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Você sabe o que é Queer Horror?

Uma breve história do terror queer

12/12/2022

“A história do horror queer é a história do próprio horror.” Essa é a premissa de Queer for Fear, novo documentário do streaming Shudder que estreou no final de setembro. Com a intenção de seguir os passos de Horror Noire, documentário baseado na obra de Robin R. Means Coleman sobre a história do horror e da representação negra no cinema, Queer for Fear é dividida em quatro episódios e conta com produção de Bryan Fuller, criador da série Hannibal.

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A série aborda a história do horror LGBTQIA+ e a relação entre o gênero cinematográfico que tanto amamos e as comunidades queer. A lição é valiosa: representação e representatividade queer não são coisas novas no cinema. Muito pelo contrário, elas sempre estiveram ali.  

O que é Queer Horror?

O conceito é bastante fluido e abrangente, podendo englobar filmes feitos por artistas queer ou não. Pode definir produções que tratam abertamente de temas da comunidade ou que são intricadamente codificadas. Produções destinadas ao público queer ou que são adotadas e até mesmo posteriormente ressignificadas como seus símbolos, como é o caso do monstro Babadook

Apesar de estarem cada dia mais populares, temas queer têm sido abordados desde o nascimento do cinema de horror. Na verdade, muito antes do audiovisual surgir, eles já apareciam na literatura, principalmente nas novelas góticas do século XIX. 

Monstros Literários Queer

Em 1872, Carmilla do escritor irlandês Sheridan Le Fanu foi uma das primeiras histórias a retratar o tropo narrativo da vampira lésbica, o qual seria ainda mais popularizado pelo cinema no século seguinte. A história de Laura, uma jovem e inocente donzela que se vê envolvida pela bela e sedutora Carmilla, é um clássico da literatura que precedeu a publicação de Drácula de Bram Stoker. 

carmilla

Falando em um dos vampiros mais famosos de todos os tempos, muito especula-se sobre as alusões sexuais feitas por Stoker em seu mais cultuado romance. O tema queer presente em Drácula vem sendo discutido há tempos por estudiosos, que inclusive acreditam que seu autor era homossexual. 

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… e Monstros Cinematográficos Queer

O tema queer de Drácula chegou nos cinemas logo em 1922 na adaptação não autorizada do cineasta alemão F.W. Murnau: Nosferatu. Murnau não era assumidamente gay, mas isso não o impediu de inserir subtextos queer em seu longa-metragem. Iniciava-se assim uma longa tradição de monstros queer no audiovisual de horror

Canonicamente, considera-se Frankenstein de James Whale, adaptação autorizada do livro de Mary Shelley, um dos primeiros filmes de horror queer. A produção de 1931 celebra a Criatura rejeitada pela sociedade que não o aceita por ser diferente e a constrói como o personagem mais complexo e simpático da história. É impossível assistir à atuação de Boris Karloff e não sentir empatia pela Criatura. 

Whale, que era assumidamente homossexual, levou muito de sua identidade para os filmes que dirigiu, como A Noiva de Frankenstein de 1935, driblando a censura imposta pelo Código Hays, que proibia qualquer “inferência de perversão sexual”, uma categoria que de forma preconceituosa incluía a homossexualidade. 

a noiva de frankenstein

Muitos cineastas resolveram assim utilizar dos monstros e de seus subtextos para se sentirem representados em seus filmes. E assim, no ano seguinte, a Universal continuou a produção de seus monstros queer. Em A Filha de Drácula, uma glamurosa condessa seduz e se alimenta tanto de homens quanto de mulheres. Ela inclusive procura ajuda psiquiátrica para curar seu “vampirismo”, o que obviamente não dá muito certo.  

Com o passar dos anos, diversos filmes continuaram representando personagens queer, seja de forma implícita ou explícita. A lista é longa e variada, com algumas representações mais positivas que outras. Theodora, ou Theo para os íntimos, é uma mulher explicitamente lésbica e uma das protagonistas de Desafio do Além, adaptação de 1963 da obra de Shirley Jackson. A grande sacada é que diferentemente de muitos outros personagens do período, Theo não foi construída como predatória ou como a vilã da trama. Mesmo assim, devido à censura, a lesbianidade de Theo teve que ser “menos óbvia” e algumas cenas foram cortadas do roteiro. 

Isso não aconteceu com Norman Bates em Psicose de Alfred Hitchcock, adaptação do livro de Robert Bloch. A sexualidade e as performances de gênero do personagem o constroem como uma perigosa e monstruosa ameaça, influenciando muitas representações negativas nas décadas seguintes, como Buffalo Bill em O Silêncio dos Inocentes de 1991. 

