempre tenha alguém que ame mais do que o outro. Gustav entendia isso muito bem, principalmente pela relação nada amorosa com sua mãe e também por ser uma pessoa que instintivamente se importava com os outros, sem pedir muito em troca. 

Os leitores de A Sonata Perfeita podem até ficar um pouco chocados e comovidos por quanto o pequeno Gustav se doa e pelo pouco que ele pede em troca, mas, segundo a autora, “é isso o que o torna um personagem tão único e compassivo, cuja vida vale a pena explorar em um livro”.

Estas características de Gustav também são percebidas em sua relação nada equilibrada de amizade com Anton: “A amizade, se for duradoura, deve ser baseada na reciprocidade, e muitas pessoas são muito egoístas para perceber e alimentar isso”. Na trama, Gustav se empenha para manter uma amizade com o egoísta Anton, acreditando que ele é a única pessoa capaz de salvar seu amigo dos difíceis rumos que sua vida acaba tomando. 

Fora das páginas da ficção, Rose Tremain comenta que algumas experiências pessoais a levaram a abordar tal dinâmica. “Na minha vida, algumas amizades acabaram não dando certo simplesmente por causa da geografia. Mas todas as amizades que eu deliberadamente deixei sumir foram aquelas em que conversas verdadeiras e honestas não eram mais possíveis por causa da insistência destes amigos em sempre colocar a vida deles em uma posição muito mais importante do que a minha”.

Para a autora, dinâmicas de amizade em que uma pessoa está muito concentrada em si mesma tendem a não se sustentar por muito tempo justamente pela natureza desequilibrada de uma troca que não ocorre de forma justa. “Como escritora, eu sou naturalmente fascinada pela construção e pelos detalhes das vidas de outras pessoas, e eu sou uma ouvinte muito experiente e empática, mas eu também preciso sentir que as minhas próprias experiências são valorizadas aos olhos dos outros”.

Criado por uma mãe fria, cuja principal lição de vida era a de manter neutralidade e de controlar a si mesmo, Gustav não deixou sua natureza se abalar pela disparidade de afeição entre os dois. A escritora baseou a lição da mãe no termo suíço-alemão Selbstbeherrschung, que significa ao mesmo tempo ter autocontrole e autoconfiança

A ironia na história é que, se a mãe de Gustav tivesse lhe demonstrado um pouco mais de amor e afeição, talvez ele não precisasse ser tão autodisciplinado. Ainda assim, este autocontrole é o que mantém Gustav perseverante ao longo de sua vida, mesmo diante das adversidades. Torna-se admirável a visão do personagem de que a vida só se torna suportável pela existência de pequenos prazeres e confortos.

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O que a neutralidade da Suíça tem a ver com a lição de Emilie

A mãe de Gustav baseia sua lição de neutralidade e autocontrole pelo comportamento da Suíça durante a Segunda Guerra Mundial, ao não tomar lados no conflito. No entanto, a própria autora discorda que tenha sido uma situação tranquila e de pleno autocontrole: “Estamos falando de uma nação composta por alemães, franceses e italianos. Eles foram obrigados a se manter neutros ou corriam o risco de criar uma guerra entre eles próprios”.

Tremain destaca que não havia nada de sereno na decisão de neutralidade dos suíços. “Conforme a Guerra avançava, eles se tornavam cada vez mais aterrorizados pela iminência de uma invasão alemã”. Esta apreensão foi um dos elementos que mais chamou a atenção dela para desenvolver sua história: “Eu estava interessada em examinar não apenas a neutralidade conforme ela se desenvolveu na Suíça, mas em criar uma pessoa que está se esforçando para alcançar uma espécie de neutralidade, que corre o risco de se tornar apenas uma ausência de sentimentos, uma espécie de recusa a se envolver em sentimentos mais intensos”.

Como A Sonata Perfeita se relaciona com os tempos atuais

Em A Sonata Perfeita, Rose Tremain também aborda com bastante importância para a trama o fato de a Suíça ter se recusado a receber imigrantes sem visto a partir de certo momento, em virtude das volumosas migrações de judeus que buscavam fugir da perseguição nazista. “Primeiramente os suíços foram bem receptivos, só que os números começaram a subir”. 

A escritora compara este cenário com a crise de refugiados, observada principalmente na Europa nos últimos anos. “Os suíços sentiam em relação aos judeus – mais ou menos como muitos países europeus se sentem atualmente em relação aos refugiados do Oriente Médio – que um certo número seria aceitável, mas a Suíça é um país pequeno e quando milhares começam a entrar, ele começa a se sufocar e a dizer que o barco está cheio”.

Ela destaca o papel heróico de Erich, pai de Gustav, na crise migratória causada pela Guerra, alterando as datas de entrada no país para que os judeus pudessem entrar, o que lhe traz sérias consequências. “Nós gostamos de acreditar que o altruísmo e o sacrifício sempre serão honrados com recompensa, mas nem sempre é o caso”. 

Enquanto Rose Tremain já escrevia A Sonata Perfeita, ela se deparou em sua pesquisa com a história de um policial de fronteira que, sensibilizado pela situação dos judeus, arriscou sua carreira para que eles pudessem entrar na Suíça. Ela se inspirou nesta história para escrever a jornada de Erich Perle.

Para a autora, estas histórias individuais são importantes para envolver o leitor mais profundamente nestas questões. “Eu acredito que é muito difícil sentir compaixão e se identificar com o que chamamos de ‘um grupo de pessoas sem rosto’. Quando conhecemos a história de um indivíduo, acabamos nos envolvendo com as suas dores e alegrias e a nossa compreensão humana volta a agir”. Rose Tremain acredita que a ficção tem este poder e esta missão de trazer o geral para o individual, gerando mais empatia diante de acontecimentos reais.

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