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Um passeio pelos becos sinistros do Distrito da Luz Vermelha

Famoso bairro de Amsterdã sedia um encontro macabro em Livros de Sangue vol. 2

Jacqueline Ess é uma mulher que se torna mortalmente atraente e manipuladora. No conto “O Testamento de Jacqueline Ess”, de Livros de Sangue vol. 2, o leitor acompanha seu rastro de destruição até o Distrito da Luz Vermelha, famoso bairro de Amsterdã.

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Como o nome já entrega, o que torna esta localidade mundialmente conhecida é a sua íntima relação com a indústria do sexo. Lá existem sex shops, teatros com performances eróticas, peep shows e, claro, as famosas janelas que servem como vitrines para as mulheres que oferecem seus serviços. O bairro ainda abriga a primeira loja do mundo especializada em preservativos.

Mas o que os milhões de turistas que passam por lá todos os anos nem sempre se dão conta é da história e da tradição da localidade, que já enfrentou todo tipo de contratempo ao longo dos séculos e resiste mesmo diante dos planos mais protecionistas dos governantes da cidade.

Créditos: redlightdistrictamsterdamtours.com

A história do Distrito da Luz Vermelha

O De Wallen, o nome oficial do Distrito, e sua história com prostituição são quase tão antigos quanto a própria Amsterdã. Pelo menos desde o início do século XV (senão antes), a capital dos Países Baixos se consolidou como um importante porto comercial para a região

Empresas como a East India Company comercializavam temperos de todo o mundo. O sucesso deste ramo de negócios mais tarde resultaria no primeiro mercado de ações, o Amsterdam Exchange (AEX), localizado nos limites do De Wallen.

Não é de se admirar por que o Distrito da Luz Vermelha está localizado em uma das regiões mais antigas da cidade, ao lado do Centro. Eram muitos os marinheiros que passavam meses a bordo de navios, longe de casa e dos prazeres da companhia de uma mulher, que aportavam por ali.

Assim que os marinheiros chegavam em Amsterdã tinham um cronograma bem-definido: 1) Receber o pagamento da missão; 2) Ir para a igreja se confessar – não é por acaso que a Oude Kerk (igreja velha) está localizada lá; e 3) Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador com mulheres, bebidas e bordéis.

Mas não era apenas a oferta e demanda que tornou do De Wallen um local propício para as profissionais do sexo. Como acontece até os dias de hoje, elas trabalhavam lá porque esta era sua melhor opção para se manter. Muitas holandesas eram casadas com marinheiros e se tornavam viúvas muito jovens. Como a igreja não permitia que elas se casassem novamente e com um mercado de trabalho ainda mais restrito para mulheres, a prostituição se tornava uma das poucas opções para sustentar a família.

Em 1570 a prostituição se tornou ilegal nos Países Baixos, apesar de não existir muita fiscalização quanto a isso. Em 1795 os franceses invadiram a região, legalizaram a prostituição e regulamentaram os bordéis. Quando o país se livrou do domínio francês em 1813, as cidades não tinham um consenso sobre manter a legalidade da atividade ou não. Amsterdã se manteve liberal.

Como o mundo da política é cheio de reviravoltas, em 1911 os bordéis foram proibidos, forçando as mulheres a trabalharem nas ruas. Mas nem isso durou muito tempo, pois oferecer serviços sexuais nas ruas também se tornou proibido em 1920. 

A alternativa foi oferecer serviços através das janelas. Com abajures projetados por trás de cortinas vermelhas, elas indicavam que ofereciam sexo. Com o tempo, as cortinas puderam ser levantadas e as luminárias adotaram de vez a cor vermelha. Dos anos 1970 para cá as roupas usadas pelas mulheres que se posicionam nas janelas se tornaram cada vez mais escassas, dando a característica do Distrito da Luz Vermelha como o conhecemos hoje.

Em 2000 o governo holandês legalizou novamente os bordéis, tornando-os registrados na prefeitura. As prostitutas são regulamentadas e cadastradas na Câmara do Comércio como autônomas e alugam suas janelas dos bordéis.

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Créditos: © Getty Images

O lado sinistro do Distrito da Luz Vermelha

Na teoria, tudo parece muito tranquilo e legítimo: prostitutas são reconhecidas como profissionais autônomas, pagam impostos e contam com benefícios trabalhistas como qualquer outra profissão. Mas os sorrisos convidativos por trás das janelas muitas vezes escondem histórias aterrorizantes.

Para começar, a maioria das garotas que trabalham como prostitutas em Amsterdã vêm de países mais pobres. Antigamente uma das origens mais comuns era a América do Sul, atualmente, a maioria delas vêm do Leste Europeu, Ásia e África. 

A maioria destas mulheres tem entre 20 e 30 anos, já que há pouca demanda para pessoas mais velhas. Isso gera um problema porque, ao mesmo tempo em que elas conseguem fazer bastante dinheiro em uma década, a renda se vai rapidamente: para namorados, cafetões ou para ajudar a família em seus países de origem. Isso as deixa sem perspectivas no mercado de trabalho.