Nos anos 1970, o horror queer continuava em alta, beneficiando-se do fim do código Hays e da censura em 1968. A trilogia Karnstein da produtora britânica Hammer inspirou-se em Carmilla de Le Fanu para produzir Atração Mortal (1970), Luxúria de Vampiros (1971) e As Filhas de Drácula (1971). Os três filmes foram considerados “ousados” para a época por sua representação explícita da lesbianidade

Em 1975, foi a vez do fenômeno The Rocky Horror Picture Show. Abordando temas como liberdade sexual, bissexualidade, androginia e expressões de gênero, o musical criou uma comunidade de fãs e ganhou um lugar cativo em nossos corações. O doutor Frank N. Furter, o cientista louco que na verdade é uma travesti do planeta Transexual, tornou-se um símbolo da comunidade queer, convidando todos a celebrarem e abraçarem suas identidades e sexualidades. A mensagem era simples: “Não sonhe, SEJA!”.

rocky horror picture show

Nos anos1980, com a pandemia da Aids e os preconceitos ligados a ela, muitos filmes traziam personagens queer como perigosos, ligando homossexualidade, transgeneridade e travestilidade como monstruosos e assassinos. É o caso de filmes como Vestida para Matar (1980) e Acampamento Sinistro (1983), que posteriormente foram ressignificados e abraçados pela comunidade LGBTQIA+. 

Mas engana-se quem acha que não existiram exemplos positivos. Em 1983, Fome de Viver trouxe um triângulo amoroso marcado por uma sexualidade fluida em uma história sobre vampirismo protagonizada por Catherine Deneuve, Susan Sarandon e ninguém mais, ninguém menos do que David Bowie. 

Vampiros, inclusive, sempre forneceram ótimas oportunidades para histórias queer, como é o caso de Os Garotos Perdidos do diretor Joel Schumacher e Entrevista com Vampiro, estrelado por Tom Cruise e Brad Pitt.

Em 1985, veio outro marco para o horror queer: A Hora do Pesadelo 2 – A Vingança de Freddy. Apesar do roteirista e diretor tentarem, foi impossível negar o tom e o olhar homoerótico do filme. Mark Patton, que posteriormente se assumiu gay, interpretou Jesse, um adolescente que não apenas é perseguido por Freddy Krueger, como também passa pelo processo de descoberta de sua sexualidade.

a hora do pesadelo 2

Jesse surgiu como um dos primeiros garotos finais da história do cinema de horror e conferiu muita representatividade para diversos jovens que o assistiam. Cineastas e entusiastas do gênero contam que pela primeira vez enxergavam alguém como eles nas grandes telas. Inclusive, o legado do filme e a vida de Patton foram abordados no documentário Scream, Queen! A Hora do Meu Pesadelo, lançado em 2019.  

Não podemos esquecer de Clive Barker, nome mais do que conhecido entre os DarkSiders, que em 1987 adaptou e dirigiu seu Hellraiser. Barker, que é assumidamente gay, trouxe uma história questionadora sobre normas, aparências e sexo, com demônios sem gênero definido e envoltos em couro, parcialmente inspirados por clubes de S&M que o autor havia visitado em Nova York. Em 1990, Barker retornou com Raça das Trevas, uma alegoria queer sobre um grupo de monstros excluídos da sociedade que criam sua própria civilização. 

hellraiser

Inicialmente interpretado por Doug Bradley, um homem cis, o grande líder dos cenobitas, Pinhead voltou às telas este ano, no reboot de Hellraiser. Dessa vez, interpretado por Jamie Clayton, uma mulher trans

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Queer Horror hoje: Dos anos 1990 em diante

A virada do século foi marcada pela continuidade de certa ambiguidade nas representações queer no cinema de horror. 

De um lado, tínhamos exemplos positivos, como Garota Infernal de Karyn Kusama. Não era à toa que Jennifer Check, interpretada por Megan Fox, falava que “jogava para os dois lados”. A própria cena em que Jennifer e Needy se beijam se tornou um símbolo de representatividade lésbica e bissexual, principalmente por não hipersexualizar as personagens

garota infernal

De outro lado… bem, existiam os filmes que continuavam perpetuando estereótipos complicados, como é o caso do francês Alta Tensão, que trazia a representação da lésbica assassina e psicótica. Produções assim acabavam infelizmente reforçando a ideia de que personagens queer possuíam apenas três destinos: serem vítimas, monstruosidades ou assassinos psicóticos

Essa tendência de assassinar brutalmente personagens queer se tornou tão recorrente no cinema de horror que inclusive ganhou seu próprio nome: “enterrando seus gays”. A boa notícia é que cansados disso, muitos produtores, cineastas e roteiristas resolveram trazer temas e perspectivas abertamente queer em seus filmes. Sem segredos, entrelinhas ou subtextos.

Foi o caso da roteirista Alyson Richards, que escreveu The Retreat, produção de 2021 dirigida por Pat Mills sobre um casal de mulheres ameaçadas por assassinos homofóbicos durante um final de semana em uma residência remota. 

