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Seria Drácula inspirado em Oscar Wilde?

Relação entre o autor e Bram Stoker ia além do triângulo amoroso com Florence Balcombe

Uma das curiosidades mais interessantes nas biografias de Bram Stoker e Oscar Wilde é que os dois cortejaram a mesma mulher: Florence Balcombe. Só que nestas supostas disputas do coração, o autor de Drácula levou a melhor e se casou com uma das principais beldades da Irlanda na época. Mas a relação dos dois pode ter ido muito além disso.

LEIA TAMBÉM: 8 CURIOSIDADES SOBRE A VIDA CONTURBADA DE OSCAR WILDE

As vidas dos dois escritores irlandeses não poderiam ser mais opostas: enquanto Stoker sempre prezou por estabilidade e discrição, o autor de O Retrato de Dorian Gray era muito mais impulsivo e se entregava às suas paixões: as artes e os homens – algo que era motivo de fascínio e repúdio na sociedade vitoriana.

Oscar Wilde – Créditos: Getty Images

Mas ambos tinham muito mais em comum do que Bram Stoker gostava de admitir, pelo menos publicamente. Estudiosos da vida e obra do escritor destacam que ele sempre escreveu de maneira criptografada, tanto em seus diários como em suas obras. Sua verdadeira personalidade estava muito mais no que ele não mencionava nestes textos, assim como sua sexualidade.

É consenso entre boa parte dos estudiosos sobre Stoker que ele, assim como Oscar Wilde também era homossexual. Porém, diferentemente do compatriota, ele era não apenas discreto, mas reprimia seus sentimentos por outros homens. Na época da prisão de Wilde por sodomia, Stoker compartilhava da onda homofóbica anti-Wilde. Coincidentemente, foi por esta época que ele escreveu a obra que lhe imortalizaria na literatura.

A sexualidade de Stoker se escondia sob seus textos criptografados. Chamado de “o autor que não se atrevia a mencionar o próprio nome”, ele transformou seus desejos em enigmas e histórias de ficção, muitos descobertos em seus diários – sempre com muita discrição, claro. Porém, em certas anotações e em uma carta específica redigida para o poeta Walt Whitman ele baixa sua guarda, deixando suas inclinações um pouco mais evidentes. 

A relação entre Bram Stoker e Oscar Wilde

O autor de O Retrato de Dorian Gray era sete anos mais jovem do que Bram Stoker e os dois se conheciam desde jovens, provavelmente com o primeiro contato em um dos eventos literários da mãe de Oscar. O autor de Drácula era amigo e colega do irmão mais velho de Oscar Wilde, Willie, com quem estudou no prestigiado Trinity College.

Bram Stoker – Imagem de domínio público

Em 1871, Oscar Wilde também começou a estudar no Trinity College, onde Stoker já tinha sua reputação de intelectual cosmopolita que admirava a poesia de Whitman, uma paixão compartilhada por Wilde. Os dois se tornaram uma espécie de rivais por esta época. Mas enquanto Bram Stoker se tornou uma personalidade admirada no meio acadêmico, Oscar Wilde não tinha muita disciplina e preferia passar o tempo tendo encontros com professores mais velhos.  

A competitividade entre os dois ficou ainda mais evidente quando a figura de Florence Balcombe, considerada uma das mulheres irlandesas mais belas da época. Os autores mantinham uma relação pelo menos diplomática até então, porém, quando Bram pediu Florence em casamento em 1878, qualquer resquício de amizade se encerrou por ali – Wilde também cortejava a moça.

Pouco depois, Bram Stoker foi chamado para trabalhar no teatro Liceu, em Londres, com o ator Henry Irving. A mudança poderia ajudar sua esposa a realizar o sonho de seguir uma carreira como atriz. Wilde também tinha aspirações de conquistar a capital inglesa, então isso serviu como uma espécie de dupla derrota.

LEIA TAMBÉM: DRÁCULA AO LONGO DAS DÉCADAS: UMA CRONOLOGIA IMORTAL

O que esta relação tem a ver com Drácula?

Em 1985, Eve Sedgwick abordou este e outros casos de paixões homossexuais mencionados ou implícitos na literatura vitoriana no livro Between Men [Entre Homens]. Ela inspirou Talia Schaffer a escrever um artigo específico sobre o caso Stoker-Wilde, intitulado A Wilde Desire Took Me: The Homoerotic History of Dracula” [Um desejo por Wilde me tomou: A história homoerótica de Drácula]. 

Schaffer chama a atenção para a necessidade de ler a obra dos dois autores sob esta perspectiva. Diferentemente daqueles que publicaram os diários de Stoker, ela defende que o autor de Drácula teria se apaixonado por Henry Irving e mantivesse uma relação com Wilde a distância. Mais do que isso: Oscar Wilde teria sido a inspiração para o Conde Drácula.

Fazendo parte do movimento homofóbico anti-Wilde, Bram Stoker começou a esrever sua obra-prima logo após a condenação do colega a trabalhos forçados. É bem fácil observar as semelhanças entre o escritor e o personagem: graças à rápida transformação da sua personalidade em algo gótico aos olhos da opinião pública em 1890, Oscar Wilde passou a representar muitos valores reprimidos do final da Era Vitoriana.

O fascínio público do povo britânico com os detalhes do julgamento do escritor resultou em um linchamento moral de sua pessoa – e olha que nem existiam redes sociais para isso. Até nos círculos homossexuais ele passou a ser visto como persona non grata. Oscar Wilde era tido como uma pessoa perigosa, desagradável mas ao mesmo tempo fascinante – exatamente como Drácula, interpretado à época como uma representação de tudo o que era condenado pelos britânicos: o republicanismo irlandês, os imigrantes do Leste Europeu e uma sexualidade em desacordo com os padrões morais da época.   

O vampirão não representava Oscar Wilde em si, mas sim todos os medos e fascínios que ele provocava na sociedade britânica. De acordo com Schaffer, Stoker disseminava suas paixões homoeróticas através do personagem de Jonathan Harker, que é trancado no castelo de Drácula e obrigado a levar uma vida passiva, refugiando-se no seu diário para descrever os terrores de ser mantido em cativeiro.

Drácula e Jonathan – Créditos: American Zoetrope – © 1992

Além disso, há uma figura central a este triângulo amoroso: Mina, a amada de Jonathan e do Conde. Mas engana-se quem pensa que ela representaria Florence Balcombe. Segundo esta teoria, o centro do triângulo, que mantinha algum tipo de relação tanto com Stoker como com Wilde era o ator Henry Irving. Os dois triângulos funcionam com princípios semelhantes.

A arte e a vida real se misturam tanto na obra de Oscar Wilde como na de Bram Stoker. Saber da relação dos dois escritores entre si e com a própria sexualidade dá um ângulo particularmente interessante para revisitar suas obras. Na sua próxima leitura de Drácula, talvez seja ainda mais difícil separar o artista da obra, o que pode levar a descobertas fascinantes sobre quem o autor realmente era.

LEIA TAMBÉM: O RETRATO DE DORIAN GRAY E A NOSSA OBSESSÃO PELA JUVENTUDE

Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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