Aliás, a menção a cafetões não ocorre por acaso. Apesar da legislação abrir caminhos para que as mulheres trabalhem de forma autônoma, a figura do cafetão aqui está mais relacionada a casos de tráfico humano. Organizações criminosas em países como Rússia e Romênia coagem garotas com falsas promessas de emprego e as obrigam a trabalhar como prostitutas em Amsterdã. Muitas delas têm muito medo para ir à delegacia ou a grupos de amparo, temendo pela segurança de suas famílias em seus países de origem.

Iludidas, manipuladas e chantageadas por pretensos namorados, elas são forçadas a trabalhar como prostitutas e a deixarem todo ou quase todo o seu dinheiro com estes homens. Além disso, há relatos de cirurgias plásticas realizadas contra a vontade das mulheres, além de abortos forçados e doenças venéreas.

Apesar de um estudo sociológico da Universidade de Amsterdã apontar que o número destes casos vem diminuindo, ainda é uma triste realidade para muitas mulheres. Nos útlimos anos, vários proprietários de bordéis de janelas e teatros de sexo têm sido ameaçados de perderem seus alvarás por serem suspeitos de envolvimento com o crime organizado

Sabe-se que criminosos usam o Distrito da Luz Vermelha para lavagem de dinheiro, já que há altos valores circulando sem a emissão de notas fiscais, o que abre muitas possibilidades para sonegar impostos.

Além das próprias ameaças do crime organizado, a prostituição pode ser um trabalho perigoso em Amsterdã, como em qualquer outro lugar no mundo, pelos próprios clientes. A taxa de homicídios de prostitutas é de aproximadamente uma por ano.

Para os números da violência no Brasil pode parecer pouco, mas nos Países Baixos o número é suficiente para que medidas de segurança sejam tomadas. A maioria dos quartos dos bordéis contam com seguranças e botões do pânico, que as mulheres podem acionar sempre que se sentirem ameaçadas. O policiamento é constante nas ruas do De Wallen, inclusive de agentes à paisana, e dezenas de câmeras de segurança monitoram a área.

Para os turistas, ainda é uma região relativamente segura. Os principais pontos de atenção são os batedores de carteira e pessoas que oferecem drogas ilegais – mas que na verdade encobrem um esquema para assaltar pretensos clientes.

Créditos: © Getty Images

O futuro do Distrito da Luz Vermelha é incerto

Como deu para perceber, desde o começo o De Wallen e o trabalho com prostituição em Amsterdã têm sido ameaçados por leis e governantes. E isso persiste até hoje. Em 2007 a prefeitura iniciou um projeto de gentrificação que pretende devolver esta área nobre da cidade a seus residentes.

A primeira medida foi a compra de janelas de bordéis, que foram substituídas por vitrines de roupas e obras de arte. Outras medidas envolvem a substituição das famosas coffee shops por “negócios mais valiosos” e a construção de escolas acompanhada da restrição de atividades relacionadas a sexo próximas aos educandários.

O que muitos turistas não sabem é que a região do De Wallen não é exclusiva para sexo, festas e vida noturna. Há pessoas que moram lá e conduzem suas atividades rotineiras em meio à badalação de quem é de fora. Pessoas bêbadas, grandes grupos guiados e turistas desdenhando das mulheres nas janelas são cenas comuns e, segundo os governantes, o objetivo é proteger moradores e prostitutas destas situações.

A discussão não é tão simples assim. Poucos anos atrás, as profissionais do Distrito da Luz Vermelha organizaram a maior manifestação da categoria em todo o mundo defendendo sua permanência no De Wallen. Aparentemente a presença dos turistas não é sinal de incômodo para todo mundo.

A proposta dos governantes não é a de perseguir a prostituição na cidade. A ideia é mover as profissionais para um novo “distrito do sexo”, deixando-o mais afastado do centro da cidade, embora nenhuma localidade tenha sido indicada até agora. O mesmo ocorreria com teatros de sexo e coffee shops.

A preocupação é que tal banimento tenha o efeito reverso: com as prostitutas voltando a oferecer seus serviços nas ruas, sem toda a burocracia dos bordéis de janela. O mesmo pode ocorrer com o sumiço das coffee shops, abrindo caminho para traficantes atuarem numa região que ainda seria muito visada. 

No início de 2020 a prefeitura e a câmara de vereadores fecharam o cerco aos passeios guiados no Distrito da Luz Vermelha, deixando-os muito mais limitados. Coincidentemente, a pandemia da covid-19 deu aos moradores uma ideia do que seria viver ali sem a movimentação habitual.

Com o retorno gradativo do turismo nos Países Baixos, o futuro do De Wallen é incerto e a possibilidade de “resetar” o centro da cidade parece mais próxima. Mas a julgar pela história do famoso Distrito, seus becos sinistros e estreitos têm grandes chances de manter suas luzes vermelhas acesas por muito tempo.

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Sobre DarkSide

Eles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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