The Retreat é apenas o começo de uma longa lista de produções que procuram questionar representações estereotipadas da comunidade LGBTQIA+. Faca no Coração, filme de 2018 do diretor Yann Gonzalez, é ambientado no mundo da pornografia gay e povoado por personagens queer. A comédia de horror Freaky: No Corpo de Um Assassino brinca com identidade de gênero ao fazer uma adolescente trocar de corpo com um assassino em série. A francesa Julia Ducournau ganhou a Palma de Ouro com Titane, um filme que questiona sexualidade, corpo e humanidade, enquanto o último Pânico trouxe Jasmine Savoy Brown como Mindy, a primeira personagem assumidamente gay da franquia (apesar de amarmos a ideia de que Stu e Billy eram SIM um casal). 

freaky

O recente Morte, Morte, Morte, da diretora Halina Reijn, traz no seu centro a sexualidade fluida e o questionamento de rótulos da geração Z. Já o fenômeno da Netflix, a trilogia Rua do Medo não só é protagonizada por personagens queer e centrada no romance de duas mulheres, como também questiona as expectativas do próprio público, ao brincar com as convenções de representação de sexualidade no cinema de horror. 

E engana-se quem acha que o Brasil não entra nessa leva de horror queer! Em As Boas Maneiras, Juliana Rojas e Marco Dutra dirigem a história de duas mulheres que têm suas vidas entrelaçadas pelo nascimento de uma criança e logo desenvolvem um relacionamento amoroso. Verão Fantasma (2022), de Matheus Marchetti, traz um coming of age que narra a história de dois adolescentes que se apaixonam e investigam o mistério de uma criança desaparecida no litoral brasileiro. 

as boas maneiras

A televisão também não ficou para trás. Séries como Hannibal, Buffy: A Caça-Vampiros, True Blood e American Horror Story há muito abordam o tema queer, seja por meio de seus personagens ou histórias. O reality show The Boulet Brothers’ Dragula reúne horror e cultura queer em uma competição onde artistas drags precisam cumprir desafios temáticos. 

Um dos mais recentes sucessos foi Chucky, atualmente em sua segunda temporada. A série do boneco assassino mais famoso do horror tem como protagonista Jake Wheeler, um adolescente assumidamente gay, que precisa lutar contra Chucky e suas tendências homicidas. Com humor na medida certa, representatividade queer e assassinatos, a série é tudo que o público precisava. Afinal, Chucky pode até ser um assassino, mas jamais um homofóbico.  

chucky

Don Mancini, o criador da franquia e produtor executivo da série, conta que cada nova produção de Chucky é mais pessoal e autobiográfica. Segundo ele, o personagem de Jake é uma forma de lidar com muitas das coisas que teve que enfrentar enquanto um jovem gay. Vale lembrar que essa não é a primeira vez que a franquia traz para o seu centro a comunidade queer

Em 1998, tivemos A Noiva de Chucky e em 2004, O Filho de Chucky, dirigido pelo próprio Mancini, que trouxe o nascimento de Glen/Glenda, fruto do relacionamento de Chucky e Tiffany, que não apenas não compactuava com os assassinatos dos pais, como também era um boneco não-binário. Para nossa felicidade, Glen e Glenda retornaram para casa na segunda temporada de Chucky, interpretados por Lachlan Watson. 

filho de chucky

E o Babadook?

Para quem ainda está se perguntando como O Babadook se tornou um símbolo queer a resposta está bem na nossa frente.

O monstro criado por Jennifer Kent é um outsider. Escondido em um porão, ele é considerado estranho e até mesmo um pouco extravagante. E é assim que diversas pessoas da comunidade LGBTQIA+ se sentem muitas vezes com suas próprias famílias. Nada mais significativo do que ele ser transformado em um símbolo da comunidade queer, não é mesmo?

babadook

O Babadook, assim como outros inúmeros filmes, mostra a potência dos textos e imagens queer dentro do cinema de horror, mas também fora dele, para as milhares de pessoas que gostam, produzem e consomem o gênero, que se tornou como uma segunda casa para muitos

Sejam com os monstros da Universal ou vampiros homoeróticos. Com os horrores corporais de David Cronenberg ou com garotos finais inusitados, o horror se mostra para muitas pessoas queer como um lugar de acolhimento e conforto. Um lugar de diversidade e pluralidade. Um lugar onde podemos ser nós mesmos. 

A história do horror queer realmente é a história do próprio horror. Agora nos resta esperar as novidades que o amanhã nos reserva. Afinal, o futuro do horror é definitivamente queer.

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Sobre DarkSide

Avatar photoEles bem que tentaram nos vender um mundo perfeito. Não é nossa culpa se enxergamos as marcas de sangue embaixo do tapete. Na verdade, essa é a nossa maldição. Somos íntimos das sombras. Sentimos o frio que habita os corações humanos. Conhecemos o medo de perto, por vezes, até rimos dele. Dentro de nós, é sempre meia-noite. É inútil resistir. Faça um pacto com quem reconhece a beleza d’ O terror. O terror. Você é um dos nossos.

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